DISCO Romantismo cheio de suingue
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quarta-feira, 10 de setembro de 2003
Katia Michelle Pires<br> Equipe da Folha 
Curitiba O período é de mudanças para a cantora e compositora carioca Leci Brandão. Prestes a se mudar definitivamente para São Paulo, ela analisa as transformações que ocorreram na sua carreira ao longo de quase quatro décadas.
No seu 23º disco, ''A Cara do Povo'', que acaba de chegar as lojas pela gravadora Indie Records, Leci deixa de lado a forte característica militante que marcou a sua trajetória e decide fazer uma ode ao amor. ''O amor é uma coisa que ninguém deixa de falar, de vivenciar, de comprar'', atesta a compositora, que neste disco assina apenas quatro das quinze faixas que integram o álbum.
O disco traz sete músicas inéditas e oito regravações, escolhidas a dedo pela sambista. Em entrevista à Folha2, por telefone, ela contou que o tema do disco foi escolhido pelo seu público. ''Converso muito com meu fã-clube e eles sugeriram que eu gravasse um disco falando de amor, que nunca sai de moda'', diz. O resultado, observa, é que 80% das canções retratam as diversas formas de amar. Os outros 20%, no entanto, retomam temas já abordados por Leci, desde o início da sua carreira.
Leci começou a atuar como cantora e compositora ainda nos anos 60, mas foi na década de 80, depois de romper contrato com a gravadora Polygram, que a sua atuação política passou a ser mais significativa, assim como a luta pelos direitos humanos encampada por ela. No novo disco, Leci retoma essa discussão em duas faixas. Uma delas é o ''O Dono e o Povo'', assinada por ela e gravada pela primeira vez no início da década de 90. ''Há 12 anos já falava que os morros cariocas iam ter dono, como diz a música, mas parece que ninguém prestava muita atenção, por isso decidi regravar'', revela.
Outra canção que faz parte do repertório de ''A Cara do Povo'' e que lembra a luta de Leci pelo direito das minorias é ''Negro Zumbi'', em parceria com Valdilene a Afro Mandela. Leci conta que desde que gravou essa música pela primeira vez, na década de 80, o Brasil mudou muito no que diz respeito aos direitos dos negros, mas isso não significa que o tema deve ser deixado de lado, segundo ela. Por isso, o motivo da regravação.
Já as outras faixas do disco, remetem ao tema sugerido pelo público fiel de Leci Brandão. Inclusive uma gravação inédita de uma canção de Cartola, em parceria com Elton Medeiros (''Sofreguidão''). ''Essa é a primeira vez que gravo Cartola, sempre cantei Cartola, mas nunca gravei'', diz Leci. A faixa é um dos ''xodós'' da cantora, que ressalta ainda a regravação de ''Ousadia do olhar'', assinada por ela, como uma de suas músicas prediletas.


