DISCO - O tempero eletrônico de Elza
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domingo, 14 de dezembro de 2003
Nelson Sato<br> Reportagem Local 
Mais perto das pistas, mais longe dos puristas. Disco após disco, a cantora Elza Soares habilita-se ao status de incontestável ''diva black'' brasileira, com tudo o que a condição sugere de aprovação e rejeição no país do samba.
Em ''Vivo Feliz'', seu novo CD, ela adiciona mais tempero eletrônico a gêneros musicais tradicionais intensificando o hibridismo sonoro testado em seu trabalho anterior.
Se em ''Do Cóccix até o Pescoço'' (2002) algumas faixas enveredavam pelo funk e pelo hip hop, agora a intérprete de voz rascante incursiona também pelo dub e pelo drum'n'bass. O álbum foi gravado pelo selo independente Reco-Head e distribuído pela Tratore.
A produção é de Arthur Joly, um multiinstrumentista paulistano que comanda o projeto eletrônico Mugomango. No repertório, destacam-se regravações de dois clássicos do cancioneiro popular brasileiro os sambas ''Opinião'', de Zé Kéti; e ''Volta por Cima'', de Paulo Vazonlini.
O primeiro ressurge como um funk incendiário, lotado de groove com baixo insinuante e arranjo encorpoado para metais e percussão. O segundo mantém o fraseado de samba, mas corrompido por batidas programadas e rimas em francês disparadas pelo rapper Pyroman.
A artista empresta também a canção ''Computadores Fazem Arte'', de Fred Zero Quatro (do Mundo Livre S/A) revisando-a em versão dub. Uma parceria com Nando Reis (''Concórdia'') traz a faixa mais calma do CD, com o ex-Titãs fazendo dueto vocal com a anfitriã.
Como autora, Elza assina a explosiva ''Rio de Janeiro'' com o namorado Anderson Lugão, além da salsa ''Somos Todos Iguais'' e o samba com percussão eletrônica ''Lata D'Água''. Radicalizando a orientação dançante, convida à pista com o drum'n'bass ''Two Tac''. Elza se jogou. Confira a entrevista concedida pela cantora, por telefone, à Folha2.
Quando você lançou o álbum ''Do Cóccix até o Pescoço'', no ano passado, muita gente passou a chamá-la de moderna por causa das batidas programadas e do flerte com o hip hop. Agora você radicalizou nas misturas. Quando a música eletrônica te fisgou?
Acho que eu já nasci eletrônica. Minha voz, você sabe, não é normal... Há muito tempo, o apresentador de TV Flávio Cavalcanti perguntou como tinha aparecido esse groove na minha voz. Eu respondi que um anjo do céu o tinha aplicado na minha garganta.
Os anos em que você morou no exterior tiveram influências nessas incursões por ritmos como o dub e o drum'n'bass?
Eu morei muitos anos nos Estados Unidos, na Europa, no mundo. Em cada lugar, a gente pega um caldinho de cultura para juntar à riqueza musical brasileira. A história desse disco vem daí, mas ele começou a se materializar mesmo a partir de algumas composições do Anderson Lugão, com quem estou casada há três anos. As músicas estavam ficando tão boas que resolvemos fazer um disco inteiro em parceria com o produtor Arthur Joly.
O Lugão assina a faixa ''Two-Tac'', que é um legítimo drum'n'bass. Elza Soares definitivamente caiu nas pistas?
Estamos vendo a resposta nos shows. As pessoas enlouquecem com o ritmo frenético dessa faixa. É o que a juventude busca. Ninguém tem mais tempo. Não dá mais para ficar sentado. Como diz a outra música, o computador tá aí fazendo arte.
Quando começaram as gravações do disco, cogitou-se a participação do Ed Motta...
Não só ele. O Frejat também foi convidado. Mas as agendas não bateram. Minha convivência com essa turma é grande. Sempre convivi com os Titãs, o Cazuza, o Renato Russo, o Lobão. Minha juventude é intensa, imensa. Estou sempre trazendo gente nova para o meu trabalho. Foi assim com a Letícia Sabatella no disco anterior. Não quero ser Napoleão, Mahatma Ghandi ou Martin Luther King. Quero apenas saber dos meus limites, saber até onde posso ir.
Você regravou dois clássicos do cancioneiro popular brasileiro ''Opinião'' do Zé Kéti e ''Volta por Cima'' de Paulo Vanzolini com roupagens bem diferentes das versões originais. Houve críticas da ala mais tradicionalista do samba?
A crítica está unânime em elogiar o disco, em falar de minha audácia. As coisas mudam, crescem, progridem. Você não pode ficar plantado, se não o bicho-papão te engole. Tem que ir à frente. Estão entupindo a nossa música de milk-shake e hot dog. A gente tem que trazer a juventude para o nosso lado. Precisamos tonificar a moçada com o que é moderno, mas também com a tradição. É preciso cuidar da música brasileira, porque os americanos vêm e tomam. Uma vez, eu estava na Itália, e vi um apresentador de show anunciar o Stan Getz como o descobridor da Bossa Nova. Eu levantei para contestar, para dizer que ele não descobriu nada, que ele recebeu a Bossa Nova de artistas brasileiros e se integrou a ela. Na verdade, deram chance a ele para participar de nossa riqueza musical.
Simultaneamente ao álbum ''Vivo Feliz'', as lojas estão recebendo uma caixa de 12 CDs contendo 17 títulos que você gravou pela Odeon (hoje EMI). Os discos foram bem escolhidos? Ficou muito coisa boa de fora?
Não parei para pensar sobre a caixa. É um presente lindo, maravilhoso, como foi ter sido eleita a artista brasileira do milênio pela BBC de Londres em 1999 e como foi receber a chave de cidadã portenha nesta temporada. Essa caixa é importante para mostrar como sou atrevida. Mas vou em frente, não sou de viver do passado, vivo o 'now', o agora é o que me importa. Se você desfolhar a revista (que acompanha a caixa), vai encontrar uma Elza diferente da outra em cada página. Sou muitas, todas fazendo um trabalho brazuca com inteira liberdade. E a cada trabalho, não me visto de ouro, de brilhantes, mas de humildade para agradecer sem babaquice a Deus por eu ter conquistado esse patamar.


