Era para ser um show com temporada de um mês, numa casa noturna do Rio de Janeiro. Assim, programado. Mas, com as bênçãos do público, o espetáculo foi se alongando, mudou de espaço, acentuou alguns contornos, ganhou participação de alguns artistas, arrancou elogios e também vibrações divinas e terrenas - ou alguém ainda duvida das conspirações metafísicas em propósitos bem fundamentados? Depois de quase três anos, a cantora maranhaense Rita Ribeiro lança em disco o projeto ''Tecnomacumba'' , que entrelaça músicas de compositores consagrados com cantos e pontos de religiões afro colhidos em terreiros de umbanda e roças de candomblé das matrizes (ou nações) Ketu, Angola e Jeje.
Conceitual, o álbum (uma parceria entre o selo da artista ManaXica com a gravadora Biscoito Fino) propõe-se à dança - através de uma pegada pop-rock - e à reverência às entidades e divindades sem resvalar, em momento algum, no folclorismo desvairado. Rita Ribeiro foi a campo pesquisar cantos, buscou orientação e consentimento para levar adiante sua proposta. Resultado, ''Tecnomacumba'' contém verdades inclusive pessoais - ela mantém suas crenças, através do culto aos caboclos, peculiaridade da umbanda maranhaense, e é filha de Iansã e Ogum, no candomblé. ''Andei muito por terreiros no sentido de ver, de estar atenta sem necessariamente estar participando como filha de santo'', explica. O projeto deve - e precisa - ser registrado em DVD.
Pelo título, ''Tecnomacumba'', quarto disco da maranhaense, pode soar um disco puramente eletrônico. Nada disso. O conceito abastéce-se parcimoniosamente das ferramentas tecnológicas e ponto. Serve apenas de apoio à instrumentação acústica e ao canto eficaz de Rita Ribeiro, que ao longo de 14 faixas interpreta canções e reverencia os respectivos santos - dentro da ótica do sincretismo, pessoal, portanto. Rita abre os trabalhos saudando as entidades e divinidades. E como num terreiro, primeiro canta para Exu e termina a sua ''gira'' elevando a voz para Oxalá, em cantiga yorubá
A sonoridade chama à dança. ''Domingo 23'' (Jorge Benjor, atrelada a um ponto de Ogum) contém levada funk; a saborosa ''Cavaleiro de Aruanda'' (de Tony Osanah e popularizada na década de 70 por Ronnie Von) saúda Oxóssi através de vibração disco music; ''Oração ao Tempo'' (Caetano Veloso, uma ode ao orixá Tempo) insinua uma ambientação lounge assim como ''É D'Oxum'' (Gerônimo-Vevé Calazans). E por aí vai.
''Tecnomacumba'' traz à tona as verdades e identidades culturais brasileiras. Apresenta releituras contemporâneas dos primórdios afro de forma a agregar pessoas e credos. E isso é bom! Ajuda a combater o preconceito. Coerente nas convições, inclusive artísticas, Rita Ribeiro apresenta um projeto que tornou-se uma referência estética no que tange à música e tradição afro. Ou ''Tecnomacumba'', requintadamente popular, seria desde já um clássico da MPB? Os dois.
A seguir, os principais trechos da entrevista que Rita Ribeiro concedeu à Folha2.

Que linha estética você imprimiu a esse trabalho?
Olha, a música brasileira tem uma vivência muito grande de experimentações, de misturas. É algo que se faz há muito tempo e que ficou mais evidente no Tropicalismo, onde se misturaram guitarras com tambores e com tudo o que se pode imaginar. Isso continua muito forte. A valorização da cultura brasileira é um tema atual, é algo que temos sempre que reverenciar. A música brasileira deve muito às religiões africanas no sentido estético. Por exemplo, eu escolhi compositores bastante renomados para representar esse panteão da cultura afro. São figuras como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Dorival Caymmi, pessoas que foram a fundo no sincretismo, dentro da MPB. Minha idéia foi trazer à tona essa vibração e o que é música eletrônica dentro do que se produz atualmente na música eletrônica, que aliás bebe na fonte dos tambores.

Se fosse um disco gravado convencionalmente, com instrumentos acústicos, sem esse toque eletrônico, o possível conceito seria desviado?
Dei um toque eletrônico, como você disse. Não me considero uma cantora eletrônica e nem tenho pretensões a isso. Sou uma cantora brasileira com uma base brasileira muito grande que veio de uma vivência de cultura popular. Utilizei a eletrônica mais como ferramenta musical do que para fazer tecnomusic. Foi para dar um peso, para somar com a força dos sons tradicionais.

