Antes de ''Garganta'', hit radiofônico que estourou na voz de Ana Carolina em 1999, é bem provável que as pessoas nem soubessem quem ele era, salvas exceções no Rio Grande do Sul, estado em que nasceu. Antes, Totonho Villeroy (pronuncia-se Villeroá), tinha o privilégio de ouvir suas letras e músicas quase que exclusivamente na voz de sua parceira de timbre espesso. Agora, Antonio Villeroy (devido à carreira internacional que segue mais encorpada), ressurge como intérprete de sua matéria-prima no CD e DVD ''Sinal dos Tempos & Orquestra de Câmara Theatro São Pedro - Ao Vivo'' (Warner Music).
O projeto sugere passeios musicais através das sofisticadas harmonias orquestrais, fazendo prevalecer outras vertentes do artista além das baladas pop que ganharam notoriedade em vozes conhecidas. Ana Carolina, embora seja o porto-seguro de onde sua obra partiu rumo à consagração, é apenas um dos nomes que integram o ''portfólio'' de Villeroy, ao lado de Maria Bethânia, Ivan Lins, Moska, Luciana Melo, Preta Gil e Luiza Possi.
Para acompanhá-lo em alguns duetos, participam Daniela Procopio, que emposta sua voz suave na bossa cantada em italiano ''Siamo Cosi'' (parceria com Villeroy); João Donato com seu delicioso piano em ''A Paz'' (parceria com Gilberto Gil) e ''Música no Gravador'' (parceria com Villeroy); e, claro, Ana Carolina, já no final do show, em ''Da Laia do Lama'' e ''Que se Danem os Nós'' (já gravada anteriormente pela mineira em seu segundo disco).
Ouvindo suas músicas interpretadas por grandes artistas, vale a reflexão: como Antonio Villeroy permaneceu durante anos quase anônimo na música brasileira? Agora que o compositor assumiu-se definitivamente como cantor, os consumidores da boa safra de música contemporânea torcem para que realmente seja um sinal dos tempos. Veja os principais trechos da entrevista que o artista concedeu a Folha2.

Como foi elaborado esse projeto de CD/DVD com arranjos orquetrais? Desde o início você já idealizava dessa maneira ou existiam outras possibilidades?
Eu tinha pensado assim, mesmo. A maior parte de meu repertório que foi gravado por outros artistas tinham mais um formato pop, então eu quis mostrar um outro aspecto de meu trabalho autoral, meio Bossa-Nova, samba, num formato que diferenciasse as outras gravações das músicas já conhecidas. Eu gosto muito de cinema - acabei compondo músicas para alguns filmes - e justamente naqueles momentos de maior clímax entra sempre uma orquestração; eu queria que minhas música passassem um pouco dessa atmosfera cinematográfica.

Você falou de trilha sonora para filmes. Cite alguns.
Nesse CD/DVD tem a música ''Amores Possíveis'', da Sandra Werneck, que foi tema do filme. Nesse filme eu tenho mais duas músicas. Depois, em ''Sexo, Amor e Traição'', do Jorge Fernando, cuja música-tema também foi feita por mim em parceira com o Eugenio Dalle. Depois fiz uma adaptação na música da Rita Pavone para o filme ''O Casamento de Romeu e Julieta'', do Bruno Barreto.

Desde quando você canta, ou seja, se apresenta como cantor ao público?
Na verdade, em 2006 completou 25 anos que eu tirei minha carteira de músico. Nessa época eu já tinha um repertório grande, com umas 40 canções. Meu irmão baixista - Gastão Villeroy, também co-produtor desse meu projeto - dizia que eu tinha que fazer um show para mostrar minhas músicas. Na ocasião eu estudava agronomia e não tinha a pretensão de seguir a carreira musical, minha música era apenas um hobby, uma coisa que eu gostava de fazer. No meio universitário estava aparecendo um monte de músicos novos, então eu decidi fazer um show para apresentar minhas músicas. No início, eu era o intérprete do meu trabalho. Acabei deixando a faculdade e passei a viver do mercado de música que havia no Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Curitiba, e foi indo. Cheguei a lançar dois CDs independentes.

O assédio de intérpretes que querem músicas suas deve estar sendo grande, não? Qual critério você utiliza para dizer ''sim'' aos pedidos?
Ano passado, em função do DVD e CD, eu não pude atender à Bethânia, que é uma das minhas intérpretes favoritas. Acabei fazendo uma música, dentro do tema ''água'' que ela queria, mas quando eu terminei, ela já tinha fechado o disco. Tem um pouco essa questão do tempo e do projeto em si. E claro, afinidade em primeiro lugar, tem que ser alguém de quem eu goste cantando. A Ana, por exemplo, eu tenho muita afinidade. É muito fácil fazer música para ela e com ela. Tem gente que me liga assim, pedindo uma música minha e inédita. Todo mundo quer isso. Então eu pergunto que tipo de coisa que a pessoa está gravando, então me respondem: ''bem pop'' (risos)! Isso é uma coisa muito vaga. Eu digo que tenho alguns discos independentes com músicas inéditas. Eu estava falando esses dias com o Moska. Ele diz que acontece isso com ele também, que responde ''Você quer uma música minha só para ter a minha assinatura ou você quer música de qualidade?''.

O fato de você estar diretamente realacionado à Ana Carolina o incomoda de alguma forma? Por exemplo, ficar estigmatizado como ''o parceiro da Ana Carolina''?
Não me incomoda porque ela é muito boa. Essa é a razão de fazer um disco que conta com a Ana Carolina, que tem a ver com ela. E tem outras músicas que são outras praia, com João Donato, Daniela Procopio, mostrando uma outra faceta. Realmente eu prefiro que as pessoas me enxerguem de uma forma mais ampla, com a minha complexidade e que não tentem me reduzir a estereótipos. Na tentativa de facilitar a compreensão do mundo, as pessoas têm uma tendência a reduzir tudo a um mínimo de coisas. Ninguém quer lidar muito com a complexidade. Mas também eu não posso ficar brigando com esse tipo de coisa, porque acaba virando perda de tempo. Meu compromisso maior é com a música.

Você já está em turnê com esse projeto?
Mais ou menos. Pra valer, eu começo em abril. Em janeiro eu tenho show em Salvador. Em março eu tenho uma série de shows. Depois gente vai percorrer outros lugares, como o Paraná, mas ainda não temos nada marcado em Londrina, embora seja um desejo meu.

SERVIÇO- Lançamento do CD e DVD ''Sinal dos Tempos - Antonio Villeroy & Orquestra de Câmara Theatro São Pedro Ao Vivo''. Warner Music. Preço sugerido: R$ 25,00 (CD) e R$ 45,00 (DVD).

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