Disco revolucionário de Miles Davis é relançado
PUBLICAÇÃO
sábado, 15 de janeiro de 2011
Pedro Antunes <BR>Agência Estado 
São Paulo - As cortinas ainda estão fechadas. Dave Holland e Chick Corea - no baixo e no teclado, respectivamente - começam a mostrar virtuosismo em seus instrumentos. Quase que no mesmo momento em que as cortinas se abrem, é a vez de Jack DeJohnette começar a tocar levemente em sua bateria. Enquanto o trio toca, dois homens negros entram calmamente no palco do Festival Tivoli Konsertsal, em Copenhagen, na Dinamarca, para completar o quinteto que se apresentaria naquela noite de 4 de novembro de 1969. Um segura um sax - Waybe Shorter -, o outro, um trompete. Todas as atenções estão voltadas para o segundo. Ele, calmo, assiste à jam do trio despretensiosamente, enquanto se prepara para tocar.
A música mágica produzida ali ainda está incompleta. Ao todo, são 40 segundos de espera, até que o trompetista leva o instrumento à boca. A ansiedade é justificada. Trata-se de Miles Davis. E, desde as primeiras notas, já se pode perceber que, apesar de toda a qualidade da banda, faltava o ingrediente principal: a genialidade de um dos maiores nomes do jazz. O show foi uma pequena amostra do que viria no ano seguinte, o disco ''Bitches Brew'', um dos mais revolucionários da história do jazz.
No dicionário do estilo perpetuado por Miles Davis, John Coltrane, Louis Armstrong e Billie Holiday, o termo ''revolucionário'' já está mais do que desgastado. É até compreensível, tendo em vista a total liberdade que o jazz proporciona aos músicos, dando vazão à experimentação e à criatividade. Não há limites. Assim como não houve barreiras para Davis em seu ''Bitches Brew'', de 1970, relançado agora, em edição especial, 40 anos depois, com versões alternativas para as faixas, além da gravação da apresentação na Dinamarca. Mas qual o motivo pelo qual ''Bitches Brew'' pode ser realmente chamado de revolucionário, sem medo de errar? A explicação está no contexto histórico no qual ele foi criado e, ainda mais, no tempo que ele levou para ficar pronto: 3 dias.
Hendrix e Dylan
O ano era 1969. O ritmo criado em Nova Orleans perdia espaço na cabeça dos jovens para o rock. Jimmy Hendrix lançava seu ''Electric Ladyland''; Bob Dylan, o ''Blond On Blond''; The Who, o ''Tommy''; Frank Zappa, o ''Hot Rats''. Guitarras e baixos elétricos deixavam os trompetes e contrabaixos acústicos obsoletos. Miles Davis foi o responsável por aproximar os dois estilos. Apesar de todo o vanguardismo de Davis, é necessário dar crédito à sua então esposa, Betty, que o apresentou ao rock experimental e psicodélico de Hendrix.
Em ''Bitches Brew'', Davis inclui os instrumentos roqueiros, dando ao jazz uma pegada mais forte, mesmo mantendo as suas raízes fincadas na improvisação e no suingue já conhecidos. Alguns especialistas marcam no lançamento deste disco, há 40 anos, o nascimento do fusion, ou jazz-rock.
Instrumentos e equipamentos eletrônicos, como pedais e amplificadores, são até hoje utilizados. O álbum se tornou uma referência citada por trompetistas de gerações posteriores. Um grande expoente do instrumento no Brasil, Guilherme Mendonça, ou Guizado, como é chamado, sequer havia nascido quando ''Bitches Brew'' foi lançado. Hoje, aos 38 anos, ele reconhece a importância do disco: ''O rock foi adaptado para o jazz da maneira deles. Isso nunca havia existido. Virou outra coisa. Abriu a cabeça dos jovens''. Foi revolucionário.
SERVIÇO
''Bitches Brew''
Miles Davis
Columbia
Preço - R$ 59,90


