Curitiba - Há 35 anos, o mineiro Fernando Brant iniciava o que viria a ser uma sólida parceria com o músico Milton Nascimento e uma consistente carreira como compositor. Foi por insistência de Milton e meio por acaso que ele escreveu uma de suas composições mais conhecidas ''Travessia'', que ganhou o segundo lugar no Festival Internacional da Canção do Rio de Janeiro, em 1967.
De lá para cá, Brant não parou mais de compor, com parceiros que vão de Milton a Lô Borges e integrantes do lendário Clube da Esquina. Seu trabalho acaba de ganhar uma retrospetiva da Dubas Música, que reuniu no disco ''Outubro'' as suas principais composições. A compilação é assinada por Leonel Pereda e Ronaldo Bastos, com o aval, é claro, de Brant, que ajudou na escolha do repertório e cedeu fotos e documentos pessoais para o encarte.
''Umas 300 músicas ficaram de fora, mas já dá para ter uma idéia do meu trabalho'', brinca Brant. Em entrevista, por telefone à Folha, ele conta que o disco pode ser considerado como um balanço da sua carreira. ''Acho legal o resultado, funciona como uma espécie de memória'', diz.
O disco é o terceiro volume da série Colecionave, que reúne canções de grandes compositores nas vozes de seus melhores intérpretes. ''Outubro'' leva o nome da composição homônima feita em 1969 também em parceira com Milton Nascimento (''Tanta gente no meu rumo/mas eu sempre vou só/Nessa terra, desse jeito, já não sei viver/Deixo tudo,deixo nada/Só do tempo eu não posso me livrar''). O nome do disco é também uma alusão ao mês de aniversário de Brant.
Ele nasceu em Caldas, Minas Gerais, em 9 de outubro de 1946. Atualmente mora em Belo Horizonte, onde está desenvolvendo uma série de projetos. Suas músicas já foram (e continuam sendo) gravadas pelos principais intérpretes brasileiros, como o próprio Milton Nascimento, Elis Regina, Gal Costa, Simone, Nana Caymmi, Fafá de Belém, Joana, Beto Guedes, Lô Borges, Gonzaguinha, Tadeu Franco, Ney Matogrosso, MPB 4, Quatorze Bis, Roupa Nova, Uakti e outros.
A retrospectiva da Dubas abre com ''Vevecos, Panelas e Canelas'', de Milton e Brant, interpretada por Beto Guedes. A música integra o disco ''Contos da Lua Vaga (Emi, 1981) e é uma das pérolas do compositor. Os versos ''Eu não tenho compromisso, eu sou biscateiro/Que leva a vida como um rio desce para o mar/Fluindo naturalmente, como deve ser/Não tenho hora de partir nem de chegar'' parecem traduzir toda uma geração que viveu o auge da ditadura e o clímax da música popular brasileira.
''Ponta de Areia'' (1975), uma das canções mais conhecidas de Brant, também aparece no disco, com a bela interpretação de Nanna Caymmi. O disco conta ainda com ''Paisagem da Janela'' (Lô Borges e Fernando Brant, 1972); ''Canção da América'' (Milton e Brant, 1980); ''Fruta boa'' (Milton e Brant, 2001); ''Coração civil'' (Milton e Brant, 1983), entre outras tantas que ajudaram a contruir a história da música no Brasil.
E mesmo sendo peça chave para desvendar essa história, Brant diz não se considerar um ícone da MPB. ''Ainda tem muita coisa para fazer'', revela. Ao longo de mais de três décadas de carreira ele criou, além de mais de 300 músicas, roteiro e letras para os balés ''Maria Maria'' e ''Último Trem'', encenados pelo Grupo Corpo. Roteiros e diálogos do musical ''Manoel, o Audaz'' e do curta-metragem ''Os Irmãos Piriá''. Em parceria com Gilvan de Oliveira, também criou trilhas sonoras para os espetáculos ''O Beco'', ''Nossa cidade'' e ''Viva o Povo Brasileiro'', do Grupo Teatral Ponto de Partida.
Há seis anos, ele vem apresentando um show acústico com o músico Tavinho Moura. Recentemente fez uma parceria inédita com Flávio Venturini e há pouco mais de um ano desenvolveu um projeto que se transformou numa espécie de xodó : o espetáculo ''Fogueira do Divino''. Trata-se de um musical apresentado no Palácio das Artes, em Minas, com a Orquestra Sinfônica de Minas Gerais e um coral composto por 40 vozes. Participaram novos e conhecidos músicos como Alda Rezende, Sérgio Santos o trio do grupo Tambolê, Marina Machado, entre outros.
''É um trabalho belíssimo que queremos lançar em CD, mas falta patrocínio'', conta. Paralelo à busca de apoio para o projeto, Brant pretende também lançar um livro reunindo as suas composições. ''Nunca leio minhas músicas como poemas, mas acho que essa leitura pode ser feita, sim'', analisa. ''Mas isso é só um projeto, tenho que organizar as letras primeiro'', revela sem precisar datas.
Enquanto isso, como todo bom mineiro, Brant vai seguindo ''devagar e sempre''. ''É um jeito de não se repetir, tem que fazer as coisas com calma, vivendo, lendo e vendo tudo o que passa pelo caminho'', ensina.

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