DISCO
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 08 de março de 2004
Lauro Lisboa Garcia<br> Agência Estado 
Assim como a voz enfumaçada e o hábito de andar descalça, a música de Cesaria Evora não muda muito, disco após disco. Não precisa. Em ''Voz d'Amor'' (BMG), o novo CD da cantora, vencedor do Grammy deste ano e recém-lançado no Brasil, o misto de gêneros tradicionais do Cabo Verde com sutis associações a ritmos de Cuba, Portugal e Brasil continua encantador. Quase como uma regra, alternam-se as mornas, de ritmo dolente, e as coladeras, mais aceleradas e menos tristes. As referências comuns, que unem sua música àqueles outros países banhados pelo Oceano Atlântico, são o tipo de instrumentação e as sensações de saudade e melancolia.
O amor, o mar e o afeto pela terra natal são temas recorrentes em seus discos, em que não podem faltar composições de seu tio B. Leza. É dele a tocante faixa de abertura do CD, ''Isolada'', uma morna bem próxima do choro-canção brasileiro. Para aumentar a semelhança, a canção conta com o bandolim do carioca Hamilton de Holanda em atuação impecável, como de resto todos os instrumentistas que participam do disco. Entre eles, o africano Regis Gizavo, de Madagáscar, tocando acordeon, e percussionistas cubanos. ''Só fui conhecer Hamilton depois que o disco estava pronto'', conta Cesaria. ''Queria ter um bandolim nessa música e ele foi indicado pelo meu produtor. Gostei muito do resultado.''
Autores antigos e novos, como Luis Morais, grande expoente da moderna música cabo-verdiana, alternam-se com uma canção de cada um. Cesaria repete apenas Teofilo Chantre, que assina três faixas, uma delas sozinho. ''É um dos compositores que mais admiro'', diz a cantora. Conterrâneo dela, Chantre é responsável por alguns de seus grandes sucessos, como Ausência, desde que Cesaria colocou Cabo Verde no mapa do mundo ao lançar o histórico álbum ''Miss Perfumado'', em 1992. De lá para cá ela se aprimora a cada novo trabalho.
Invariavelmente acústicos, os arranjos são cada vez mais lapidados, o que fazem envergonhar os teclados eletrônicos de timbres cafonas, presentes nos primeiros álbuns. Piano, cavaquinho, violões, saxofone, acordeon, violino, bandolim, clarinete, contrabaixo, percussão compõem uma gama rica de detalhes que embelezam ainda mais as já sublimes canções. ''Jardim Prometido'', assinada por Chantre e mais seis parceiros, está entre as melhores, ao lado de ''Isolada'' e a faixa-título, também de Chantre, que encerra o CD, um dos melhores de sua carreira. Pouco importa que não se compreenda claramente as letras, cantadas num misto de português e crioulo e traduzidas para o francês no encarte ao lado dos versos originais. ''Escolho canções pela riqueza das melodias e por letras que tenham o que dizer. Sei que na maioria das vezes ninguém entende o significado das palavras, mas o que importa é o sentimento'', ressalta.
A voz continua a mesma. ''Só um pouco mais velha'', brinca a cantora. ''Nunca fiz nem faço nenhum exercício vocal, não tenho nenhum cuidado especial com a garganta.'' E como consegue manter a harmonia e a firmeza? A resposta também é a mesma de sempre: ''Continuo fumando sem parar.'' É natural que às vezes o canto curtido por tanto tabaco e álcool (que ela afirmou ter abandonado há mais de dois anos) denote cansaço e menos empenho do que há dez anos. Ela, no entanto, refuta a insinuação de que esteja usando mais a técnica e menos a emoção. ''Nunca me preocupei com técnica. Meu canto sempre fluiu naturalmente e é o que continuo fazendo'', explica.
É coerente com a tranquilidade com que sua carreira se desenvolveu. Por isso ela não se altera com o fato de finalmente ter ganhado o Grammy em fevereiro deste ano por Voz d'Amor como melhor disco de World Music , depois de seis indicações para o prêmio na mesma categoria. ''Só acho que isso vai contribuir para chamar um pouco mais de atenção sobre meu nome e a minha música. Mas pessoalmente não me impressiona um prêmio desses'', revela.
Discordando dela num aspecto, os conterrâneos festejaram a vitória no Grammy e o governo do país propôs até uma homenagem especial. Descalça com os pés no mar, ela nem quer saber que raio é essa tal de world music que os americanos inventaram de rotular. ''Não sei o que querem dizer. Isso nunca me interessou.''


