Num depoimento para a série de televisão que documenta sua obra, Chico Buarque diz que a permanência e a crescente busca pelo legado de Tom Jobim (1927-1994) é como ''uma reação à vulgaridade'' que vigora hoje. Naturalmente a observação pode se estender à poesia de Vinicius de Moraes (1913-1980), sozinha ou aquecida pela chama imortal das melodias de Jobim. No encalço do filme 'Vinícius', récem-lançado, o CD com a trilha sonora gravada pela Biscoito Fino, traz várias gerações de cantores e instrumentistas revisitando o cancioneiro clássico do compositor, alternando faixas com depoimentos e leituras de poemas. Dos que partilharam a criação artística com Vinicius, ninguém melhor do que Chico e Maria Bethânia para traduzi-lo com afeição tocante. ''Tinha um momento muito especial quando ele tocava no violão 'Poema dos Olhos da Amada', ficava um silêncio. E ele cantava... Aquilo me causava uma impressão muito forte. Entendi o que era um poeta'', lembra Chico, dando a deixa para Caetano Veloso entoar a canção. Já Bethânia se entrega ao ''Soneto do Amor Total'' e a outra obra-prima, ''O Que Tinha de Ser''.
Os parceiros Carlos Lyra, Francis Hime e Toquinho reafirmam sua intensa musicalidade, respectivamente nos clássicos ''Tarde em Itapoã'', ''Sem Mais Adeus'' e ''Você e Eu''. Além de Jobim, as parcerias de Vinicius mais contempladas no CD são com Lyra e com Baden Powell e seus históricos afro-sambas. Edu Lobo se encarrega de levar a uma nova dimensão uma dessas obras de referência, ''Berimbau'', e Gilberto Gil embala ''Formosa'' de suingue. De geração intermediária, Olivia Byington derrama melancolia em ''Modinha''.
Entre os mais jovens, surpreende Adriana Calcanhotto em ''Eu Sei Que Vou te Amar'', de tal maneira que a princípio tem-se a impressão de quem canta é Zizi Possi. Mônica Salmaso, como não poderia deixar de ser, afina com a tristeza de Vinicius em ''Insensatez'' e ''Canto Triste'', outra preciosidade em parceria com Jobim e Edu Lobo, respectivamente. Na outra ponta surge Martnália, solar e cheia de malemolência no samba ''Sei lá... A Vida Tem Sempre Razão.''
O violonista Yamandú Costa evidencia o grande melodista, na instrumental ''Valsa de Eurídice.'' Dentre tantas visões peculiares do múltiplo Vinicius, a mais curiosa do CD é a versão de Sérgio Cassiano, do grupo pernambucano Mestre Ambrósio, para a bem-humorada ''Pau-de-Arara'' (Comedor de Gilete), com a percussão de Naná Vasconcellos.
Independentemente de alguma irregularidade no resultado (Renato Braz cantando ''Se Todos Fossem Iguais a Você'' e ''Por Toda a Minha Vida'', e Zeca Pagodinho em ''Pra Que Chorar'' não acrescentam nada ao já feito), é mais um atestado de sua longevidade. Além disso, reflete a própria generosidade do ''poetão'', no seu jeito terno de absorver a beleza que o cercava.

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