O sotaque paulistano acentua fortemente os ''erres'', tem malemolência fonética, mas o pensamento necessita de um vocabulário mais extenso. O tempo trará palavras e raciocínios mais elaborados. O importante, por hora, é que Mariana Aydar se lança ao mundo dos discos com uma postura artística impressionante. Repertório de bom gosto estofado inteligentemente com camadas orgânicas - modo mais elegante de ''enxuto''. Acústico com levíssimas interferências eletrônicas. O canto firme de uma ''menina de 26 anos'', como gosta de se autodesignar, desfila por temas clássicos e atuais sem necessariamente se atrelar a estéticas preestabelecidas ou tendências fonográficas. ''Kavita 1'', poeta em sânscrito, o primeiro álbum de Mariana Aydar impressiona pela sensata e sensível direção artística, co-assinada por ela, e não deixa a desejar a muitas veteranas.
Há uma história interessante a respeito da moça. Desde pequena, sabia que a música era sua grande sacada, mas preferiu ganhar estrada antes de qualquer empreitada - tocou com Miltinho Ediberto, fez ''backing vocal'' para Daniela Mercury, cantou aqui e ali. Em 2004, foi a Paris para fixar residência e lá conheceu Seu Jorge, que a convidou para abrir seus shows. Belo dia ou noite, ouviu ''Minha Missão'' (João Nogueira-Paulo César Pinheiro) e foi tomada por uma vontade de expressar a brasilidade - inclusive no canto. Voltou em 2005.
O samba, um dos muitos imortalizados por Clara Nunes, em 1981, abre o disco como só a força de uma oração pode ter. Com a participação de Arlindo Cruz no Banjo, Mariana Aydar solta a voz - com direito ao maneirismos, que pendem mais a reverência a Clara Nunes. ''Kavita 1'' começa com tudo e prossegue sem oscilar em nenhum momento. Sem medo de errar, a intérprete reconstrói com grande estilo ''Menino das Laranjas'' (Theo de Barros) - tamanha confiança não permite comparações a Elis Regina, assim como ''Maior é Deus'' (Eduardo Gudin- Paulo César Pinheiro) transformada num forró e sem arranhar a aura clássica do samba original.
Mariana Aydar chamou os incensados Bid e Duani para co-produzirem o álbum, que sai pela Universal Music, com a qual pode vir a ter uma boa parceria nos próximos cinco anos. Onze faixas, grande parte releituras. Inéditas recebeu ''Prainha'', um rancho feito e acompanhado ao violão por Chico César; ''Festança'' (dela com Duani); e ''Na Gangorra'' (Giana Viscardi - Michael Ruzitschaka).
''Kavita 1'' é um disco de música brasileira. Inclina-se mais à tradição do que à contemporaneidade. A suposta modernidade estaria no tal estofo orgânico e na instrumentação sem firulas, mas exata, e no encontro entre compositores de épocas distintas. A percussão acentuada - graças a uma mixagem eficaz - alia-se ao canto bom e belo de Mariana. ''Sou uma missionária da música brasileira sem medo de falar, de levantar a bandeira do Brasil'', frisa Mariana.
O Brasil, de fato, está bem representado em ''Kavita 1''. Ouvir ''Zé do Caroço'' (1985), samba de e com participação vocal Leci Brandão já vale o disco. Afinal falar bem do Brasil é muito difícil nos dias de hoje. E ouvir o Brasil bem cantado é algo que Mariana Aydar conseguiu com jeito, competência e graça. A seguir, os principais trechos da entrevista que Mariana Aydar concedeu à Folha2.

Se bem entendi, foi ''Minha Missão'', o samba, que a fez se tocar de vez que sua vocação era mesmo a de ser uma artista da música, é isso?
É, de ser uma missionária da música brasileira. Mas assim, ser uma missionária da música brasileira sem medo de falar, de levantar a bandeira do Brasil. Ouvi ''Minha Missão'' em Paris, fiquei louca. E cheguei à conclusão de que devia voltar porque o que me faltava estava aqui e não na França.

Quer dizer, você precisou ir ao exterior para descobrir que ser brasileiro era muito mais que ter orgulho, que era preciso expressar essa brasilidade de alguma forma?
Que coisa não? Mas fico triste porque nem todas as pessoas têm esse feeling porque deveríamos ter muito orgulho de ser brasileiros. Devíamos ter muito orgulho da nossa música, muito orgulho!

Não digo rotular, mas você, Mariana, se empenha em imprimir uma linha, uma sonoridade particular ao seu trabalho para se diferenciar?
Não. Penso em fazer uma coisa natural e aí vem o diferencial. Ou seja, quando você consegue expressar sua arte realmente, a sonoridade consequentemente vem junto. Minha base é a música brasileira... Mas sou uma menina de 26 anos de idade, que morou fora, teve influências de vários estilos, de vários tipos...

Mas até que ponto há uma delineada preocupação em manter um pé na tradição e ao mesmo tempo soar contemporânea?
Olha, eu acho que é tudo natural porque sou contemporânea, vivo agora, estou em contato com pessoas contemporâneas, bato papos, enfim vivo num mundo contemporâneo. Mas eu sempre ouvi muita música brasileira e com muita paixão. Portanto, me apropriei... Com a idade que tenho, eu transformei meu trabalho em algo que considero contemporâneo.

Então, tá! Vamos àquela perguntinha básica para facilitar a entrevista: como você definiria esse disco?
Eu defino como um CD de música brasileira...

Ótimo, parabéns, descobriu a pólvora. Você entendeu a pergunta, vamos aprofundar?
(risos) Eu defino assim mesmo: um disco de música brasileira, feito por uma menina de 26 anos, que tem muitas influências internacionais, mas que gosta de música brasileira e que resolveu mostrar como ela entende a MPB. Desde pequena eu convivo com muita música na cabeça, na vida, pude conversar com muita gente, ficar como observadora, vendo o que rolava, pescando conversas...

Todo mundo que vem com um trabalho inicial impactante logo rotulam de ''uma promissora artista''. Tem idéia de como se manter artisticamente acesa daqui para frente?
Eu acho que é fazendo o que fiz até agora, que é ser verdadeira. E uma vez verdadeiro com você mesmo, sua arte naturalmente passa a ter verdades. Eu dúvido muito, mas se acontecer de um dia eu quiser experimentar outra coisa que não só música brasileira, e ser aquilo for minha verdade em determinado momento, vou atrás.

Pergunta básica para terminar: qual espaço que lhe cabe na MPB Sem esse papo de ''ainda tenho muito caminho pela frente, sou uma menina de 26 anos''... (risos)
Olha só queria realmente que as pessoas entendessem o quanto a música brasileira é rica e quanto é boa. Trata-se de uma propriedade nossa que se não cantarmos não vai haver quem cante com essa paixão... Eu quero é cantar, quero cantar minha verdade e ser entendida.

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