DISCO - O sucessor da 'Dinastia Maia'
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sábado, 23 de julho de 2005
Ana Paula Nascimento<br> Reportagem Local 
Depois do pai e primo famosos Tim Maia e Ed Motta , ele é o terceiro da ''Dinastia Maia'' que chega cheio de energia para mostrar seu talento musical. Sob a benção de São Jorge e de ''São Sebastião Rodrigues Maia'' (também conhecido como Tim Maia), Leo Maia, ou Marcio Leonardo, estréia no mundo fonográfico com um disco autoral, ''Cavalo de Jorge'' (Indie Records).
Leo apresenta um repertório calcado na soul music, passando pelo xote e reggae. Ele define sua musicalidade como ''por dentro soul, por fora rock'n' roll''. Aos 29 anos, Leo conta que foi com o genial e genioso pai que aprendeu a tocar violão aos sete anos; aos 14 já era roadie da banda de Tim Maia Vitória Régia. Hoje cantor e compositor, Leo Maia quase se formou em Direito o curso, como faz questão de frisar, era pago com dinheiro das apresentações em bares e em shows com amigos.
Para quem escuta Leo Maia, uma grata surpresa: o timbre de voz não lembra o do pai e não há tanta irreverência nas letras. Há, sim, a ênfase de se mostrar um trabalho com autenticidade e qualidade.
Leo não nega a influência musical e até mesmo pessoal de Tim Maia. ''Meu pai foi entregador de marmita e para ele desde cedo a gente tinha que caçar um rumo'', disse o artista em entrevista, por telefone, à Folha2.
Casado, pai de três filhos o caçula Jorge tem apenas um ano , Leo está feliz e confiante no caminho que escolheu. ''Desde cedo trilhei o caminho mais difícil e o mais importante era achar a minha voz, o que acho que estou conseguindo'', destacou. A seguir os principais trechos da entrevista.
Pra começo de conversa, como foi o início da sua trajetória musical?
(risos) Eu comecei com sete anos de idade, na banda Vitória Régia, com o meu pai, como roadie (responsável pela produção). Aos 14 anos eu comecei a tocar na banda de um gerente de banco que deu a louca, pediu as contas, vendeu tudo o que tinha e comprou um ônibus rural, equipamento e começou a montar baile no interior dos estados do Rio de Jeneiro, de Minas, São Paulo... A banda chamava ''Luiz Carlos Sons & Efeitos'', e ele era o Luiz Carlos e nós éramos os sons e os efeitos. E aí tudo começou e nunca mais parei. Toquei em bares, várias bandas, fiz tudo.
Seu pai dava apoio?
Não era nem questão de apoio. Meu pai era o seguinte: ele era tijucano, foi entregador de marmita, então passou uma concepção de que era preciso trabalhar, estudar, enfim, caçar um caminho desde cedo. Como eu nasci e cresci no ambiente da música, isso já era uma coisa real para mim. Por exemplo, eu aprendi a tocar violão com sete anos de idade com o meu pai. Então, foi um processo muito natural. Eu também estudei Direito, mas paguei a minha faculdade com música, a qual me dediquei a vida toda.
Você concluiu a faculdade?
Não cheguei a concluir, porque o sentido era ajudar o meu pai nos negócios ele precisava de alguém de confiança. Enfim, como filho e eu ajudaria o meu pai de coração... Quando passei para o último ano, meu pai veio (a falecer). Aí Deus não quis que eu terminasse essa faculdade. Não consegui voltar.
Qual é a proporção da influência do seu pai na sua escolha profissional?
Caramba! Eu acho que foi um processo muito natural. Ele não teve assim uma influência...Por ser uma pessoa que não impunha restrições, era muito permissivo, eu podia brincar com todos os instrumentos, então, imagina uma criança em uma casa que tinha trombone, trompete, bateria, guitarra, contrabaixo e ninguém dizia não, deixavam eu experimentar tudo. A curiosidade de uma criança é muito forte e acho que foi ali que isso foi me conquistando. Mas não sei, acho que isso é Deus, é um dom, cada um tem um dom, acho que é muito de Deus.
