DISCO - Saudade cantada em versos
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terça-feira, 22 de fevereiro de 2005
Antônio Mariano Júnior<br> Reportagem Local 
A saudade do amigo bateu forte. E virou disco. Além de comemorar os 40 anos de carreira, Maria Bethânia também rende tributo à primeira personalidade do meio artístico a sacar e respeitar a teatralidade que trazia na bagagem ao desembarcar no Rio de Janeiro, exatamente no dia 13 de fevereiro de 1965: Vinicius de Moraes (1913-1980). O título é incisivo: ''Que falta você me faz''. As fotos da capa e do encarte ilustram a cumplicidade instaurada desde que Bethânia veio da Bahia substituir Nara Leão, no mítico ''Teatro Opinião'' foi lá que ganhou as bênçãos do poeta.
Quinze faixas revisitam algumas fases de Vinicius Bossa Nova, pré e pós Bossa Nova, Afro Sambas, parcerias conhecidas e bissextas sem que Bethânia se ativesse necessariamente a nenhuma. ''Fui descobrindo, sob meu ponto de vista, os vários Vinicius que eu conheci. O garoto namorador, o poeta extraordinário com sua dor, o homem preocupado com o seu povo, achando beleza onde não se esperava que alguém visse, o homem generoso, pedindo a benção, se dizendo de maneira extraordinária o branco mais preto do Brasil'', analisa Bethânia.
As canções iluminam-se na voz da notória intérprete, que parece ter evocado a a memória afetiva como linha condutora do trabalho. O amor é exaltado Vinicius de Moraes, né?! sem premeditados conceitos isso certamente se fará no espetáculo ''Tempo Tempo Tempo Tempo'' (veja matéria nesta página).
''Que falta você me faz'' prioriza a parceria Tom-Vinicius, ícones maiores da Bossa Nova, movimento musical marcado pela contenção de voz e intimismo, ao contrário do que Bethânia vem preconizando em quatro décadas de trajetória. ''A Bossa Nova era antidrama, ou seja, anti-Maria Bethânia. Mas Vinicius, como poeta, e com seus parceiros, não fez necessariamente canções só pra esse tipo de comportamento'', defende-se.''Fui me guiando pela minha natureza de cantora. Eu não me modifiquei para cantar Vinicius, não faria sentido. Na explosão, na maneira de intepretar explosiva, também existe imensa doçura, dependendo da sensibilidade de quem ouve'', complementa.
O tributo a Vinicius isenta-se do convencionalismo e da burocraria que normalmente rondam projetos como esse. Tá certo, há canções manjadas como ''Tarde em Itapoã'' (numa levada de quase samba-reggae), ''Minha Namorada'' (languidamente recoberta por cordas) ou mesmo ''Gente Humilde'' (à base de piano e acordeon). Em contrapartida, há boas releituras de peças conhecidas como ''A Felicidade'' (um sinuoso canto desafia pequenos trechos da linha melódica), ''Samba da Bênção'' (sem os versos declamados na gravação original). São exemplos que fazem a diferença entre o que é cantar e expressar-se.
Dois bons resgastes: ''Bom Dia Tristeza'' (feita com Adoniran Barbosa), e ''O mais-que-perfeito'', curiosa e desconhecida parceria de Vinicius com Jards Macalé, vejam só! A sisudez tenta, mas se instaura em canções estofadas com cordas e a prova cabal disso é ''Mulher, Sempre Mulher'' quando violinos, violas e cellos fazem contraponto a uma frenética bateria de escola de samba.
''Que falta você me faz'' tem produção de Moogie Canazio e arranjos de base (e regência de cordas em algumas faixas) concebidos por Jaime Alem, maestro particular de Bethânia. Traz convidados especiais, a começar pelos filhos de Baden Powell, o violonista Marcel Powell e o pianista Philippe Baden Powell, além de Daniel Jobim, neto de Tom. ''Além de serem grandes músicos, são meninos muito lindos, bem educados, carinhosos e aprenderam com pai e avô a grandeza de Vinicius'', diz entusiasmada
Outros ilustres instrumentistas: os pianistas Maria João Pires (portuguesa) e o brasileiros Antonio Adolfo. O guitarrista Victor Biglione encerra o disco com Maria Bethânia cantando a única música não composta pelo homenageado: ''Nature Boy'', de Eden Ahbez. ''Era a música que Vinicius cantava, sempre antes de dormir'', revela.
Em português, Bethânia canta a versão feita por Caetano Veloso enquanto um antigo registro de voz contém Vinicius cantando os versos finais, em inglês (''The greatest thing you'll ever learn/ Is just to love and be loved in return''). ''Essa música sintetiza os sentimentos, a onda de Vinicius: nada é maior que dar amor e receber de volta amor. Escolhi essa música porque é como eu acho que ele sentia'', revela.
''Que falta você me faz'' é um disco muito bonito. Ponto.


