DISCO - Todas as bossas de Zélia
PUBLICAÇÃO
sábado, 16 de julho de 2005
Liliana Onozato<br> Reportagem Local 
Todas as tendências que procedem do pop, rock, reggae e até mesmo um estilo retro-transgressor estão plenamente vivas no novo disco de Zélia Duncan. Distribuído pela Universal Music, ''Pré-Pós-Tudo-Bossa-Band'' é o resultado das viagens trilhadas pela cantora e compositora, em gêneros musicais diversificados, com seus timbres graves e espessos. O próprio título do disco, nome da primeira faixa, sugere a miscelânea da cantora sem preconceitos e com total ousadia.
O pano de fundo de suas canções continua sendo os sentimentos que transparecem em suas letras e interpretações. A versatilidade não se restringe ao estilo (in)definido por Zélia, mas também às parcerias heterogêneas, como Lenine (''Pré-Pós-Tudo-Bossa-Band''), Moska (''Carne e Osso''), Lulu Santos (''Quisera Eu''), Pedro Luis (''Braços Cruzados''), Mart'nália (''Benditas'') e até o compositor erudito Guerra-Peixe (''Diz nos meus Olhos- Inclemência''). Já tradicionalmente, Christian Oyens e Lucina seguem contribuindo para a produção bem elaborada nos trabalhos em conjunto.
Mais uma vez, Zélia Duncan demonstra que, em se tratando de música, não existe inacessibilidade. A seguir os principais trechos que a cantora e compositora concedeu por telefone à Folha2.
Foram quatro anos para fazer um disco só com canções inéditas. Por que todo esse tempo?
Eu estava fazendo muitas outras coisas que estão impressas nesse disco de alguma maneira. Eu fiquei muito feliz, primeiro pelo ''Sortimento'' ter durado quatro anos, e depois porque eu acho que os discos têm que durar mais. E a demanda para se fazer um disco é muito grande, por isso precisa durar mais. Eu fiquei muito feliz de ter feito um disco meu durar tanto. Fora isso eu gravei o DVD e também o ''Eu me Transformo em Outras'', que foi um projeto muito importante para mim. Então tudo isso se somou agora e engrossou o caldo do ''Pré-Pós-Tudo-Bossa-Band''.
Deu para comprovar em ''Pré-Pós-Tudo-Bossa-Band'' a facilidade que você tem em inaugurar parcerias. Como acontece isso? É por afinidade musical, pessoal, você procura?
(risos)É tudo isso. O Lenine, por exemplo, é meu vizinho,e participa do meu DVD, já cantamos um no show do outro. O Moska também é próximo, Pedro já toquei no Monobloco e a gente é amigo, Mart'nália virou uma irmã pra mim. A gente foi se aproximando por causa de afinidades musicais e pessoais e foi dando frutos, e nesse disco eu quis que aparecessem. No caso do Lulu foi diferente. Eu estava saindo do ''Eu me Transformo em Outras'' e já queria mudar. Mandei uma letra parar ele musicar e ele me mandou um samba. Então fiz um arranjo bem inesperado junto com o Fábio Luna e a Bia Paes Leme (musicista e arranjadora). Gosto muito da gravação, e ele ficou muito feliz. As parcerias é que foram dando cara ao disco e não o contrário. Não pensei em fazer um disco ''assim, assado''. Fui compondo ao longo do tempo, juntando as músicas e quando vi, aquelas músicas eram o que eu queria para o momento.
Guerra-Peixe é um compositor erudito, mas que estudou a fundo o folclore nordestino. Por que a escolha dele para uma parceria?
Pois é, foi mais uma maluquice que aconteceu na minha vida! Essa música caiu no meu colo. No ano passado uma pessoa me ligou e disse que estava fazendo um projeto com música eletrônica com obras do Guerra-Peixe com letras de vários artistas. Foi quando me mandaram ''Inclemência'', que eu nunca tinha ouvido. Coloquei a letra, o projeto aconteceu, acabou e pronto. Nem teve uma grande reverberação. Meses depois, na hora de recolher meu repertório, eu falei dessa música para a Bia Paes Leme e, por uma coincidência maluca, o mestrado dela era sobre o Guerra-Peixe. Eu disse que estava grilada de mexer nela, por ser justamente uma coisa muito grandiosa, achando que poderia ser até uma arrogância, sabe? Então, a Bia decidiu ouvir e ficou encantada com a letra e com a música, mostrou para outras pessoas que estão envolvidas com as obras do Guerra, e essas pessoas de alguma maneira me avalizaram. Eu me senti segura para gravar e fui me apaixonando cada vez mais pela música. Liguei para a herdeira dele, a Jane Guerra-Peixe que autorizou, que ficou feliz.
Dá para dizer que a sonoridade do disco está mais enxuta? Nos outros discos era notável uma levada mais folk e agora um estilo bem mais pop.
