DISCO - Tons psicodélicos
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segunda-feira, 03 de abril de 2006
Lauro Lisboa Garcia<br> Agência Estado 
Em vez de sépia, novas cores e tons. Quem acompanha a carreira do Belle & Sebastian já cansou de notar as inúmeras referências do rock dos anos 60 e 70 em sua música. No sétimo álbum do, o ótimo ''The Life Pursuit'' (Trama), porém, há algo que o septeto escocês ainda não havia absorvido com tanta intensidade: as cores da psicodelia. Oscilando de alvos sonoros desde a soturna trilha do filme ''Storytelling'' (2002), o grupo não se furtou a continuar experimentando. Agora acerta na mistura de rock, folk,eletro, funk/soul, blues e nos tons psicodélicos. É desde já um dos melhores álbuns do ano.
Como se pode observar a partir do nome do disco, que significa ''busca pela vida'', as intenções são bem diretas. Não importa que temas banais, como ''Funny Little Frog'', o primeiro single extraído do álbum, predominem nas letras (isto não é novidade). Se eles mantêm o frescor adolescente, também exibem sinais de maturidade, como em ''Dress up in You'' e na contemplativa ''Mornington Crescent'', balada que encerra o disco em clima de fim de festa. Apesar da predominância de ritmos dançantes, há espaço razoável para o folk intimista que dá a tônica do estilo do Belle & Sebastian.
''The Blues Are Sttil Blue'' é uma tentativa bem-sucedida de fazer blues à moda deles: parece até Rolling Stones no começo da carreira, ou algo equivalente. ''Another Sunny Day'' fala de dias comuns, com encontros no jardim, flores, fotos... É uma das mais ''fofas'' e mais belle-&-sebastianas do disco, meio mod meio bubblegum anos 60.
''The Life Pursuit'' foi produzido por Tony Hoffer, mais conhecido por seus trabalhos com o duo francês Air (''10,000 Hz Legend''), o grupo Supergrass (''Life on Other Planets'') e o cantor Beck (''Guero''), todos com resultados positivamente surpreendentes. Daí talvez a diversidade que faz do novo ''Belle & Sebastian'' uma agradável (con)seqüência de ''Dear Catastrophe Waitress'' (2003), até então o disco mais ensolarado da banda.
Como o álbum antecessor, considerado por muitos como marco da retomada criativa da banda, este é capaz de manter o suspense da primeira à última faixa, porque a cada passagem há uma novidade, um detalhe surpreendente. Com textura eletrônica que induz a uma suposta incursão pelo pop de toques jazzísticos, como De-Phazz ou St.Germain, ''Act of the Apostle'' abre o CD dando uma falsa pista do que vem pela frente.
Na faixa seguinte, ''Another Sunny Day'', a guitarrinha característica de Stuart Murdoch, bem como seu vocal, e a pulsação da bateria de Richard Colburn não deixam dúvida: os fãs antigos podem respirar sem nostalgia. A abertura de ''White Collar Boy'', também por causa da eletrônica, faz voltar a impressão parecida com a da primeira. Com um pé no eletro, já houve quem a comparasse a ''My Uptight Life,'' do conterrâneo Teenage Fanclub, mas ela igualmente faria par adequado se mixada com ''Panic'', dos Smiths, numa pista de dança.
O curioso é que mesmo colocando as antenas de fora da toca, o som do grupo não perdeu as características fundamentais, o que mantém a ligação com os princípios básicos. Status Quo, The Monkees, Giorgio Moroder, R.E.M., T.Rex, clássicos da Motown, Beatles - quem quiser tem uma infinidade de referências para apontar.
Já se comentou muito sobre a imitação do vocal de Michael Stipe em ''To Be Myself Completely'', mas a música toda parece R.E.M., o que absolutamente não soa depreciativo. ''Sukie in the Graveyard'', com seu tecladinho vintage, tem acento de soul music, que ressurge em ''Song for Sunshine'' e ''For the Price of a Cup of Tea'' (que tem inspiração nos primórdios do Jackson 5 ou similar), em diferentes abordagens.
''The Life Pursuit'' marca os dez anos de carreira do Belle & Sebastian, que se formou na cidade de Glasgow, Escócia, e só trocou dois integrantes desde então. Liderado pelo guitarrista, vocalista e tecladista Stuart Murdoch, o grupo perdeu Isobel Campbell (vocais e cello), dois anos depois de Stuart David ter deixado a banda.
Em 2001, ainda com Isobel, eles se apresentaram em São Paulo no Free Jazz Festival, incluindo no repertório uma versão de ''A Minha Menina'' (Jorge Ben) em arranjo idêntico ao gravado pelos Mutantes em 1968, outro sinal de seu interesse mais amplo pela música daquele período. O que ''The Life Pursuit'' sugere é que o grupo evoluiu experimentando caminhos novos, ainda que voltados para o passado, sem perder a identidade.


