Talento ela tem de sobra, faltava aquele ''empurrãozinho''. Que veio de mãos consagradas, no caso as de Maria Bethânia, há quase um ano, que não só produziu e ajudou na seleção de repertório como também registrou o disco ''Menino do Rio'', através de seu selo, Quintada. Resultado: Mart'nália é só sorrisos. Sinceros. Podem ser conferidos no projeto 'Em Berlim Ao Vivo'', composto por CD e DVD juntos num mesmo estojo, em que a cantora e compositora dá literalmente um show de suingue e versatilidade, mesmo que ela leve umas boas faixas para se soltar no palco - e é uma delícia ver a moça sambar no pé. O motivo: por ordens expressas da madrinha artística, Mart'nália deveria mandar o seu recado de maneira incisiva antes de mais nada. ''A Bethânia falou que eu tenho que cantar mais'', avisa. Em outras palavras, economizar um pouco no jeito ''moleque'' de ser no palco sem perder a espontaneidade.
Daí que ''Em Berlim Ao Vivo'' (lançado pelo selo Quitanda e com suporte logístico da gravadora Biscoito Fino), Mart'nália mostra-se uma intérprete versátil que vai do samba ao pop sem perder o rebolado. Disco e DVD foram registrados no dia 16 de junho de 2006, na Casa das Culturas do Mundo (Hans Der Kulturen Der Welt), capital alemã, dentro do evento denominado ''Copa da Cultura'', durante a Copa do Mundo.
Espaço lotado - a artista arrisca cerca de 2 mil pessoas mais ou menos -, Mart'nália causou boa impressão e levantou a galera. O DVD, dirigido por Roberto de Oliveira, conta com as participações luxuosas de Chico Buarque (gravação ao vivo em Berlim) e Luiz Melodia (em estúdio). Marcadamente percussivo, o projeto abarca releituras interessantes como ''Formosa'' (Vinicius de Moraes-Baden Powell) e canções próprias como ''Pretinhosidade'' e ''Chega'' (ambas dela com Mombaça) - esse último hit emplacado como uma espécie de ''hino de fim de caso'' ou algo similar.
Um dos destaques do DVD ficam por conta de Mart'nália e a irmã Analimar mandando ver no samba ''Boto meu Povo na Rua'' (Arlindo Cruz-Acyr Marques- Ronaldinho), com direito à caras e bocas e trejeitos - se bem que os músicos, entrosadíssimos, também tenham seus momentos de mise-en-scene.
''Em Berlim Ao Vivo'' tem grandes atributos. O principal: a voz rascante e marcante de Mart'nalia e, em especial, sua postura artística tão bem delineada.
A seguir os principais trechos da entrevista que Mart'nália concedeu à Folha2.

No DVD você demorou para se soltar, para mostrar o samba no pé até em ''Boto meu Povo na Rua''. Você samba tão bonito, Mart'nália, o que aconteceu, ficou intimidada?
(risos) Não consigo cantar sem me mexer. Mas, no show, primeiro tenho que me concentrar. Não estava presa não, primeiro tinha que dar meu recado, me apresentar. Ué, se fosse só para sambar para mim seria a coisa mais fácil do mundo

Gostei da história no DVD que seu pai não gostava que você e seus irmãos ouvissem muita música estrangeira. E você adorava o Michael Jackson...
Naquela época, ainda hoje também, nossas rádios eram invadidas por músicas norte-americanas, uma cultura que influencia todo o mundo. Caetano Veloso falou, certa vez, que é a música mais forte do mundo e algumas pessoas interpretaram de outra forma... Eu tenho certeza absoluta que as cantoras americanas que dançam no palco, hoje em dia, foram influenciadas pelo Michael Jackson, inclusive nas coreografias. Em casa, eu ouvia Stevie Wonder, Michael Jackson e meu pai não gostava porque, naquela época, havia uma preocupação em se preservar a música brasileira para não sermos totalmente tomados por músicas estrangeiras.

Quer dizer, a preocupação dele era preservar o lastro cultural, a identidade nacional, não?
Isso era coisa de meu pai. Eu era apenas uma adolescente, uma jovem querendo ouvir minhas músicas. Sempre ouvi de tudo.

As participações do Chico Buarque e Luiz Melodia aconteceram de que maneira? Quem convidou quem?
Quanto ao Chico, tive a felicidade de me apresentar no mesmo dia que ele. A gente já havia se encontrado fora do palco, então foi uma coisa relaxada. Mas assim mesmo a gente fica ali diante daquele homem maravilhoso... Quanto ao Melodia, eu sou amiga dele há muitos anos. O convidei para fazer um ''extra'' e ele aceitou e foi lindo. Com o Chico foi bacana porque foi um presente.

Afinal, ''Chega'', a música, é um um hino de desabafo, de fim de caso?
(risos)Virou isso depois que as pessoas vieram me falar que a música serviu como um hino de fim de caso. A música, pelo jeito, serviu para todos os tipos de relação - homem com mulher, homem com homem, mulher com mulher, velho com novo. Achei interessante porque foi feita de brincadeira e agora cada um dá um tipo de interpretação à música. Claro, pensamos numa separação quando fizemos, mas não minha.

Mas qualquer pessoa que já levou um solavanco sentimental se acha nessa música...
É, se acha mesmo. E ''Chega'' acabou virando minha ''Madalena'' (NR: Ela se refere à ''Madalena do Jucu'', um dos grandes sucessos do seu pai, Martinho da Vila)

Para terminar, venda seu peixe. Por que as pessoas devem comprar esse projeto?
Ah, porque foi feito com tanto, carinho e alegria... É uma comemoração, uma forma de me relacionar com as pessoas. Espero que as pessoas comprem e gostem porque é uma vida nova que estou tendo com pessoas que gostam da minha música. Acho que estou conseguindo ser uma boa representante da nossa música. Esse disco serve também para mostrar que a gente só deve fazer o que gosta.

- CD e DVD ''Mart'nália Em Berlim Ao Vivo'', lançamento do selo Quintanda. Preço médio: R$ 43,00. O projeto pode ser adquirido também pelo site www.biscoitofino.com.br

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