Poesia, desde o título até o que escapa. Harmonias construídas artesanalmente, com o zelo de quem respira o seu próprio tempo, sem pressa, ao redor de uma rica particularidade. Em nova aquarela de notas musicais, a cantora e compositora Simone Guimarães brinda dez anos de carreira fonográfica com ''Flor de Pão'', seu segundo CD pela gravadora Biscoito Fino.
Sim, um brinde a várias mãos, com direito a parcerias especialíssimas em cada faixa do disco, apresentando Toninho Horta, Francis Hime, Guinga, Milton Nascimento, Dori Caymmi, Antônio Carlos Bigonha, Leila Pinheiro, e por aí segue.
Na delicadeza da faixa-título que abre o disco, a nítida influência mineira no arranjo de Bigonha, cede espaço para o lirismo de Simone como nos versos cantados em companhia de Toninho Horta: ''A rosa que imaginei/ alegria de cantor/ encanta no labirinto/ com jeito de amor/ eu dei meu amor a ela/ porque dei flor''.
Um quarteto de cellos mostra-se pontual em ''Confissão'' (Antônio Carlos Bigonha e Simone Guimarães), momento para outro duo da cantora com Dori Caymmi, cujo requintado arranjo recebera sua assinatura. Milton Nascimento divide as interpretações com Simone em ''Baião de Câmara'' (Thomas Saboga e Thiago Amud), celebrando outro grato encontro como já havia acontecido em ''Pietá'', do próprio Milton. O coco ''Jongo de Compadre'' (Guinga e Simone Guimarães) é o virtuosismo do vocal de Simone desafiado pelo violão de Guinga. Leila Pinheiro empresta sua letra, piano e voz para cantar ao lado de Simone ''Minha Mangueira''. A singela ''Carta à Amiga Poeta'' é outro grato resultado da união entre o arranjo de Francis Hime e a poesia de Simone.
Natural de Santa Rosa de Viterbo, fronteira de São Paulo com Minas Gerais, Simone edificou seu espaço cativo na música brasileira sem fazer barulho, bem ao estilo mineiro. Como outros tantos talentos que brotam no País, Simone não nega a dificuldade atual em sobreviver de música. ''O Brasil é um país novo que não tem uma mentalidade voltada pra cultura. Meu trabalho é feito às duras penas, não a arte em si, mas o veículo, porque a arte é a minha natureza. Para mim, é muito mais fácil cantar em Paris do que aqui. E isso me dói um pouco. A Biscoito Fino é a única gravadora que se manifestou em relação à música brasileira com essa grandeza, pois eles realmente estão fazendo um trabalho de resgate de patrimônio.'', ponderou.
E assim, Simone segue lapidando sua filosofia de vida. Veja os principais trechos que a artista concedeu com exclusividade à FOLHA2.

''Flor e Pão'' é um trabalho conceitual?
É sim. O posicionamento estético é uma coisa que venho trabalhando desde o meu primeiro disco, que busca somar um pouco da música moderna do Clube da Esquina com as influências sinfônicas de Villa-Lobos, com a música caipira de onde vim. Eu tento sempre fazer uma junção dessas coisa que são as músicas que eu mais gosto. E acaba esbarrando na poesia, porque eu sou letrista e também escrevo poesias. O disco é todo romanceado em prosa poética.

Essa constância de estabelecer uma ponte entre o regional e o erudito seria em virtude dessa convivência com Milton Nascimento?
Tem a ver. O Milton é um gênio. Quando eu o conheci, ele já tinha uma escola de música, e quando eu era 'maiorzinha' minha mãe deixou eu estudar lá. Então, aos 19 anos, fui para Belo Horizonte. Mas antes disso, eu também já tinha feito minha própria formação independente dele. Ele, com certeza, me apontou uma luz maior. O Milton gosta de evidenciar essa coisa dos tambores de Minas, ele realmente busca as raízes e, ao mesmo tempo, ele dá as antenas, dá o novo. O Milton é um dos artistas mais sofisticados que eu conheço.

Já está fazendo shows com este disco?
Eu tenho uma produtora que está fazendo essa parte pra mim. Nós vamos fazer um circuito nos teatros em São Paulo, a estréia será no Rio, no Teatro Rival, no próximo semestre. Também estamos em negociação com uma produtora em São Francisco, EUA. O disco chegou há uns dois meses, e essa coisa de agenda demora. Mas eu quero excurssionar o Brasil, pois eu conheço praticamente o País todo, só não conheço o Sul, um lugar que tenho vontade de conhecer.

Você é muito ligada às palavras, mas de qualquer forma a música está sempre presente na sua vida. Em virtude disso, qual é o tipo de sonoridade que mais te agrada?
Sinfônica. Gosto de ouvir peças, árias. Eu ouço muito música clássica.

O que é música para você?
É o espírito do universo. Parodiando, tem o começo de uma frase de Platão, que diz 'Música é o espírito do universo, assim como as estrelas e o céu são seu corpo'. É nisso que eu acredito. A música está em tudo, é como o ar, ela está em tudo, como energia, ela é física. É uma coisa que não tem como a gente se separar. A música não é uma entidade; ela é todas as entidades juntas. É o macro e micro tensor da terra.

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