Uma deliciosa viagem que percorre a produção de três décadas dos compositores mangueirenses. Devani Ferreira, mais conhecido por Tantinho da Mangueira, acaba de lançar um CD duplo, através do Projeto Natura Musical. Sendo seu primeiro registro fonográfico, ''Tantinho, Memória em Verde e Rosa'' desfila músicas inéditas dando voz também a autores desconhecidos, mas de fundamental importância para a história de Mangueira .
O pontapé inicial para desenvolver um trabalho com sambas do morro surgiu em 2002. Em conversa descontraída com antigos moradores, foi-se moldando um repertório calcado no fruto da vivência dessas figuras, surgindo, desse modo, a perfeita recriação de um passado verde e rosa . No rol de compositores conhecidos que povoavam a infância de Tantinho, e agora ressurgem em seu CD, há Geraldo Pereira, Nelson Sargento, Xangô, Noel Rosa, Ismael Silva e, claro, Cartola.
Pensando em um futuro próximo, o compositor revela que pretende dar continuidade à carreira musical, já que ''muita coisa boa ficou de fora e a maior parte do acervo é inédito''. Nas 32 faixas, Tantinho deixou transparecer suas lembranças vivas e muita paixão, que aliadas a sua voz grave, resultaram nessa sincopada crônica musical. A seguir, os principais trechos da entrevista que o cantor e compositor concedeu à Folha2.
Comente a respeito da seleção do repertório dos dois CDs. Foi difícil escolher algumas entre tantas composições maravilhosas?
Foi difícil, eram mais de 150 músicas. Pegamos os sambas e mesclamos aqueles que falam um pouco de amor, sambas românticos, alguns irônicos, aqueles que têm uma forte identidade com o Morro da Mangueira, alguns sambas de escolas. Num sábado, nós nos reunimos com o pessoal da comunidade, aqueles que são muito envolvidos com a escola de samba da mangueira, fizemos uma feijoada, bebemos cerveja, pegamos os gravadores para captar todas aquelas sugestões do pessoal da comunidade, e assim saiu o CD duplo. Posso dizer que alguns membros da comunidade têm uma parcela de responsabilidade na escolha das músicas que compõem o CD.
Com quantos anos você está? E a sua relação com a Mangueira atual?
Hoje eu estou com 60 anos e a minha relação com a Mangueira é marcada por muito amor, dedicação, algumas discórdias também - como na vida, em toda paixão há discordâncias. Eu fui, durante 47 anos, compositor de ala da Mangueira, e eu já somos 54 anos de muita história boa, muita paixão. Em 1977 o samba enredo escolhido para desfilar na Marquês de Sapucaí pela Mangueira foi de minha autoria, então você imagina, aquele ano foi um ano de muita satisfação pessoal, foi lindo. Embora hoje eu não faça mais parte da Mangueira, como compositor, eu participo da preparação das alas que compõem e no dia do desfile eu as organizo para que tudo saia conforme o planejado.
Como foi para você ter convivido - e ainda conviver - com grandes nomes do samba? Você chegou a ser avaliado por Cartola, a cantar ao lado de Jamelão...
Quando eu era pequeno, o Cartola nos reprimia muito, porque nós aprontávamos muito na comunidade, coisa de moleque. Ele era um cara muito sério, gostava das coisas tudo muito certas. Mas depois, mais tarde, nós fomos nos conhecendo melhor, e a convivência melhorando. Ele teve uma participação enorme em 1977, quando o meu samba enredo foi escolhido para o Carnaval daquele ano. Com o Jamelão, eu tenho muita amizade e o perturbo muito com brincadeiras, encho o saco, tudo para descontrair. O pessoal costuma dizer que eu sou o único da comunidade que consegue tirar o Jamelão do sério. Quando eu tinha 12 anos, eu já tocava com ele, e isso tem uma importância enorme. Nós puxávamos samba juntos, e ele achava que eu cantava bem.
Você acha que o carnaval brasileiro foi perdendo um pouco da magia com o passar das décadas ou só veio a acrescentar?
O carnaval perdeu um pouco do encanto, do romantismo, não é mais como na minha época. Hoje é uma disputa acirrada, dentro e fora, antes era amistosa. Nós, compositores, tínhamos uma relação de respeito e de muita amizade com outros grandes compositores das Escolas concorrentes. Por exemplo, até hoje eu mantenho amizade com muitos desses, como o Marquinhos Osvaldo Cruz, grande compositor da Portela. Antigamente, o carnaval girava em torno da diversão, do prazer, do 'fazer em pró da Escola', da comunidade, e hoje mudou muito o conceito do 'fazer carnaval'. Infelizmente o carnaval visa muito ao comércio, e a gente encontra grandes sambistas brigando entre si por ser de Escolas diferentes. Na minha época, todos da comunidade giravam em torno da harmonia, do respeito, era muito gostoso.

Serviço:
- Disco ''Tantinho, Memória em Verde e Rosa'' , Projeto Natura Musical. Preço médio sugerido: R$ 35,00. O disco pode ser adquirido através do site www.natura.com.br

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