DISCO - Wisnik distribui 'Pérolas aos Poucos'
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sábado, 06 de setembro de 2003
Adriana Del Ré<br> Agência Estado 
O disco ''Pérolas aos Poucos'' é um bom pretexto para o compositor paulista Zé Miguel Wisnik reencontrar suas origens como instrumentista. Neste terceiro trabalho-solo, ele queria preferencialmente destacar o formato minimalista de voz e piano, instrumento que toca desde os sete anos de idade e lhe apontou uma carreira promissora como pianista clássico na juventude. Wisnik chegou a fazer recitais e a se apresentar com a Orquestra Municipal de São Paulo, mas as oportunidades se multiplicaram à sua frente e ele optou por outros caminhos. Estudou Letras na Universidade de São Paulo onde há 30 anos dá aula de literatura e começou a compor. Mas o piano continuou a exercer importância em sua formação. O novo álbum é a prova disso. ''O piano é meu instrumento de origem, no qual eu componho'', diz.
''Quis fazer um disco em que, pela primeira vez, o piano mandasse. Nos meus trabalhos anteriores, ele era um acessório'', completa ele. Agora, os acessórios são outros instrumentos, como teclado, baixo acústico, violão e elementos de percussão. Como o piano é uma espécie em extinção, na opinião de Wisnik, o músico buscou um local que lhe oferecesse boa estrutura para gravação. Encontrou um lugar ideal, mas a quilômetros de São Paulo: o Teatro Castro Alves, na Bahia.
Sua ida à capital baiana, na realidade, teve um primeiro motivo. Wisnik foi ao encontro do produtor paulista Alê Siqueira, que já trabalhou com Arnaldo Antunes, Elza Soares, Margareth Menezes e o próprio Wisnik, em seu segundo CD, ''São Paulo Rio'', de 2000. Siqueira foi levado à Bahia por Arnaldo Antunes. Carlinhos Brown também gostou dele e o produtor acabou morando por lá durante uma temporada. ''Fui gravar na Bahia por um motivo paulista'', brinca o compositor.
''Pérolas aos Poucos'' é acústico e, mais uma vez, um trabalho extremamente autoral. Mas está longe de ser solitário. Autor já defendido por importantes intérpretes, como Alaíde Costa, Eliette Negreiros, Cyda Moreira, Suzana Salles, Ná Ozzetti, Jussara Silveira, entre outras, Zé Miguel Wisnik se cercou de algumas delas neste trabalho. Ná Ozzetti aparece nas músicas ''Primavera'' (Wisnik), e ''Sem Receita'' (de Wisnik e Alice Ruiz), e Jussara Silveira, em ''Baião de Quatro Toques'', de Wisnik e Luiz Tatit. ''Tenho uma ligação forte com Ná Ozzetti e Jussara Silveira. Eu e a Ná fizemos shows juntos e ela participou de meu primeiro disco. Já a Jussara participou muito do segundo trabalho e das minhas apresentações.''
No show de lançamento de ''Pérolas aos Poucos'', que o compositor fará em São Paulo, na terça e quarta, às 21 horas, no Sesc Vila Mariana, as duas cantoras estarão presentes. ''Elas nunca cantaram juntas e estou orgulhoso de ser responsável por isso.'' Para a tocante ''DNA'', escrita para a filha que ele só veio a conhecer quando ela tinha 17 anos, o músico chamou a cantora Luciana Alves, que já havia interpretado a canção em um festival de música. Com Elza Soares, o músico teve maior aproximação no período de gravação do recente disco da cantora, ''Do Cóccix até o Pescoço'', do qual ele foi diretor artístico. O que rendeu uma participação vigorosa de Elza na faixa ''Presente'' (de Wisnik).
O álbum conta ainda com uma voz masculina em ''Assum Branco'' (de Wisnik): a de Caetano Veloso. ''Com Caetano, são décadas de amizade, mas nunca tínhamos feito uma aproximação musical.''
Wisnik também canta e bem em todo seu disco. Para ele, o ato de cantar já lhe causou insegurança. Paranóia da voz desaparecer no meio de uma apresentação e coisas do gênero. ''Cantar é a única coisa na vida que eu fiz sem ter me preparado longamente. O restante só fiz depois de dominar muito'', justifica. ''Acho que é uma exigência. Todas as atividades que eu tenho são preparadas durante muito tempo.''
Mesmo receoso, o compositor persistiu cantando e venceu seus fantasmas, pois sustenta a tese de que a voz do compositor dá identidade, indicações de suas reais intenções à sua música. ''Há compositores que cantam, como Baden Powell, Carlos Lyra e Tom Jobim, que não são cantores e, no entanto, você não pode prescindir de ouvi-los.''


