DISCO/LANÇAMENTO - À margem, mas com dignidade
Antônio Mariano Júnior
Muita gente sabe que ela é cantora e compositora mas prefere reconhecê-la apenas como comentarista dos desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro. Aquela que conhece a Fulana filha de dona Sicrana que já foi porta-bandeira da escola tal que fez aquele samba tal composto pelo meu compadre Beltrano e que manda abraço para o mano tal e pede bênçãos para dona tal e etc... E assim, entre comentários recheados de alozinhos para metade da população carioca, Leci Brandão prestou tal serviço durante nove anos à Rede Globo durante o Carnaval.
Nesse meio tempo, lançou discos que passaram despercebidos do grande público. Aliás, quase toda a discografia da cantora e compositora - e são mais de 15 - nunca estourou pra valer. Sendo assim, Leci foi sobrevivendo artisticamente à margem. Como muitos no Brasil, não é mesmo? Resistir é preciso e por isso ela está colocando mais um disco na roda. Chama-se Auto-Estima e sai pela gravadora Trama.
Pequena gravadora. O que, em outras palavras, significa que muitas lojas de discos podem dar os ombros para o lançamento. O que seria uma infelicidade já que Auto-Estima é um trabalho até interessante. Purista mas não radical (teclados dão o ar da graça embora a percussão acústica ainda se sobressaia), Leci ataca de partido alto, de pagode, de sambão e até de sambas românticos.
E por falar em samba romântico, a cantora com sua voz pequena mas bem colocada causa boa impressão logo na primeira faixa, Nota Máxima (André Renato-Sereno-Júlio Cesar). Refrão delicioso, daqueles que se ficam cantando dia inteirinho. Há também outros bons momentos como o partidão Quiabo Bom (Emilson) ou mesmo no baião Asa Partida (Eliezer Setton). Há o lado engajado que se manifesta em Pro Mano Brown (de autoria dela) em que jogam-se loas ao vocalista dos Racionais MCs.
E por falar em exaltação, o lado verde e rosa, cores da Mangueira, aparecem no sambão Amor Por Minha Mangueira (Alvinho da Mangueira-Adilson). A saudação a Oxumaré, que entra quase como uma vinheta no final do disco, é sobretudo uma bela homenagem a um dos orixás mais instigantes do candomblé.
Agora, há pequenos escorregões. Auto-Estima, a música, por pouco não encosta nesses sambinhas que se encontram em qualquer armarinho de miudeza. Porém em se tratando de Leci Brandão a coisa pode balançar mas não cai. Ela não é do tipo que se enverga facilmente a ventos sedutores. Nem mesmo quando pinça algumas coisinhas de hitmakers como Peninha que lhe deu Cumplicidade (feita com Elias Muniz). São pequenos ciscos que não comprometem no todo a sinceridade espalhada em Auto-Estima.
Aida
ReproduçãoElton John e Tim Rice comandam as melodias do musical Aida, produzido pela Disney. Transitando nos limites de um pop digerível, a produção chegou ao CD com ajuda de um grupo de popstars especialistas em coletâneas. O disco abre com Another Pyramid, interpretada por Sting com um reggae soft. Tina Turner aparece em Easy as Life, uma balada com levada dançante. My Strongest Suit, um pop/rock com arranjos funk, vem para confirmar que as Spices Girls são um fenômeno passageiro. A música até que não é ruim, mas reúne esforços para segurar os tropeços de interpretação das moças. Lenny Kravitz acrescentou um naipe de metais em sua formação guitar e acertou no suingue de Like Father Like Son, enquanto James Taylor mantém o estilo acústico em How I Know You. Elton John não é mau melodista, mas nos últimos anos tem se conformado em agradar ao mercado com uma produção industrial. Ficam faltando molho e tempero. Vale ressaltar que a semelhança com a ópera de Verdi se limita ao título. O disco saiu pela Polygram/Universal.
