Apelos à diversão amorosa sem compromisso e muitas distorções são carros-chefe do novo trabalho do Detonautas Roque Clube. ‘‘Psicodeliamorsexo&distorção’’ (sim, é tudo junto, mesmo!) acaba de ser lançado pela Warner Music Brasil com promessas de ‘‘levar o rock aonde for’’.
  De cara, a música de trabalho dá uma palhinha do que pode ser encontrado nessa ‘‘caixinha de supresas’’ – expressão utilizada pela resenhista do disco: ‘‘Não Reclame Mais’’, composta pelo líder e vocalista da banda Tico Santa Cruz, não poderia ser mais nua e crua quando declara ‘‘eu não aguento mais ouvir você falar de mim/ mas eu só quero t... com você/ se tu não quer então me deixa em paz’’.
  Talvez a psicodelia esteja em algumas distorções com insinuações à Red Hot Chilli Peppers, Nirvana e Foo Fighters. Com notável distanciamento dos antigos ‘hits-Malhação’, como por exemplo, ‘‘Quando o Sol se For’’, ‘‘Outro Lugar’’ e ‘‘Olhos Certos’’, o sexteto decidiu entrar em campo amparado pelo produtor Edu K, ex-De Falla (banda gaúcha de rock nos anos 80), que não economizou nos experimentalismos.
  Em entrevista à Folha2, Tico Santa Cruz revela que o terceiro álbum está voltado para ‘‘um conceito mais homogêneo’’. ‘‘Até então, não tínhamos tanta experiência. Tudo que fizemos foi um misto de intuição e experimentação. Com o tempo vamos definindo melhor a personalidade do grupo’’, disse. Segundo ele, existe a preocupação de todos os integrantes com a criação da capa até o roteiro do clipe. ‘‘Ninguém diz o que precisamos fazer ou como devemos nos comportar para parecer uma coisa que não somos’’, ressaltou.
  A abertura do disco fica por conta do rock cru e pesado: ‘‘No Escuro o Sangue Escorre’’, já intregra o set list das principais rádios; ‘‘Sonhos Verdes’’ surge como baladinha indie; ‘‘Quem sou Eu?’’ alterna as caixas da bateria com guitarras ao fundo; a reflexiva ‘‘Dia Comum’’ surge com menos distorções e os compassos se transformaram no próprio arranjo.
  O guitarrista da banda, Renato Rocha acredita que atualmente grande parte do público de Detonautas é formado por jovens. ‘‘Mas vemos crianças se aproximando de nós, desde o início, algo que nunca imaginaríamos que aconteceria. Nos shows, vemos os pais dos adolescentes levando seus filhos, indo nos conhecer nos camarins, mandando e-mails. O Roque Clube é para todos’’, enfatizou.
  Quem sabe, os desabafos pessoais dos integrantes sejam a mão estendida encontrada pelos adolescentes. Tico Santa Cruz é bastante categórico e se questiona a respeito do ‘‘preconceito que os adultos têm’’ em relação aos jovens. ‘‘Fazemos som para seres humanos, se os adolescente se identificam, acho ótimo, e esse contato com a diversidade pode render futuros adultos menos preconceituosos e mais abertos a cultura nacional. Acho ridículo as pessoas pensarem que os jovens devem ser tratados como idiotas’’, sentenciou.
  Reduzindo a a velocidade da seqüência de acordes evidenciados nas primeiras músicas do disco, ‘‘Você me faz tão Bem’’ dá sinal verde às declarações de amor, mas sem o rótulo de uma banda emocore: ‘‘Não é a toa que temos letras que abordam outros assuntos, além da perda de um amor e sua subseqüente fossa. Falamos de amor também, mas da nossa maneira’’, lembrou o líder do grupo.
  Entre as surpresas do disco, ‘‘Insone’’, a faixa mais extensa do disco, com dezoito minutos, sugere um roteiro meio Vanila Sky, além de esbanjar um silêncio desconcertante de mais de três minutos. A aura onírica prossegue com os teclados em ‘‘Tudo que Eu Falei Dormindo’’. As cordas de aço do violão dão o ritmo em ‘‘Em um Pouco Só do Seu Veneno’’. Além do silêncio provocador na faixa mais extensa do grupo, uma bonus track em espanhol se esconde ao fim do CD.
  O encarte sugestivo – com um casal-borboleta se beijando e um casulo – é um convite às transmutações do Detonautas Roque Clube. ‘‘Estamos para lançar nosso primeiro livro, já pronto e também criamos curtas-metragens nossos, dirigidos por nós mesmos. Claro que a trilha sonora também fica por nossa conta. Nosso trabalho não se resume à música apenas: gostamos do processo criativo de várias maneiras’’, reforçou o guitarrista. Detonautas é Tico Santa Cruz (voz), Tchello (baixo), Fábio Brasil (bateria), DJ Cleston (pick-ups e percussão), Rodrigo Netto (guitarra e voz) e Renato Rocha (guitarra, violão, piano e Fender Rhodes).
  Confusão, distorção, ilusão, dúvidas em dimensões. Cabe a você decidir se vai abrir ou não essa ‘‘caixinha de surpresas’’. Em todo caso, vale a iniciativa do sexteto de buscar novos horizontes no rock nacional.

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