Curitiba Quando a cantora Elza Soares recebeu a proposta de gravar o seu segundo disco, na década de 60, ganhou junto um namorado. Está certo que era um namorado ''de aparência'', idéia de Ronaldo Bôscoli para promover o disco, que receberia o sugestivo título de ''Bossa Negra'', mas era um rapaz ''lindo'', conforme conta a própria Elza. O belo casal tinha a missão de ir aos lugares mais frequentados pela nata da sociedade, acompanhado de fotógrafos, para denunciar possíveis atitudes preconceituosas contra os negros, na época comuns no cenário carioca e, de quebra, divulgar o novo trabalho.
''Eu comecei a ganhar aquela força da raça negra, sem nunca ter escolhido, sem saber da responsabilidade que isso tinha, como hoje sei do que se trata'', lembra cantora. Essa e outras curiosidades sobre o segundo disco de Elza Soares estão no encarte da reedição de ''Bossa Negra'', que acaba de ser lançado pela Dubas. O disco traz um repertório ousado capaz de surpreender a geração que descobriu Elza pelo recém-lançado ''Do cóccix até o pescoço'' , da gravadora Mangaia.
Com duelos improvisados e referência a ídolos como Dalva de Oliveira e Alaíde Costa, Elza começaria, a partir do disco, uma importante etapa de sua carreira. Não só ganhando reconhecimento, como vendo retorno do seu trabalho. A cantora conta, por exemplo, que foi a partir do lançamento do disco que ela passou a saber ''o que era comer''.
Filha de uma lavadeira e de um operário, Elza Soares cresceu no subúrbio do Rio de Janeiro. Aos 12 anos já era mãe e aos 18 ficou viúva. Quando gravou ''Bossa Negra'', aos 24 anos, carregava toda uma influência dos sambistas do morro e uma personalidade forte de quem teve que lutar para seguir o sonho de cantar. Personalidade, aliás, que lhe rendeu algumas ''gafes'' como ela mesmo conta. ''Um dia, havia um senhor sentado me assistindo, com um buquê de rosas lindíssimos, que se aproximou do palco e me disse: 'trago umas rosas para outra rosa.' E eu falei 'olha, o senhor se enganou, porque eu detesto rosas e meu nome não é Rosa'''.
O senhor em questão era o compositor Lupicínio Rodrigues, que queria parabenizar Elza pela música ''Se acaso você chegasse'' composta por ele e que ela acabara de cantar. A música não aparece em ''Bossa Negra'', mas canções do compositor são comuns na voz da cantora. ''Naquela época eu não participava muito da escolha do repertório. Era meu emprego, que eu precisava, e, apesar de eu amar cantar, eu tinha uma porção de filhos para alimentar e tinha muito medo de dizer 'não gravo isso' e de perder o meu trabalho'', revela.
As músicas que compõe o repertório de ''Bossa Negra'', no entanto, não poderiam ter sido ser melhor escolhidas. O disco abre com ''Tenha pena de mim (ai ai, meu Deus)'' de Cyro de Souza e Babahu. Traz pérolas como ''Beija-me'' (Roberto Martins e Maro Rossi) e ''Cadeira vazia'', uma parceria de Lupicínio com Alcides Gonçalves. O disco foi gravado nos estúdios da Odeon em único dia e tendo uma platéia que incluia Sylvia Telles, Aloysio de Oliveira e Lúcio Alves. Para gravar o CD, que tem licença da EMI e distribuição pela Universal, a Dubas utilizou as mesmas fitas utilizadas na gravação original.
O disco foi, sem dúvida, uma marco na carreira da cantora. Depois dele, a vida de Elza começaria a mudar. Tempos depois de gravar o disco, ela conheceu o jogador Garrincha, morto em 1983, com quem casaria mais tarde e teria um filho, que morreu três anos depois de Garrincha. Com a morte do filho. Elza partiu para Europa, onde ficou por nove anos.
A cantora voltou ao Brasil em 1997, quando gravou o CD ''Trajetória'', reunindo sambas de Zeca Pagodinho, Guinga e Aldir Blanc. Nesse mesmo ano, lançou o livro ''Cantando para não enlouquecer'', biografia escrita pelo jornalista José Louzeiro.
Além de ''Bossa Negra'' com os antigos sucessos de Elza, a Dubas acaba de colocar nas prateleiras mais dois lançamentos. ''The music of Mr. Jobim by Sylvia Telles'' é a primeira edição em CD do disco gravado sob encomenda na década de 60 pelo selo Kapp Records e lançado no Brasil pela gravadora Elenco. Para lançar o trabalho, a Dubas recuperou e remasterizou as fitas originais, preservando a capa original.
O terceiro lançamento da Dubas reforça o conceito da gravadora carioca de apostar em coletâneas. ''Wave - As pratas e os ouros de Yemanjá'' é o segundo lançamento da coleção intitulada Wave e traz músicas de Jobim, Caetano Veloso, Chico Buaque e Nana Caymmi, assim como outros compositores que se inspiraram no mar para compor. A seleção foi feita por Ronaldo Bastos e pelo produtor Leonel Pereda. Os três discos já podem ser encontrados nas lojas.

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