Assim, se for para etiquetar sem maiores detalhes, o segundo disco do cantor e compositor Bena Lobo, irá direto para a seção pop. E lá ficará junto com outros tanto títulos do gênero à espera de comprador. O repertório abarca funk, baião, balada romântica e coisa e tal, tudo revestido por camadas de instrumentação acústica e eletrônica. Agora, se algum ouvinte mais exigente fizer uma leitura ou audição atenta, certamente irá perceber que a maioria das 12 faixas de ''Sábado'' (Lobo Music, em parceria com a Distribuidora Independente, atrelada à gravadora Trama) foi configurada com harmonias e frases musicais bem elaboradas algo que muitos hitmakers de plantão ignoram.
Bernardo, ou melhor, Bena Lobo, 33 anos, ainda está esboçando sua identidade artística sem temer as fortes vibrações provenientes da genialidade do pai, Edu Lobo. A nobreza musical do moço é reforçada pela musicalidades da mãe, a cantora e excelente violonista Wanda Sá, e do avô, o ilustre compositor Fernando Lobo. ''Isso traz muita responsabilidade, mas eu quero criar meu próprio caminho'', diz Bena Lobo.
O passo mais recente do cantor e compositor pode e deve ser conferido em ''Sábado'', disco autoral com o qual apresenta seu parecer sobre a música brasileira contemporânea e não pop simplesmente. É um bom trabalho! Há canções com insinuações radiofônicas, mas nenhuma se revela facilmente aos ouvidos a faixa-título se bem divulgada pode até ganhar notoriedade, ainda contando com a participação do incensado Seu Jorge, também co-autor.
Metais e programações eletrônicas convivem parcimoniosamente. Não há excessos. Dosagem exata. O álbum abre com a deliciosa ''Funk Maluco'', uma referência a ''Nega Maluca'', clássico do avô, Fernando Lobo. Bena sabe fazer canções e letras acessíveis dançantes ou contemplativas , mas são em faixas como ''Amor Seguro'' (baião com participação de Lenine) ou ''Espelho da Noite'' (parceria com o grande Paulo César Pinheiro) que demonstra o quanto sua musicalidade é, de fato, refinada em texturas e cores harmônicas.
Bena tem voz agradável e eficiente. Consegue ele dar uma releitura e menos pomposa a ''Imagem e Semelhança'', que Milton Nascimento gravou originalmente no disco ''Pietá'' (2003) eis a primeira parceria dos dois, juntamente com Kiko Constantino. Há, no entanto, um certo lugar-comum. Está em ''Sangue de Índio'', que encerra o disco, por mais reverências que faça a ídolos inconteste da MPB o estofo sonoro bacaninha, mas a letra peca por ''lambidas'' excessivas ao Rio de Janeiro.
Detalhes. ''Sábado'', que começou a ser gerado em 2003 e concluído dois anos depois não sem passar por alguns estúdios é um vôo livre de Bena Lobos. Que demonstra bastante vigorpara alçar vôos cada vez mais altos e estáveis. A seguir, os principais trechos da entrevista que o cantor e compositor concedeu à Folha2.

''Sábado'' é um disco que passou por alguns estúdios até ficar pronto. Você tinha o conceito da textura, do estofo ou isso foi se desenhando no percurso?
A gente fez uma pré-produção quando todo o conceito do disco foi pensado. Eu já tinha as músicas compostas e, a partir disso, fomos criando os arranjos e o que a gente queria do disco. Então, chegamos ao estúdio, com muita coisa resolvida. Por isso foi muito rápido o processo de gravação. O que demorou foi a trajetória para se chegar ao disco.

Em relação ao primeiro disco, que paralelo você faz? Avançou em alguma coisa?
Eu acho que sim. Houve um amadurecimento como compositor, uma evolução como cantor também. E uma maior identidade porque esse disco é mais minha cara. O primeiro tinha mais influências do que recebi do Edu Lobo, Chico Buarque, do Milton Nascimento, que até estão presentes no álbum. Eu estava buscando uma identidade e nesse, se não encontrei, estou mais próximo de encontrar.

Nesse disco você apontaria onde há influências diretas do seu pai, Edu?
Nas harmonias, com certeza, e acho que em algumas melodias. ''Espelho da Noite'', uma parceria com Paulo César Pinheiro. E meu pai vem também no baião; vem dele, do meu avô, da ligação com o Nordeste.

Aliás, em ''Funk Maluco'' você está parafraseando seu avô, que fez ''Nega Maluca'', um clássico da MPB, não?
Exatamente. E parafraseando meu pai também, que fez uma parceria com Chico Buarque na música ''Nego Maluco''...

É a terceria geração da ''Nega Maluca'', digamos...
Exatamente. Tanto que abro o show com ''Nega Maluca'' em que faço a intercessão com ''Funk Maluco''.