Qual a reação das pessoas que já assistiram ao show? Elas dançam e também prestam atenção aos fundamentos que há em alguns cantos?
Elas não só dançam, como também cantam os pontos inteiros. Acho que minha maior conquista nesse história é ver as pessoas cantando esses pontos... A princípio eu pensei em fazer ''Tecnomacumba'' só com pontos e batidas eletrônicas. Mas achei que isso ficaria muito fechado, hermético demais e talvez não compreensível. Pensei, finalmente, que poderia inserir melhor os pontos junto com as canções populares para que as pessoas se identificassem melhor.

O fato de atrelar canções conhecidas aos cantos de candomblé e umbanda seria também um jeito de o público dançar, mas também refletir sobre a religiosidade afro?
Exatamente, para dançar e refletir. Se eu colocasse só pontos - e posso estar enganada - talvez as pessoas tivessem preconceito... No entanto, quando cantam ''Cavaleiro de Aruanda'' e no meio cantam um ponto recolhido de terreiro de umbanda, acredito que há um maior poder de absorção.

Você frequenta alguma casa, terreiro?
Eu pertenço. Comecei minha identificação com a religião lá no Maranhão mesmo, na umbanda maranhaense, através do culto aos caboclos, que é fortíssimo e muito mais presente que o culto aos orixás. Lá tem a presença dos caboclos encantados e a MinasJeje. Mas minha referência sempre foi a umbanda maranhaense. Eu até gravei o ponto da Cabocla Jurema no meu primeiro disco. Foi daí, inclusive, que surgiu o termo ''Tecnomacumba''. Me perguntavam que fusão era aquela de dance music e tambor da mata. Eu respondia: ''Ah, isso é uma tecnomacumba''. Ou seja, desde 1997 essa história vem sendo costurada por mim.

Apesar de sua ligação maior com a umbanda, quem rege sua cabeça no candomblé?
Iansã com Ogum. Tá na cara, né?

(risos) Tá na capa (do disco)!
(risos) Tá na capa, que ótimo.... Tá na capa, exatamente.

O que mais lhe chamou a atenção nas pesquisas para esse projeto?
O que me chamou bastante atenção foi o paralelo entre os transes, os religiosos e os profanos. Você vai numa casa noturna para dançar e o que cataliza sua energia naquele momento é a música e a dança. Nos terreiros acontece a mesma coisa: os orixás ou as entidades se manifestam através do toque do tambor e se apresentam com uma referência estética de movimento de corpo. Então eu quis fazer esse paralelo, resguardadas as proporções e questões religiosas e profanas. Eu sempre digo que minha maior religião é a música. É para a música que eu bato cabeça.

Você pediu permissão para efetivar seu projeto?
Sim, sim. Eu não mexi em nada que não pudesse, entendeu? Tenho muito respeito, nossa! Não quis entrar nessa história apenas para as pessoas dizerem: 'Nossa, que legal, como ela é moderna, que interessante'. Nada disso. Eu fui buscar orientação, me consultar porque estava mexendo com energias que reverencio muito. Não poderia chegar, digamos, de gaiata no navio. Eu perguntei se estava certa na minha intuição... Sabia também que o processo poderia não ser de tão fácil aceitação porque, infelizmente, algumas pessoas alimentam muito preconceito até hoje. É uma religião que sofreu muita opressão, sempre foi colocada bem asfastada para que ninguém soubesse...

É verdade!
Não vou levantar bandeira religiosa, mas isso é, sobretudo, cultura popular. Faz parte da formação do nosso povo, é histórico. Mas, voltando à questão sobre a permissão, fui buscar orientação, pedi licença. Senão, te juro sinceramente pelas vivências religiosas, não mexeria nisso levianamente. Não se pode mexer no ouro das pessoas. Meu compromisso é muito sério. Não sei se o disco será compreendido de imediato, se vai levar um tempo para ser assimilado. Só sei que ''Tecnomacumba'' se fez sozinho.

Serviço- Disco ''Tecnomacumba'', de Rita Ribeiro. Lançamento: Gravadora Biscoito Fino. Preço sugerido: R$ 28,90. O disco pode ser adquirido também pelo site www.biscoitofino.com.br.

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