Javier
ReproduçãoO cantor espanhol Javier chega ao Brasil com o CD Lucha y Verás, lançado pela Abril Music. Tido como mais uma das promessas do milionário mercado latino, Javier traz baladas românticas embasadas em um pop com levadas eletrônicas. Para facilitar a entrada no mercado brasileiro, a versão nacional de Lucha y Verás ganhou cinco músicas em que Javier interpreta - com sotaque carregado - em português. O cantor luta na Justiça para ser reconhecido como filho de Julio Iglesias, e por isso omite o sobrenome famoso. Independente da paternidade, o disco de Javier tem tudo o que a indústria fonográfica precisa para alimentar esse nicho musical: romantismo exacerbado, voz melosa - do tipo estou sofrendo - e arranjos pasteurizados. Muitos fazem sucesso com essas características, e Javier parece ser o próximo da lista. O brasileiro Paulinho da Costa participa da percussão.
Flor de Maracujá
ReproduçãoO forró está se firmando como a bola da vez da indústria fonográfica, e traz as mesmas características dos outros gêneros que estiveram por cima: melodia grudenta, letras pretensiosamente românticas e, principalmente, diluição do ritmo original e introdução de teclados nos arranjos. No caso do Flor de Maracujá, ainda há uma percussão mais saliente. O grupo foi descoberto pelo mesmo produtor que fez o Terra Samba conquistar as paradas de sucesso. Desta vez, a figura de proa do grupo é a cantora Cynara Inezê. O disco de estréia não se prende ao forró-pop, e traz ainda influências do pagode e da axé music, buscando espaço também entre esses nichos. Logo estará vendendo que nem água. O difícil é entender a presença de músicos conceituados como Osvaldinho do Acordeon e Milton Guedes em um lançamento claramente comercial como este. Flor de Maracujá saiu pela Universal Music.
Marcos Quinan
ReproduçãoErudito e popular se aproximam no disco Canção dos Povos da Noite, em que obras do compositor Marcos Quinan aparecem em várias interpretações. A música de Quinan abriga elementos populares em valsas e choros, mas ganha contornos eruditos com arranjos para naipes de cordas e sopros, sem dispensar instrumentos como a viola, violão e percussões. As flautas de Roberto Stepheson, por exemplo, se destacam na brejeira Carvoeiro. Já Relógio Quebrado traz uma ambientação mais intimista com a presença do piano de Fernando Merlino e do sax de Stepheson. Algumas faixas, como Prateado, beira o caipira, com destaque para a viola de Fernando Carvalho. A melancolia aumenta com Doce de Saudade, parceria com Marco Antonio Quinan com arranjos para piano, viola, violino, cello e flauta. Os arranjos são de Eudes Fraga, Fernando Merlino e Fernando Carvalho. O disco, lançado pela Outros Brasis, traz 20 faixas instrumentais e pode ser encomendado pelo telefone (021) 262-6218.
Secret Garden
ReproduçãoDawn of a Century é o terceiro álbum do Secret Garden, formado pelo compositor norueguês Rolf Lovland e a violinista irlandesa Fionnuala Sherry. Embora seja confundido constantemente com new age, o Secret Garden navega em águas mais profundas, ancorado pela formação erudita de seus integrantes, propiciando uma estrutura musical mais sólida. Aproximando conhecimento erudito com folk-music nórdica, tempero de música celta e pitadas orientais com andamento lento e canto sussurrado - não se limitando à música instrumental -, o duo tem obtido sucesso em todo o mundo. O álbum conta com a participação de vários músicos noruegueses, escoceses, irlandeses e americanos. O Secret Garden não persegue a linha da música para meditação, mas também não a nega em seus temas, preferindo denominar seu estilo como neo-clássico e neo-folk. Dawn of a New Century foi lançado pela Polygram/Universal.
Banda de Pífanos
ReproduçãoA tradicional Banda de Pífanos de Caruaru está lançando mais um CD: Tudo Isso é São João, pela Trama. Com 74 anos de atividades, a bandinha tem um currículo fora do comum, que inclui uma apresentação para Lampião e Maria Bonita na década de 30. Pois é, os remanescentes deste show ainda estão na ativa, principalmente Sebastião Biano, que fabrica seus próprios pífanos e comanda as atividades do grupo. Com estilo bem característico, a Banda interpreta clássicos nordestinos como Assum Preto e Asa Branca, além de outras composições conhecidas como Isso Aqui tá Muito Bom. O grupo tem uma sonoridade estritamente sertaneja e armazena raízes profundas da cultura nordestina, refletindo a sina da caatinga com a rica musicalidade da região. Uma boa trilha para festas juninas. O único problema é que justamente os pífanos ficaram com um volume um pouco baixo na gravação.