Como cantor e compositor você tem uma meta, um espaço a ser consquitado ou fica por conta do destino?
Acho que fica por conta do destino sim. Mas o principal é a verdade do meu trabalho, a autoridade que vou ter sobre meu trabalho e esperar o que vai resultar. Quero encontrar meu espaço, mostrar minha música pelo Brasil, pelo mundo, enfim não tem muito que fazer planos... É meio que destino sim.

Quando ou em qual circunstância você decidiu que iria se formatar na música profissionalmente?
Eu me lembro que foi um período de entressafra de teatro e meu pai me chamou para ir com ele. Fui trabalhar na produção. Foi uma porrada na cabeça essa turnê, em 1992, quando estava na dúvida... Foram shows lindos, lotados e ali percebi que a música era a coisa mais forte dentro de mim. E disse: 'Tem que ser agora'. Tinha 20 anos e foi meu ponto inicial. E daí comecei estudar, veio a primeira gravação e a constatação de que o ''bichinho da música'' havia pegado mesmo.

A primeira vez que eu o ouvi foi no songbook do seu pai...
Com ''Cordão da Saideira'' foi a primeira gravação profissional que fiz.

Ser filho do Edu e da Wanda Sá, neto do Fernando Lobo, ou seja, a procedência é nobre. É muita responsabilidade?
Traz muita responsabilidade... Mas o caminho é pensar cada vez menos nisso e criar a identidade, o caminho próprio e seguir. Meu pai não interfere em nada na minha carreira, em nada! Nem eu permitiria que ele interferisse porque eu tenho que penar sozinho, tenho que passar pelo caminho sozinho...No começo da carreira foi muito mais difícil lidar com isso porque eu me vestia como meu pai no palco, tinha o jeito de cantar dele, tamanha a influência que recebia. Depois fui pegando meu jeito.

Você se gosta como intérprete?
Eu estou gostando cada vez mais, acho que estou evoluindo. Não é minha principal função, eu diria; o que mais me traz alegria é compor. Mas adoro cantar, inclusive música dos outros. A estrada vai me dando suporte. Eu me preparei, fiz aulas de canto, faço exercícios...

Poxa, mas você também tem um conservatório familiar...
(risos) Pois é...

Que história é essa da parceria com seu avô, Fernando Lobo?
Cara, aconteceu da maneira mais informal do mundo. Estávamos num restaurante no Rio de Janeiro, a família toda, e eu disse: ''Se você me chamar, se você me quiser estou, no mesmo lugar vou ficar, do jeito que sou, eu sou''. Mandou essas quatro frases diretas e eu anotei num guardanapo. Isso foi em 1997, e depois desse encontro ele faleceu. Eu fiquei com a letra guardada e tempos depois peguei a letra na gaveta e virou uma homenagem.

E com seu pai, não está faltando uma parceria musical?
Está! Tem uma música que está com ele há dois anos para receber letra.

A letra, o Edu?
É, a letra, porque ele disse que não sabe fazer letra, mas está ficando linda. Ele não termina, é exigente, fica querendo fazer da melhor maneira. Mas vai sair para o próximo disco, com certeza.

Com quem mais você gostaria de compor?
Tem um que quero muito que é o Aldir Blanc, para quem mandei duas músicas e estou esperando a letra chegar. Disse que vai fazer. Agora, o Chico Buarque é o meu sonho de consumo, é uma parceria que quero muito.

Você, Marcel, Phillipe Powell, Maria Rita, Pedro Mariano, Carol Saboya, Daniel Gonzaga, Luiza Possi, Simoninha, Luciana Mello, Jair de Oliveira, Claudio Lins, Moreno Veloso, Preta Gil, só para citar alguns... Bendita essa geração que gerou vocês, não?
É verdade. Acho até legal você falar nisso... Pô, às vezes acho que a gente tem uma missão mesmo... Esses pais foram muito fortes para os filhos, uma referência muito forte de qualidade e de importância na música brasileira de todos os tempos. Acho que todos os filhos acabaram fazendo música, claro, pelo talento de cada um, mas eu acho que é uma missão de não deixar essa música de qualidade morrer.

Ou seja, o espólio musical é valiosíssimo?
É. Eu me sinto assim: fazer uma música que tenha qualidade que às vezes tem um caminho mais difícil do que se fizesse uma música mais radiofônica...Eu sei que optei por um caminho mais difícil como vários filhos desse caras todos porque, ao meu ver, tem que deixar a chama acesa sempre.

Serviço
- Disco ''Sábado'', de Bena Lobos (Lobo Music com distribuição da Distribuidora Independente, pertencente à gravadora Trama). Preço médio: R$ 25,00

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