São Paulo, 15 (AE) - Na cidade deles vivia um marinheiro que falou de um submarino amarelo. Daí eles foram viver no mar, entre as ondas, eles e os amigos, num submarino amarelo. Um dia, violões terríveis que detestavam música tentaram acabar com a banda do Clube dos Corações Solitários do Sargento Pimenta. Eles foram lá, venceram o inimigo, a música voltou a imperar e eles voltaram a viver felizes no seu submarino amarelo. Como uma história assim pôde resultar num filme formidável e num punhado de inesquecíveis canções é mistério que nem os Beatles saberiam decifrar.
"Yellow Submarine", o disco, é uma obra-prima. São quatro canções de John Lennon e Paul McCartney e duas de George Harrison; e outras sete miniaturas sinfônicas de George Martin, que lançou mão, para compor a música de circunstância do filme, do conhecimento acumulado desde o tempo em que ainda trabalhava como músico erudito. As referência de Martin vão de Bach a McCartney - preencham o intervalo. Do tom pastoral do tema de "Pepperland", a terra do Sargento Pimenta, ao clima descritivo do "Sea of Monsters" ("Mar dos Monstros", habitado, por exemplo, por um bicho esquisito que engole a si próprio), Martin brinca brilhantemente com a orquestra: com humor, leveza, beleza.
O melhor são as canções dos Beatles? São a razão de ser do disco, do filme, da música de Martin. De Lennon e McCartney, "Yellow Submarine", "All Together Now", "Hey Bulldog" e "All You Need Is Love"; de George Harrison, "Its All to Much" e "Only a Northern Song". As de Harrison são mais sérias. As de Lennon e McCartney são jogos lúdicos: "Um, dois, três, quatro, me dá um pouco mais? Cinco, seis sete, oito, nove dez, eu amo você", canta a letra de "All Together Now".
E, no entanto, é fabuloso. Os arranjos de Martin criam para um joguinho como esse a atmosfera de encantamento que a música pop buscava, na essência, e prosseguirá buscando. Há ali, como nunca mais, humor, irreverência, uma dose despreocupada de inocência e imensa sabedoria musical. E generosidade: "Se você estiver sozinho, pode me procurar", diz a frase forte de "Hey Bulldog". Paul McCartney criou para a música uma das mais formidáveis linhas da história do contrabaixo elétrico, mas o resultado soa como festa no quintal da casa da gente, com fogueira e família. Esse é o segredo.

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