Disco é um sonho antigo
O disco Todo dia é dia D, que resgata a obra de Torquato Neto, é uma idéia antiga. Nasceu já alguns anos, quando Ronaldo Bastos preparou o primeiro CD da agora série Colecionave (Colecionave Ronaldo Bastos, 1999) reunindo composições próprias. Sobre o trabalho atual, ele explica: Minha idéia não era documentar a obra de Torquato, mas fazer um disco para ser ouvido com prazer. Uma das medidas para colocar isso em prática foi buscar a qualidade técnica do som e dar uma linguagem ao CD. Assim como o cinema, o disco tem uma linguagem própria que procuro respeitar nessas coletâneas, diz (só para adiantar, o próximo da série Colecionave será uma coletânea de músicas do compositor Fernando Brant).
Em Todo dia é dia D, Bastos recupera parcerias de Torquato com Gilberto Gil (Geléia Geral, Louvação, A coisa mais linda que existe, Minha senhora, A rua e Cantiga), Caetano Veloso (Mamãe Coragem), Edu Lobo (Pra dizer adeus, Veleiro e Lua Nova), Luiz Melodia (Começar pelo Recomeço), Jards Macalé (Lets Play That) e Carlos Pinto (Três da Madrugada e Todo Dia é Dia D, que dá nome ao trabalho).
Todas as gravações são originais e foram remasterizadas. Algumas músicas no entanto, foram remixadas, para se adequarem aos formatos técnicos atuais. É o caso de Três da Madrugada (Carlos Pinto / Torquato Neto), cantada por Gal Costa no histórico compacto que integrava a edição póstuma do livro Últimos dias de Paupéria, de 1973, uma iniciativa da artista gráfica Ana Duarte, viúva do compositor.
Ana Duarte cedeu o material utilizado por Bastos para o belo encarte do disco. As fotografias e as letras datilografadas e revisadas à mão pelo próprio autor, além de cópias de documentos pessoais que constam no encarte, foram escolhidas por Bastos durante uma tarde no apartamento de Ana. Essa seleção já foi uma pré-curadoria para o material, informa Bastos.
Já Ana Duarte, que preferiu não acompanhar o processo da escolha das músicas e de finalização do encarte, diz: Fiquei emocionada ao ver o disco pronto. A idéia de colocar uma foto do Torquato quando criança na capa é fantástica. Isso porque desmistifica a visão de vampiro deixada pelo poeta suicida por causa da sua participação no filme Nosferato no Brasil (1971) de Ivan Cardoso, um ano antes de sua morte.
Ana também não está acompanhando a produção dos dois livros que devem ser lançados ainda esse ano. A biografia que o Toninho Vaz está fazendo é independente. Já a reedição do livro Últimos dias de Paupéria é um projeto antigo do jornalista Paulo Roberto Pires. Ele reestruturou o livro em dois volumes e anexou textos inéditos de Torquato que serão lançados em dois volumes: um reunindo as poesias e outro os textos de jornalismo. O livro já era para ter sido lançado pela Editora Rocco, mas um acidente técnico fez com que o jornalista perdesse a maior parte dos textos já compilados no computador, o que resultou no atraso.
Sobre a esperada biografia de Torquato Neto, Ana não tem notícias. Detesto essa história de viúva segurando alça de caixão, acho que cada um tem a sua história, diz ressaltando que não quer policiar o trabalho de ninguém e exatamente por isso prefere se manter à distância enquanto os trabalhos são executados. O Torquato era uma pessoa doce, inteligente e é isso que fica quando eu me lembro dele, finaliza.





