DISCO GAL 'HOJE' EM DIA
PUBLICAÇÃO
sábado, 10 de setembro de 2005
Nelson Sato<br> Reportagem Local 
A cantora número um da MPB faz juz ao título em sua nova coleção de canções. Gal Costa caprichou em ''Hoje'', disco que marca sua estréia na gravadora Trama. Produzido por César Camargo Mariano, o trabalho parece concebido para calar de vez a crítica, que durante duas décadas a cobrou por se limitar a gravar músicas conhecidas de compositores consagrados.
Desta vez, ela entupiu os créditos do encarte com novos nomes e composições inéditas, embora conceda duas das 14 faixas para Caetano Veloso e Chico Buarque. A novidade, porém, é um detalhe diante da cara final do projeto. Afinal, Gal poderia gravá-los com resultados pífios. Não é o caso. O disco soa classudo, cool, jazzy, como ela define na entrevista que acompanha o material distribuído à imprensa.
Para selecionar o repertório, pediu ajuda ao compositor Carlos Rennó, responsável por colocar letras em ''Pra que Cantar'', ''Te Adorar'' e ''Sexo e Luz'', todas com melodias do congolês Lokua Kanza, que ela conhecera durante um show do artista no Canecão, no Rio de Janeiro. A cantora não poupou baianos radicados em São Paulo, como ela no elenco de eleitos gravando um afoxé de Péri (''Voyeur''), uma colagem de Moisés Santana (''Os Dois''), um samba-funk de Tito Bahiense (''Logus Pé''); além de uma toada e um samba de Moreno Veloso (''Hoje'' e ''Um Passo à Frente'').
Sem falar no velho amigo Caetano, que compôs a melancólia ''Luto'', cuja gravação a fez chorar no estúdio. Gal precisou de 40 minutos para conter as lágrimas e se refazer da emoção. Quando voltou ao estúdio, gravou direto, num take só. Nos primeiros versos, ela canta: ''Ai. meu carnaval...Que é que 'cê fez,/ Homem ruim? / Ai pobre de mim, / Mais uma vez / Fiquei tão mal / Do início ao fim / Dessa festa que meu pai meu deu para treino / espiritual.''
O disco contempla ainda o pernambucano Junio Barreto (''Santana'') e os paulistas Hilton Raw (''Nada a Ver''), Nuno Ramos (nos belos sambas ''Pra que Cantar'' e ''Jurei'') e José Miguel Wisnik (que escreveu a letra para ''Embebedado'', um choro antigo de Chico Buarque). César Camargo Mariano foi o grande parceiro da cantora na gestação do álbum. Produziu, assinou os arranjos e tocou teclados e percussão eletrônica.
Já havia trabalhado com Gal em 1983 produzindo três faixas para o álbum ''Baby Gal''. O reencontro ocorreu há dois anos durante um concerto em homenagem a Tom Jobim, no Carnegie Hall, em Nova York (EUA). Mariano contou que tinha um projeto para ela a gravação de um disco só com músicas de Chet Baker (1929-1988). Ela topou na hora. O tempo passou e nada do maestro retomar o diálogo. Um dia, Gal ligou para cobrar-lhe o disco.
Ele, que estava em São Paulo, informou-a que João Marcelo Bôscoli (sócio-proprietário da gravadora Trama) tinha uma outra idéia no gatilho: a gravação de um álbum só com músicas inéditas. Na ocasião, a cantora e o produtor pensaram em executar simultaneamente os dois projetos. Depois, decidiram adiar o CD de Chet Baker, de quem ela é fã confessa desde a juventude. Já dedicados exclusivamente ao álbum de inéditas, Mariano fez chegar a Gal cerca de 300 composições de jovens autores.
Após a audição, a voz feminina mais emblemática do tropicalismo lamentou não conseguir identificar seu universo musical na maioria das canções. Foi então que pediu a colaboração de Carlos Rennó, que filtrou o material. Já no estúdio, as sessões de gravação foram feitas com todos os músicos reunidos, como se tocassem ao vivo. A execução é primorosa, com destaque para a fusão de percussão acústica e eletrônica presente em quase todo o disco.
Não será excesso de rigor, porém, ressalvar os claudicantes e quase pasteurizados arranjos para backing-vocals para a canção ''Te Adorar''. Mas Gal parece cantar como nunca, acomodando os agudos rebeldes do período tropicalista. É consenso que a cantora foi privilegiando o registro médio à medida que adquiria timbres graves na maturidade, quando, já entronizada como diva da canção, foi comparada a Ella Fitzgerald.
Sua voz soa cada vez mais elaborada. A turnê do CD está prevista para outubro. Gal planeja ser acompanhada por um quinteto de músicos e um computador, que se encarregará de reproduzir recursos pré-gravados. Para os palcos, pensa em levar faixas de ''Hoje'', alguns sucessos de carreira e talvez algumas canções que nunca tenha cantado incluindo uma música de autor desconhecido que ficou de fora do novo CD.
No final do ano, o show vai virar DVD. Aí, é provável que todos já tenham desfrutado da audição do álbum listando-o entre os melhores da cantora, cujo aniversário de 60 anos será festejado no próximo dia 26.


