Pra começo de conversa, é bom dizer que Isabella Tavianni não é um produto genérico de Ana Carolina tudo bem, o timbre às vezes se aproxima ao da cantora e compositora mineira. Mas no disco de estréia, a também cantora e compositora carioca deixa bem claro que é a sua. ''Minha voz não é meu cartão de apresentação. Não prezo o bel canto. Eu me preocupo principalmente com a emoção'', disse Isabella em entrevista à Folha2, por telefone, do Rio de Janeiro.
Voz forte e bem colocada, Isabella canta o amor e seus contrários num trabalho autoral que proporciona sobretudo climas. ''Isabella Taviani'' traz reflexões, desilusões, desabafos e referências ao amor tátil e subjetivo sem resvalar em sonoridade açucarada e/ou versos atormentados. Há elegância e contundência seja qual for a face refletida no espelho. Melhor de tudo, Isabella é uma intérprete e não uma cantora técnica.
O CD de estréia sai pela pequena gravadora Green Songs com distribuição nacional feita pela Sony Music. A autonomia que teve para fazer o que bem entendesse foi o que mais motivou Isabella a assinar contrato para quatro títulos com a Green Songs, que tem em seu elenco os cantores Biafra, Délcio Luiz (samba e pagode) e Rastaclone (grupo de reggae). ''Se tivesse ®MDBO¯®MDNM¯numa gravadora grande talvez não tivesse tanto espaço e o zelo '', analisa Isabella.
Aos 34 anos de idade, Isabella Taviani se preparou como pôde para lapidar sua arte, através de aulas de canto, passagem pelo teatro (no Centro de Artes Laranjeiras, no Rio de Janeiro) e circuito de bares, onde começou a tocar aos 19 anos. Em 97, gravou a primeira demo com quatro músicas. Três anos depois, outro disco demonstrativo com cinco canções próprias.
Numa bela noite, num dos bares da vida em que tocava e cantava para ''meia dúzia de pessoas'', alguém se interessou tanto por Isabella que acabou levando o disco ao produtor Aloysio Reis, ex-EMi, dono da Green Songs. Pronto: Isabella caia nas graças de alguém expressivo do mundo fonográfico. E deu o que deu.
O disco, produzido por Torquato Mariano, funde harmoniosamente eletrônico e acústico. Treze faixas, das quais quais 11 assinadas apenas Isabella Taviani. Abre com um sonoro ''cale a boca'', verso inicial de ''O Farol'', canção de amor superado aos trancos e destilado em versos fatais: ''Cale essa tua boca rasa!/ De onde nunca sai nada que me valha/ Cale a boca de qualquer maneira/ Deixa ela costurada/ Só assim eu não tenho que ouvir o seu 'nada'''.
É só o começo de um disco confessional que traz outras belas canções como ''Recado ao Tempo'', com leve toque flamenco para narrar o arrependimento de alguém que disse adeus. Não dá para se desviar dos versos melancólicos de ''Canção Para um Grande Amor''.
No entanto, a intérprete rascante se revela no tango ''Ivete'', mulher de cabaré que, ao contrário das colegas de trabalho, não esquece seu homem.''Eu diria que 80 por cento do que está no disco, eu passei. Não precisei fantasiar: fui buscar as emoções dentro de mim'', frisa. Ou seja, na alegria ou na tristeza, o violão está ao lado numa dessas surgiu ''Foto Polaroid'', executada em algumas rádios cariocas.
Das canções não assinadas por Isabella, ''Acontecimento'', de Hyldon, e ''Momentos'', faixa que puxou o segundo disco de Joanna, em 81. Nada de mais, vale pelo resgate do hit de uma das mais populares artistas brasileiras. ''Ela, assim como Alcione, Clara Nunes, Fafá de Belém, Simone, entre outras, são cantoras da minha época de adolescência que quase nunca são reverenciadas'', explica.
Uma canção que Isabella Taviani extraiu do disco foi ''Meu Espelho'' que deveria ter sido gravada juntamente com Maria Bethânia. Estava tudo certo, mas a agenda da intérprete baiana apertou na última hora. ''Vou aguardar o momento certo porque gravar essa música com a Bethânia é um projeto de vida'', avisa.
À primeira ouvida, é possível reconhecer algo de Ana Carolina (''Foto Polaroid'') e outras confluências como a levada vocal de Adriana Calcanhotto (''Recado ao Tempo''), de Leila Pinheiro (''Samba de Verdade'') ou até mesmo Cida Moreira (''Ivete''). Aos poucos as associações desaparecem assim foi com Ana Carolina/ Zélia Duncan-Cássia Eller; Chico César/Caetano Veloso e, mais recentemente, Jorge Vercilo, para alguns, uma fotocópia de Djavan.
Mas o nome dela é Isabella. Agradável surpresa vinda através de um disco acessível sem ser popularesco, cujo ponto dos mais significativos é a maneira com que Isabella Taviani devolve, em forma de música, situações sentimentais comum a todos. Nem todos, entretanto, conseguem expor troféus e feridas sem cair em clichês, chavões e lugares-comuns. Isabella sim. Dependendo da faixa é possível rememorar lugares, situações, frases, momentos bons e momentos maus. Essa moça toca fundo!

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