Agência Folha

ReproduçãoJohn Lennon compunha de forma cruaO lançamento da coletânea ‘‘Lennon Legend’’, com a nata do trabalho solo do ex-beatle, nascido em 9 de outubro de 1940 e assassinado em 8 de dezembro de 1980, colocou no ar uma pergunta interessante: onde estaria Lennon hoje, em 1998, depois do proclamado ‘‘fim da história’’ (e das utopias)? Navegando na Internet.
Pelo menos é isso que disse a viúva Yoko Ono numa longa entrevista à revista inglesa ‘‘Uncut’’, cuja edição do mês tem Lennon na capa. ‘‘Ele teria amado a idéia de uma nova mídia como a Internet. Provavelmente é o que ele estaria fazendo agora, compondo e se comunicando pela rede’’. ‘‘Lennon Legend’’ não ganhou alvoroço da mídia britânica, mas está entre os álbuns mais vendidos na ilha há mais de dois meses, quando foi lançado. É composto por 20 canções, entre as quais estão ‘‘Imagine’’, ‘‘Happy Christmas (War Is Over)’’, ‘‘Woman’’, ‘‘Give Peace a Chance’’ e ‘‘Jealous Guy’’. São cinco peças de exaltação à paz e ao amor, feitas com e para Yoko, numa época em que certos valores pareciam fazer mais sentido. Yoko Ono é, digamos, 50% dessas canções. É difícil associar o trabalho do Lennon pós-Beatles sem sua parceira, goste-se dela ou não. Os dois viveram uma das maiores - e mais públicas - histórias de amor do nosso século.
Lennon conviveu com sua musa por pouco mais de dez anos, depois de ter reescrito a história da música popular ao lado dos outros três Beatles. Seu melhor amigo durante a adolescência e até o final dos anos 60 foi Paul McCartney. É para ele, portanto, que se deve olhar para conseguir entender a carreira de John Lennon.
Mais vendidosCoincidência ou não, a coletânea ‘‘Lennon Legend’’ saiu pouco mais de um mês depois da biografia de Paul McCartney, ‘‘Many Years From Now’’, um dos livros mais vendidos no Reino Unido no final do ano que passou. Como se nem a morte de John Lennon conseguisse apagar a rivalidade que ele e seu eterno parceiro construíram ao longo de mais de 25 anos de relacionamento.
Deixando de lado a questão qual-é-o-melhor-dos-dois, o fato é que a biografia de Paul é um excelente acompanhamento para a coletânea de John. Tendo sido seu melhor amigo desde o final dos anos 50, Paul joga uma luz sobre a perturbada e triste existência de seu parceiro. Garoto de classe média, abandonado pelo pai e pela mãe - que viu morrer atropelada quando era adolescente -, John Lennon preferia exercitar sua genialidade na reclusão de seu lar. Genialidade manifestada muitas vezes de forma amarga, com o compositor apontando armas para si próprio. De suas reflexões pós-Beatles, por exemplo, saíram letras rasgadas como a de ‘‘Mother’’ (‘‘Mãe, eu precisei de você/ mas você nunca precisou de mim’’) e ‘‘Cold Turkey’’, sobre suas experiências com heroína. As duas canções estão no álbum. Vantagem para Lennon: ninguém ousa defender seriamente a produção solo de Paul McCartney. ‘‘Paul fez coisas maravilhosas, é um compositor fantástico, mas era muito mais refinado ao compor. John era cru, revolucionário’’, disse Tom Davies, fã dos Beatles ‘‘desde sempre’’, dono de um bar temático sobre os mesmos.
Nem o próprio McCartney defende seu trabalho solo em detrimento do de Lennon. Paul admite a mudança de direcionamento que a troca de parceiros de ambos - de um pelo outro pelas esposas Linda Eastman e Yoko Ono - provocou em suas carreiras.
No final dos anos 70, lembra Paul no livro, John estava ainda mais recluso do que nos tempos de casamento com Cynthia Lennon. Os dois se encontraram pela última vez em 1976, quando quase fizeram um show ao lado de George Harrison e Ringo Starr no programa da televisão norte-americana ‘‘Saturday Night Live’’. Mantinham uma amizade transatlântica por telefone para falar de filhos e problemas domésticos. A visão da vida de Lennon apresentada pelo livro de Paul McCartney é mais real e ‘‘humana’’ do que o Lennon revolucionário e porta-voz de uma geração. É preciso conhecer os dois lados do mesmo homem para entrar de cabeça nesse ‘‘Lennon Legend’’.

mockup