DISCO/LANÇAMENTO - Affonsinho viaja por Minas
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 29 de julho de 2003
Katia Michelle Pires<br> Equipe da Folha 
Curitiba - Ele queria ser John Lennon. Aos seis anos de idade, antes mesmo de batman ou super-homem, o músico mineiro Affonsinho já tinha o beatle como seu principal super-herói. O ponto máximo da devoção aconteceu quando o pai do futuro músico chegou em casa com um violão, contando a prosaica história de que havia encontrado Lennon nas ruas do Rio de Janeiro, onde moravam na época, e este teria dado o instrumento para que fosse entregue ao pequeno fã. Affonsinho se encantou com o presente, mas foi só três anos mais tarde que encontrou uma pessoa disposta a lhe ensinar a tocar o instrumento ''recebido de Lennon''.
Um primo com um repertório formado essencialmente por músicas de Roberto Carlos assumiu a missão. Affonsinho tinha então nove anos, mas logo saiu do Rio de Janeiro para retornar ao território mineiro, onde nasceu. ''Nessa época deixei o violão para voltar a ser criança'', conta. Aos 15 anos, retomou o contato com a música e revela que ''começou a tocar porque não conseguia deixar de fazê-lo''.
De lá para cá foram muitas andanças, o músico integrou o extinto grupo Hanoi Hanoi, estudou nos Estados Unidos, lançou dois discos independentes e há três anos assinou contrato com a gravadora Dubas. E é pela gravadora carioca que ela acaba de lançar ''Esquina de Minas: dois lados da mesma viagem'', um apanhado de canções retiradas do Clube da Esquina e escolhidas a dedo para ganhar um tom especial, com ritmos retirados das influências de Affonsinho.
''Eu escolhi as músicas que mais gostava e tomei a liberdade e o atrevimento de pôr tudo do meu jeito'', conta. Foi assim que as 14 músicas do repertório mineiro ganharam tons de Beatles, James Taylor, além das fortes características do blues e jazz. O resultado não é apenas uma regravação de clássicos como ''Um girassol da cor do seu cabelo'' (Lô e Márcio Borges); ''Lumiar'' (Beto Guedes e Ronaldo bastos) e ''O trem azul''®MD77¯(Lô Borges e Ronaldo Bastos)®MDNM¯, mas uma verdadeira releitura de músicas que marcaram uma época.
No encarte do disco, precede as letras da música uma rápida explicação para os novos arranjos. ''San Vicente'' (Milton Nascimento e Fernando Brant) por exemplo aparece como uma fugaz lembrança dos acordes de James Taylor. ''Encontros e despedidas'' (também de Nascimento e Brant) era sonho antigo ser gravada, sabe-se pelo texto de Affonsinho.
E com fones de ouvido e encarte à mão é possível conhecer ainda mais a fundo as nuances das mudanças das regravações. Para ''Lumiar'' (Beto Guedes e Ronaldo Bastos) por exemplo, o músico explica, no encarte do disco, que ''recebeu inspiração do Santana e seus ídolos, Albert e B.B. King, nos solos, nas congas e na divisão rítmica diferente dos violões base''. Ainda dá uma dica: ''a letra é belíssima e quem não conhece Lumiar não sabe o que está perdendo''.
O disco foi idéia de Ronaldo Bastos, da Dubas, que queria dar uma roupagem especial para os clássicos mineiros da MPB e chamou Affonsinho para cumprir a missão. O contato entre os dois foi retomado quando Bastos escutou as músicas de ''Zum zum'', disco anterior de Affonsinho e decidiu lançar o CD pela gravadora.
''Zum zum'' é uma espécie de filho primogênito de Affonsinho, um disco que ele dedica um carinho todo especial. ''É um disco autoral, que fala de amor'', conta, brincando: ''eu decidi fazer um disco para dar para todas as mulheres que passaram na minha vida e o resultado é Zum zum''.
Aos 40 anos e duas décadas de carreira, Affonsinho, batizado Affonso Heliodoro dos Santos Júnior, diz estar cansado da agressividade do mundo. ''A arte hoje tem uma agressividade gratuita e acho que o mundo não precisa disso. O mundo está carente de amor, de gentilezas...'' Por isso, ''Zum zum'' não foi a única carta que saiu da manga do compositor nessa nova temporada. No intervalo entre o disco autoral e o lançamento de ''Esquina de Minas'', Affonsinho compôs 18 novas músicas para lançar um disco ainda sem título.
As músicas já foram enviadas para Bastos avaliar, mas o novo CD ainda não tem previsão de lançamento. Enquanto isso, Affonsinho se dedica a outros projetos pessoais. Tem feito shows em Belo Horizonte, daqueles que se avisa só aos bons amigos. O resultado é a platéia lotada porque não há quem não conheça as composições e a voz de Affonsinho que não queira conferir o seu talento ao vivo.
No Paraná, ele estave apenas uma vez, nos idos dos anos 80, com a banda Hanoi Hanoi, mas já adianta que tem muita vontade de voltar. Um aviso para os empresários interessados.
Serviço:
''Esquina de Minas: dois lados da mesma viagem'', de Affonsinho. Lançamento pela gravadora Dubas (www.dubas.com.br).


