Quase 40 anos depois de gravada, chega às lojas na semana que vem uma ''nova'' música de Elvis Presley (1935-1977). Jamais lançada em disco, ''I'm a Roustabout'' é uma das duas faixas-bônus do disco ''Elvis 2nd to None'' (BMG), e foi gravada originalmente para o filme ''Carrossel de Emoções'' (Roustabout), dirigido por John Rich em 1964. O filme era estrelado por Elvis e por Barbara Stanwyck e tinha uma Raquel Welch, estreante no cinema, no elenco de apoio.
A composição de ''I'm a Roustabout'' é de Winfield Scott e Otis Blackwell, mas a música nunca foi usada, tendo sido rejeitada pelo produtor do filme, Hal Wallis. Ela ficou esquecida no porão da casa do compositor Winfield Scott, que mencionou a existência de uma cópia de acetato no início deste ano, em entrevista a um jornalista de Nova Jersey.
O repórter, que produzia material sobre Elvis, procurou o pesquisador Ernst Mikael Jorgensen, que o alertou sobre a importância daquela gravação. O pesquisador foi a Scott, que fuçou e encontrou o material original no seu porão. Quase tinha jogado fora a fita. Recuperada, ela vem à tona agora.
Esse atrativo extra tende a tornar o disco ''Elvis 2nd to None'' num dos hits das árvores de Natal. No ano passado, o álbum ''Elvis 30 #1 Hits'', também da BMG, levou o Rei do Rock a vender 9 milhões de discos pelo mundo (250 mil no Brasil). Outra das atrações da nova coletânea de Elvis é a faixa ''Rubberneckin''', remixada pelo DJ e produtor Paul Oakenfold, que já toca uma barbaridade nas rádios do País.
''I'm a Roustabout'', além de tudo, é uma delícia de canção. Roustabout é ''trabalhador braçal'', ou peão, em nossa língua. Nos vocais de apoio, está o grupo The Jordanaires. Tem eletricidade, tem Elvis no auge, botando fogo no celeiro com um rock'n'-roll dos mais básicos. Winfield Scott conta que diversos compositores foram contatados para fazer uma música para o filme, mas o produtor Hal Wallis implicou com uma frase da letra, na qual Elvis diz que quer ''enfiar aquilo'' no ouvido do seu patrão.
A letra de fato é incisiva, quase um hino dedicado à luta de classes (É inacreditável: o topete de Elvis já foi quase comunista). ''Ordens o dia inteiro e metade da noite para o patrão/ O cara não quer ver um minuto perdido/ ''Coloque o fardo aqui, nessa pilha/ Melhor ainda: ali não, aqui''/ Eu quero é arrancar isso e enfiar no seu ouvido/ Mas é ruim demais, eu não posso ficar doido/Porque eu sou um peão de obra.''
Mas ''I'm a Roustabout'' não é a única preciosidade do disco. As 30 faixas do álbum trazem o Elvis negro e o Elvis caipira branco, o hillbilly de Tupelo. Comparecem também o Elvis baladeiro e o Elvis infernal, de levantar até árvore petrificada.
Ele é um negro de coral evangélico cantando ''That's All Right'', do bluesman Arthur Crudup, a faixa que abre o disco, gravada ainda no remoto ano de 1954. Elvis começava a fundir gêneros que só se roçavam nas feiras agropecuárias, como o R&B e o country, o pop e o rock'n'-roll, os sons caribenhos e os spirituals afro-americanos.
''Elvis 2nd to None'' cobre o período elvisiano que vai de 1954 a 1976. Traz as ultraconhecidas ''Always on My Mind'' (1972) e ''Blue Suede Shoes'' (em versão de 1956). Traz também curiosidades geniais, como ''Bossa Nova Baby'', feita para o filme ''O Seresteiro de Acapulco'', com o apoio vocal de dois grupos, The Amigos e The Jordanaires.

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