Sax, flauta, cavaquinho, violão de sete cordas, contrabaixo e percussão. E uma redescoberta de Villa-Lobos, com ênfase em suas origens populares. Em ''Papagaio do Moleque'', Daniela Spielmann, Alessandro Valente, Marcello Gonçalves, Alexandre Brasil e Beto Cazes, com seu grupo ''Rabo de Lagartixa'', fazem uma surpreendente releitura do repertório do compositor (cujo cinquentenário de morte foi celebrado em 2009), resultando em um disco leve, mas que mantém a densidade da música de Villa-Lobos.
Na verdade, o projeto original do grupo era gravar um outro disco, com repertório variado. Mas os músicos resolveram aceitar o desafio proposto por Olivia Hime, da Biscoito Fino, e gravar Villa-Lobos com a sonoridade característica do grupo. A relação do grupo com o compositor não é nova: em seu primeiro disco, Rabo de Lagartixa, lançado há dez anos e aclamado pela crítica, uma das faixas que mais fez sucesso foi justamente a Melodia Sentimental de Villa-Lobos.
Neste disco, os arranjos (assinados pelos integrantes do grupo e pelo produtor Paulo Aragão) enfatizam as fontes populares nas quais o compositor se baseou para compor. Em cada faixa, fica muito claro que se trata do Rabo de Lagartixa e seu virtuosismo, e ao mesmo tempo do mais puro Villa-Lobos. ''Geralmente, as pessoas pegam a melodia e dão uma nova harmonia, mas se esquecem dos detalhes. E a música de Villa-Lobos é cheia de detalhes. Vimos que a graça seria justamente investir neles'', revela o violonista Marcello Gonçalves.
Assim, no primeiro movimento da Bachiana nº1, por exemplo, o tema principal ganhou um acompanhamento de Boi de Pindaré, um ritmo maranhense. ''Fomos buscar o que o inspirou. Entender a arquitetura de Villa-Lobos, a harmonia que ele usou em sua música. Procuramos ser fiéis às ideias dele e transportá-las para a nossa formação'', explica o músico.
Além da Bachiana, o disco traz A Lenda do Caboclo, outra música bastante conhecida, mas boa parte do repertório é composta por obras pouco exploradas, desde Tristorosa, composta em 1910, até a inédita Canção das Águas Claras. Cada uma delas ganhou um toque especial, devidamente explicado no encarte do CD, como um ritmo de Alujá, marcha, baião, polca, jongo e até Bravum, ritmo do candomblé. ''Eu acredito que se Villa-Lobos tivesse conhecido Rafael Rabello e outros músicos populares com alto nível de execução e de leitura, teria composto para música popular também, assim como Radamés Gnatalli fez'', sugere o violonista.
O nome de Villa-Lobos, aliás, está diretamente ligado à formação do grupo. O Rabo de Lagartixa surgiu em 1992, quando seus integrantes, na época acadêmicos de Música, participaram de uma série de concertos didáticos que o Museu Villa-Lobos mantém em sua sede, no Rio de Janeiro. ''A proposta era tocar só música brasileira, mas com uma coisa didática. Então bolávamos brincadeiras para crianças'', comenta Gonçalves, acrescentando que o próprio nome do grupo surgiu dessas brincadeiras. ''Conforme nos profissionalizamos, até cogitamos mudar o nome, pôr algo mais sério, mas também queríamos manter esse lado lúdico, que não pode se perder, por mais profissional que a gente seja. O nome é uma salvaguarda disso'', analisa.
Segundo Gonçalves, os planos para o outro disco não foram descartados. E o melhor: não será preciso esperar mais dez anos até seu lançamento - é provável que já em 2011 um terceiro Rabo de Lagartixa apareça saracoteando por aí.

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