O disco abre com o ruído do guitarrista plugando seu instrumento no amplificador. A introdução é sugestiva, mas enganadora. Embora pontuem boa parte das faixas de ''Hail to the Thief'' (EMI), novo álbum do Radiohead, as guitarras continuam dividindo o espaço com os teclados e os timbres eletrônicos que sublinharam os últimos trabalhos do grupo britânico mais cultuado hoje no mundo.
''Hail to the Thief'' oscila entre o melodismo pop de seus primeiros discos e os devaneios tortuosos da fase recente. Traz belas canções como a pulsante ''2 + 2 = 5'', o potencial hit indie ''Where I End and You Begin'', a intensa ''A Wolf at the Door'', a balada dolorida ao piano ''Sail to the Moon'' e as cadenciadas ''There There'' e ''A Punchup at a Wedding''. Curiosamente, são as que dispensam as batidas programadas adotando o instrumental acústico e até arranjos delicados para cordas.
Numa comparação, estariam mais próximas de álbuns como ''The Bends'' e ''Ok Computer'' do que de ''Kid A'' e ''Amnesiac''. As texturas sombrias, no entanto, ainda ecoam no bloco restante de composições. O lançamento do disco, o sexto na carreira do Radiohead, foi precedido por algum bafafá. Um foi o vazamento de faixas ''não completas'' para a Internet, o que desagradou os rapazes.
Outro foi a polêmica sobre o título do álbum, ''Saudações ao Ladrão'' (em vez do tradicional ''saudações ao chefe''), que segundo o tablóide New Musical Express seria uma crítica à controversa eleição do presidente norte-americano George W. Bush. A banda desconversou, alegando que a frase fora pinçada da faixa ''2 + 2 = 5'' cuja letra não faz menção a políticos de ocasião.
O compositor e vocalista Thom Yorke comenta o assunto no material de divulgação do CD. ''Nós não temos que subir num caixote e fazer uma pregação'' explica ele. ''Não tivemos a intenção de fazer um álbum de protesto, de jeito nenhum. Isso seria muito superficial. Como sempre, foi simplesmente o caso de absorver o que está acontecendo à nossa volta. O título do álbum vai muito mais além de ser algum tipo de propaganda anti-Bush. Se por acaso acontecer das pessoas começarem a queimar nossos álbuns, então que seja. Este é exatamente o ponto da questão. As trevas começaram, estamos na escuridão''.
Politizados como poucos na música pop, Yorke e seus asseclas não esculpiram uma obra-prima, mas com meia dúzia de canções inspiradas voltaram a reforçar a fama de banda mais respeitável da Europa.

mockup