Na capa, ela está de máscara acompanhada apenas do título ''Adriana Partimpim''. É o heterônimo adotado pela cantora Adriana Calcanhotto em seu novo CD, que chega às lojas nesta semana reunindo dez faixas inspiradas no imaginário das crianças
O disco é trabalho de intérprete, não trazendo nenhuma canção de sua autoria. O repertório celebra o universo lúdico, mas transcende ao gênero infantil incluindo composições já gravadas por Chico Buarque & Edu Lobo, Baden Powell, Paula Toller, Arnaldo Antunes e Claudinho & Buchecha.
Destes últimos, ela pinçou ''Fico Assim Sem Você'', talhada para ser a música promocional do álbum e candidata a canção mais bonita do ano (ainda que tenha sido um dos hits da dupla carioca). O disco abre com ''Lição de Baião'', gravada por Baden Powell em 1961. O filho do músico, Louis Marcel Powell, toca um dos violões.
Baden chegou a visitar o estúdio durante as sessões de gravação. A faixa seguinte, ''Oito Anos'', foi registrada no álbum-solo de Paula Toller. A letra traz uma lista de perguntas que seu filho Gabriel, com oito anos de idade, fazia para ela. ''Lig-Lig-Lig-Lé'' (de Oswaldo Santiago e Paulo Barbosa) é uma marcha de carnaval de 1937, revisitada aqui com participação de um coro de crianças.
''Canção de Falsa Tartaruga'' é a tradução que Augusto de Campos fez do texto homônimo de Lewis Carroll. Cid Campos, filho do poeta paulitano, musicou, assinou o arranjo e cantou. ''Formiga Bossa Nova'' é um poema do português Alexandre O'Neill musicado por Alain Oulman e gravado por Amália Rodrigues em 1969. O clássico ''Ciranda da Bailarina'', de Chico Buarque e Edu Lobo, foi garimpado do musical ''O Grande Circo Místico''. ''Ser de Sagitário'' vem do baú de Péricles Cavalcanti, que a compôs em 1979.
Já ''Borboleta'', única faixa encomendada para o disco, traz assinatura de Domenico Lancellotti. Completando o material, ''Saiba'' destaca a habitual habilidade de Arnaldo Antunes para listar nomes nas letras. A seguir, confira trechos da entrevista que Adriana Calcanhotto concedeu ontem, por telefone, à Folha2

Como surgiu a idéia de gravar um disco para crianças?
A idéia surgiu em 1994. A partir dali comecei a ouvir discos antigos e os que estavam saindo na época dentro do gênero. Não tinha expectativa de datas, não tinha nada planejado sobre quando iria gravá-lo. Fui coletando as canções até que, em 1999, decidi entrar em estúdio. Quando ele ficou pronto, achei que faltava alguma coisa, que faltavam algumas camadas de tempo na sonoridade. Então, preferi não lançá-lo naquele momento.

Até resolver lançá-lo, você chegou a gravar dois discos ''Público'' (2000) e ''Cantada'' (2002)...
Fiz esses discos e também turnês. Só retomei o ''Adriana Partimpim'' por insistência do Dé Palmeira, que sabia da existência do disco mas não tinha ouvido. Eu o chamei para ajudar na produção, e daí em diante cortamos algumas faixas e gravamos novas canções.

Durante sua pesquisa de repertório, o que mais chamou a sua atenção nas músicas feitas para crianças?
Ouvi muitas coisas diferentes. Algumas não me interessaram por terem intenções educativas, enquanto que outras eram bastante comerciais, a ponto de subestimarem o público a que era dirigido com produções precárias de orçamento menor. Esse desleixo com a produção, aliás, foi um ponto sobre o qual tive grande preocupação ao gravar o meu disco. Procurei trabalhar com todo o orçamento que me é oferecido pela gravadora, com todos os profissionais, com toda a qualidade técnica possível. Nunca o vi como um trabalho menor.

Qual foi o grande estímulo para enveredar nesse segmento?
Foi o fato de achá-lo um território livre, um gênero menos visado, sem muitos especialistas. Na minha infância, eu tive a experiência privilegiada de ouvir de tudo e não apenas a música infantil. Quando eu ouvia a música que os adultos ouviam, fossem meus pais ou minhas babás, era era transportada para o futuro e viajava no tempo de verdade e não de faz-de-conta. Nesses momentos, eu não me sentia tratada como criança. A faixa que abre o disco, ''Lição de Baião'', foi seguramente a música que eu mais ouvi quando era pequena. Lembro bem que a ouvia seguidas vezes. Era da coleção do meu pai e foi gravada por Baden Powell. Isso ampliou meu espectro musical. E hoje em dia, conheço muitas crianças que também ouvem de tudo. Quando veio a idéia do disco, pensei em fazer algo assim, algo mais solto, dentro de uma espécie de não-gênero. Por isso, a maioria das canções do CD não são infantis. E por isso, na contracapa, usei a tarja 'classificação livre' em vez de 'música para crianças'.

Na verdade, é um disco que pode ser ouvido como um álbum 'normal' de Adriana Calcanhotto. O conceito passaria até despercebido, caso não houvesse a informação de antemão.
A idéia é essa. Não é um disco feito para excluir os adultos.

Por que o 'Calcanhotto' não aparece nem na capa nem no encarte?
Porque 'Adriana Partimpim' é um heterônimo, com o qual pretendo lançar outros discos. Esse projeto não vai se resumir a esse CD.

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