DISCO - Toda 'pretinhosidade' de MART'NÁLIA
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sábado, 18 de fevereiro de 2006
Antônio Mariano Júnior<br> Reportagem Local 
A Zona Norte e Zona Sul carioca estão mais próximas geograficamente no novo disco da cantora, compositora e percussionista Mart'nália. Não se trata de um conceito, muito menos de forma de sintetizar o Rio de Janeiro através dos pólos. A artista vai e vem aos extremos com desembaraço de quem, além da paixão pela cidade que a atravessa, canta em qualquer canto conforme o repertório do quinto álbum de sua carreira, que sai pelo selo Quintada (com distribuição da gravadora Biscoito Fino) pertencente à cantora Maria bethânia. Que foi, aliás, quem sugeriu a Mart'nália poeticamente unir os dois universos através de ''Menino do Rio'' (Caetano Veloso) e ''Estácio, Holly Estácio'' (Luiz Melodia) interligadas por um breve ranger da cuíca. ''É o encontro da praia com o morro'', explica Mart'nália.
O projeto recebeu o nome de ''Menino do Rio''. Bethânia assinou a direção musical e fez valer seu ofício de executiva do disco dando palpites no repertório, modo de cantar e até mesmo na iluminação das fotos da capa. Incumbiu o maestro Jaime Alem, seu alter ego musical, de escrever os arranjos das 15 faixas, a grande maioria canções inéditas. ''Cê sabe, não é todo dia que tenho o luxo de ser dirigida por Bethânia. Ela me deixou à vontade e pediu apenas para sentir as músicas que iria cantar'', diz Mart'nália que, na ficha técnica, afirma que a intérprete baiana lhe ensinou a ver com outros olhos a própria ''espiritualidade musical''.
Por sua vez, o maestro Alem imprimiu ao álbum uma sonoridade requintada sem, em nenhum momento, engessar a musicalidade de Mart'nália e seu canto aberto, rascante, de timbre rouco e arrebatador. O violão se destaca, mas a percussão, exata ainda tem vez. Trata-se essencialmente de um disco de samba, mas não só. ''O samba está no meu DNA, mas minha formação musical não é só essa. Eu sempre vou cantar o que me vier à cabeça e da melhor forma possível'', avisa a filha de Martinho da Vila.
Para estofar ''Menino do Rio'', Mart'nália foi buscar canções de veterenos e/ou ícones do samba como Arlindo Cruz, Mombaça, Monsueto (esse tão mítico quando ancestral), Jorge Agrião, Nelson Ruffino e, claro, o velho e bom Martinho da Vila, só para citar alguns, colocados lado a lado com gente da nova geração como Moska, Leoni, Zélia Duncan e um certo Guilherme Arantes brilhantemente resgatado em ''Só Deus é quem Sabe'', registrada por Elis Regina, e agora relida com um certo baque jazzístico.
Dos sambas apresentados, um especial chama a atenção não só pela letra bem-humorada, mas principalmente a autora: Ana Carolina sim, ela mesma. ''É incrível, mas quando peço música as pessoas sempre me mandam samba. Esse da Ana fui buscar pessoalmente, não sem antes tomarmos umas cervejas e jogar buraco, que por sinal ela joga mal para c...'', diz Mart'nália com todo o suingue malandro carioca.
Do pai, a moça pinçou ''Nas Águas de Amaralina'' (em parceria com Nelson Ruffino), homenagem a Janaína, uma das designações de Iemanjá, divinidade do mar no candomblé. Bela e comovente ode. Mart'nália mostra sua diversidade musical até mesmo em território improváveis como em ''Essa mania'' (dela com Moska), a mais bonita faixa do disco e com insinuações radiofônicas. Os violões de Jaime Alem inclinam-se ao flamenco e, dedos ainda quentes, volta a tocar cordas certeiramente na faixa seguinte, ''Pára Comigo'' (em parceria com Paulinho Black) suave e sincopada canção da vertente soul music. O pop dá sinais também em ''Soneto do Teu Corpo'' (Moska-Leoni).
Se o samba do Rio está bem representado, é preciso reverenciar a terra de onde tudo veio: a Bahia, através do contagiante samba-de-roda ''Casa da Minha Comadre'' (Roque Ferreira- Jorge Agrião) duvido que alguém consiga ouvir apenas uma vez. A música precede ''São Sebastião'' (Totonho Vileroy), exaltação explícita ao Rio de Janeiro em que a ''comadre'' Maria Bethânia derrama-se em emoção ao declamar fragmentos de ''Cartão Postal'', poema de Vinicius de Moraes.
Agora, alguém sabe o que é ''pretinhosidade''? Não é preciso fazer muito esforço para se entender o título da canção feita por Mart'nália e Mombaça. ''Eu que inventei, é uma misturada de tudo. Mas seria algo que mistura sensualidade com o brilho do ouro'', explica. Então tá! Pensando bem, pretinhosidade é o que Mart'nália tem de sobra.
Impossível mesmo é não se render ao cantar da moça. Ela parece não ter noção da força que provém de suas cordas vocais se tem, faz fita. Diz que segue apenas o conselho de seu padrinho musical, Caetano Veloso, diretor de ''Pé do Meu Samba'' (2003) . ''Ele me disse uma vez: cante como você gosta'', informa ela que, agora, também caiu nas graças da ilustre filha de Dona Canô. ''Ora, me deram colo e eu deitei. Até os Veloso não famosos já me adotaram'', diz ela entre risadas francas.
Aos 40 anos de idade e 20 de carreira o primeiro álbum é de 1986 , Mart'nália vem trilhando um caminho muito digno dentro da MPB. ''Menino do Rio'' é a prova inconteste. E ponto final.
Serviço
- Disco ''Menino do Rio'', disco de Mart'nália. Selo Quitanda, com distribuição da gravadora Biscoito Fino. Preço sugerido: R$ 28,90. O álbum também pode ser adquirido pelo site: www.biscoitofino.com.br


