Esqueçam o esplendor da estrela maior da MPB. No disco ''Cânticos, Preces, Súplicas à Senhora dos Jardins do Céu'', Maria Bethânia se isenta de estrelismos e interpretações arrebatadoras para reverenciar, com voz doce e intimista, a figura mais importante do catolicismo, a Virgem Maria. Com caráter devocional, apresenta um repertório composto por canções, novenas, poemas, ladainhas e orações escolhidos com o ''coração manso e feliz'', conforme explica no encarte do disco, lançado pela gravadora Biscoito Fino. O projeto original de ''Cânticos, Preces, Súplicas...'' foi concebido há dois anos para angariar fundos à Igreja de Nossa Senhora da Purificação, da cidade natal de Bethânia. Na época foram impressas apenas duas mil cópias, rapidamente esgotadas.
Adepta do candomblé, Maria Bethânia nasceu sob teto católico foi batizada, crismada, frequentou missas , e sempre teve Nossa Senhora como santa de devoção, em especial a da Purificação. ''Nasci em Vossas mãos, vivo amparada por elas e morrerei abrigada nelas'', escreve a intérprete baiana que produziu o disco juntamente com seu alter ego musical, o maestro Jaime Alem.
Como nos discos de carreira, não abriu mão de escolher pessoalmente o que cantar e o que declamar. Do repertório ao tratamento gráfico, com toque do consagrado Gringo Cardia, tudo foi escolhido com esmero, elegância e fervor a imagem da Divina Pastora é quem estampa a capa do álbum. Com exceção de seu nome, Maria Bethânia não permitiu nenhuma foto, nem mesmo no encarte.
As faixas de ''Cânticos, Preces, Súplicas...'' ganharam sonoridade camerística, barroca quase, nos arranjos escritos por Jaime Alem. Músicas, textos e orações são interpretados por uma Maria Bethânia sem robustez vocais e dramaticidade habituais que imprime a canções e poemas regularmente incluídos em discos e espetáculos musicais. O resultado é um trabalho evocativo que promove reflexão sem desatinar, em momento algum, em pieguices religiosas. Ao contrário, é tributo concebido por uma famosa devota de Nossa Senhora, cuja crença é externada de maneira pessoal ou conceitual, como normalmente alinhava os trabalhos de estúdio e palco.
Desconhecidos e famosos se revezam nas canções e textos, além de algumas faixas de domínio público como ''Oferta de Flores'', com a qual Bethânia abre o disco, a capela aos poucos a peça, bastante popular nas procissões do Recôncavo Baiano, ganha a adição de cordas. ''Ave Maria'', versos em latim colhidos por Caetano Veloso, ainda na fase tropicalista, prima pela delicada intervenção vocal de Nair Cândia.
O disco todo parece ser uma ação entre amigos e músicos senão devotos, simpatizantes da Virgem Maria. O diretor Fauzi Arap, que burilou o talento de Bethânia no teatro, comparece com o texto ''Doce Mistério de Maria'' procedido por ''O Doce Mistério da Vida'', agora em registro vocal mais grave. Waly Salomão ofertou ''Feitio de Oração'', texto dito com densidade. Um trecho: ''Serenai minhas irremediáveis pupilas dilatadas/ ó senhora dos sem remédios/ domai as minhas brutas ânsias acrobáticas/ que suspensas piruetam pânicas nas janelas do caos''.
Nossa Senhora da Purificação é reverenciada através da novena ''Sancta Maria'', musicada no século 19 por Domingos de Faria Machado. São de autoria dele também as novenas ''Totta Pulchara'' e ''És Lírio'', em arranjos para camerata, e também ''Hino de Nossa Senhora da Purificação''. Nesta última, agradável surpresa: Bethânia reza ''Salve Rainha'', uma das mais conhecidas orações católicas.
Nenhum texto, entretanto, é tão pungente como ''Ladainha de Santo Amaro'', escrito por Mabel Veloso, irmã da cantora. Ponto referencial do disco e que Bethânia declama, emocionada, versos belos como: ''Nossa Senhora mãe de Jesus/Nossa Senhora de todos nós/ Roga por tudo que tudo é teu/ Por cada coisa, por cada ser/ Pelos que cantam, pelos que choram/ pelos que te esquecem/ e pelos que te imploram''.
Versos de romeiros apreendidos por Bethânia conquistaram melodia, acompanhamento de violão e voz de Gilberto Gil. Chama-se ''Mãe de Deus das Candeias''. A ''Ave Maria'', de Schubert, vem atrelada à letra de Vicente Paiva e Jayme Redondo. Duas representantivas canções populares.
Comovente ouvir dona Canô, matriarca dos Veloso e famosa também por suas novenas, declamando com a voz já frágil ''A Ladainha de Nossa Senhora'' (de domínio público). ''Creio que ela, do alto dos seus 93 anos de doçura, alegria, amor à vida, bondade, sabedoria e devoção poderá ter a sua súplica atendida, mais prontamente, em nosso favor'', justifica Bethânia. Se o disco abre em clima sereno, encerra com a grandiloquência do canto da ilustre devota de Nossa Senhora, em arranjo pomposo para a cantata ''Magnificat'', de Bach.
Belo e sincero, ''Cantos, Preces, Súplicas à Nossa Senhora dos Jardins do Céu'' é um disco em que Maria Bethânia promove o ecumenismo de sua arte e fé.

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