É...não sei se enxuta é a palavra. Talvez, em algumas faixas, você sinta isso sim. Mas se você reparar eu sempre gostei dos vazios nas músicas, sempre foi um pouco da minha marca. Se você, por exemplo, ouvir ''Não vá ainda'', é um bandolim e mais nada; uma coisa suave. A percussão só entra na segunda parte em alguns discos. Nesse disco, a coisa está tão variada que você até encontra faixas mais enxutas. São mais de 30 músicos tocando nesse disco, imagina? No ''Pré-Pós-Tudo...'' eu queria o peso, queria que a primeira faixa fosse mais pesada. Ela tem as guitarras, a percussão. Mas por exemplo, quando você vai para a ''Milágrimas'', é uma faixa quase totalmente espacial. Então eu gosto disso. Acho que também tem um lance enxuto, mas tem para todos os gostos.
O bandolim, que é quase uma constante nos seus disco, não esteve presente agora...
É engraçado como o bandolim virou uma marca registrada nossa, que eu adoro. Mas já no ''Sortimento'' não tinha nenhuma música com bandolim. As músicas de bandolim do nosso repertório, que são muito forte, elas foram compostas no próprio instrumento pelo Christian Oyens, então elas entravam naturalmente no disco com bandolim. Eu até cheguei a propor que ele compusesse alguma coisa com o instrumento, mas não rolou. Foi mesmo porque não aconteceu, só por isso.
Você tem tatuada no braço a frase ''Dor elegante'', que dá nome à décima faixa do disco...
Isso seria principalmente o desejo de cantar esses dois poetas incríveis que são Itamar Assumpção e Paulo Leminski. Essa música eu gravei com o Itamar no disco dele. Assim que acabou a gravação, ele disse para mim que tinha que ser comigo essa música. Era uma música muito importante para ele. No ano passado eu fiz shows com Naná Vasconcelos cantando só músicas do Itamar. Isso tudo me marcou muito profundamente, e quando veio a hora de fazer esse disco eu tive muita vontade de pôr essa música por todos os motivos do mundo; pelos motivos pessoais e pelo o que ela diz ; é uma poesia dura...E a tatuagem fiz em homenagem ao Itamar, antes de gravar o disco. Acho que na verdade eu tatuei isso na minha vida. E agora, mais uma vez, eu tatuo na minha discografia.
Você ganhou este ano o Prêmio Tim de Música como melhor cantora de Música Popular Brasileira e não de pop-rock. Como você explica isso?
(risos) Pois é.... Eu fiquei super feliz, porque quando comecei a cantar eu tinha 16 anos, e o que mais queria nessa vida era ser uma cantora brasileira. Então ganhar um prêmio de cantora de MPB é uma honra e é interessante porque eu já concorri a esse prêmio quando ele tinha até outros nome, umas seis ou sete vezes e nunca tinha ganho. Achei interessante porque o prêmio mais nobre é esse de MPB. O prêmio não muda a minha vida, mas é gostoso você se sentir prestigiado e ser reconhecido por um momento da sua vida. Claro que eu não sou a melhor cantora de música brasileira, mas é um momento meu que foi premiado, e isso é bonito.
Mas o título ''MPB'' não te incomoda um pouco?
Pelo contrário. Eu tenho muita honra de ser uma cantora brasileira e fico muito feliz com essa confusão, porque eu sempre concorri como pop-rock nesses prêmios, já na MTV eu concorro como MPB. Sempre houve uma indefinição que eu acho sempre muito bem-vinda. O que mais as pessoas adoram fazer com a gente na vida é rotular, carimbar nossa testa, aí estou sempre fazendo uma finta, um jogo de cintura que não conseguem dizer exatamente o que é.
O selo Duncan Discos seria mais direcionado para projetos pessoais, como foi o caso do ''Eu me Transformo em Outras''?
Na verdade eu não tenho uma filosofia para o Duncan não. Agora é que eu estou começando a brincar com isso. Eu era a única artista do selo, agora eu acabo de lançar um disco de Alzira Espíndola e Alice Ruiz. E estou muito feliz de ter podido viabilizar esse disco. É um trabalhoo totalmente independente, não tem distribuição ainda. Mas está sendo muito bem recebido. Outro dia me perguntaram se eu estava querendo descobrir novos talentos. Eu falei que não, que para entrar no meu selo tem que ser ''cinquentão''; a Alice eu gravei agora, e eu vou gravar a Lucina , minha parceira, que também já está na estrada há um tempão. Mas são coisas feitas principalmente de coração por querer que essas músicas existam de alguma maneira. Não há um desejo de encontrar um artista e ''estourar'' e ficar milionária, nada disso. É uma coisa musical, meio ideológica que eu não sei exatamente aonde vai.
Como foi ter encerrado a turnê do ''Sortimento Vivo'' em Londrina?
Nossa! Foi o último show da turnê e o primeiro que fiz em Londrina. Minha primeira lembrança é de cantar ''Alma'', que abriu o show, e eu não conseguia ouvir a bateria de tanto que as pessoas gritavam. Foi uma delícia isso. Tenho ótimas lembranças daí.
A turnê de lançamento do novo álbum vai incluir Londrina na rota
Infelizmente não, mas vou fazer de tudo para que aconteça o mais rápido possível