Há quanto tempo estava sonhando em ter o próprio CD?
Ah, desde os meus 18 anos...
Mesmo sendo filho do Tim Maia, foi difícil realizá-lo?
Olha, difícil não é, depende do que você se propõe. Eu me propus desde o começo trilhar o caminho mais difícil, que era tocar, fazer o ''vestibular da vida'', como meu pai dizia. Então, eu nunca quis o caminho mais fácil. O meu disco é autoral, das 13 faixas eu assino 11. É um disco verdadeiro, estou em paz com a minha consciência e com a honra de pertencer à uma família que há mais de 50 anos faz música. Então, eu acho que estou seguindo os mandamentos lá de casa, estou em paz e tranquilo.
Qual a assinatura que você imprime ao disco?
(risos) Eu sou do baile Brasil. Eu costumo dizer o seguinte: por dentro sou soul music e por fora, rock'n'roll. Eu sou uma pessoa muito curiosa, eu ouço de tudo desde Villa-Lobos eu estudei um pouco de música clássica ao maestro Tom Jobim. Não dá para passar pela enciclopédia da música brasileira sem ouvir os compositores básicos. Eu acho que o jovem artista que não ouve os clássicos, não pesquisa a música brasileira e internacional não é um artista: ele está brincando de fazer música.
E quanto tempo levou para finalizar o CD?
A gente fez em um mês. Já tinha todas as músicas, aliás, tenho praticamente três discos prontos. Foi mais o trabalho de gravar e é porque eu já estou há tanto tempo trabalhando a idéia desse disco, que não teve como, e só convidei gente que eu já conhecia, que trabalhou comigo em várias demos, enfim, só tinha amigos e foi rápido.
Você é devoto de São Jorge, que dá a temática ao seu disco?
Isso é a coisa mais séria do mundo. Sou devoto de São Jorge e de São Sebastião Rodrigues Maia.
Então, está super protegido?
Graças à Deus.
Em algumas faixas de ''Cavalo de Jorge'' fica muito evidente a questão dos amores que não deram certo, de pais de namoradas que não aprovavam as filhas namorarem um músico. Você vivenciou alguma coisa do gênero?
Já, já rolou. Esse lance de músico, ainda tem muita gente que tem preconceito, principalmente se você ainda não é uma pessoa famosa. Porque eles acham que o profissional é aquele que está no barzinho, que trabalha toda noite. Ainda tem uma galerinha bem preconceituosa.
A cantora Maria Rita fica muito reticente quando há alguma comparação do seu trabalho com o da Elis Regina. É comum as pessoas fazerem essa associação. E se acontecer o mesmo com você?
Claro que há influência do meu pai, porque eu aprendi tudo com o meu pai. Tudo o que eu sou, o homem que eu me transformei, é resultado da educação, do carinho, do amor que ele me deu e a música fazia parte da nossa relação de amor. Mas eu sempre fui à procura da minha música. Eu levei muito tempo pesquisando sons, ouvindo discos, estudando música, compondo, fazendo demos. Eu trabalhei muito para achar o meu som, qual era a minha proposta musical, o que poderia contribuir para a música. Eu não tive medo de ousar e acho que dei sorte. Eu ainda estou à procura da minha voz, da minha música, mas acho que achei um caminho, comecei a trilhar um caminho.
E as pessoas normalmente não relacionam a sua voz com a do seu pai?
Acho que não. Eu costumo dizer que eu não sou o Tim Maia, eu não sou o Ed Motta, eu sou Leo Maia, o terceiro da dinastia!
Do Tim Maia, temos a lembrança da genialidade musical associada à sua imagem pública de ''maluco''. Como ele era na intimidade?
(rindo) Cara, meu pai era super engraçado. Para você ter uma idéia, ele acordava lá pelas cinco e pouco da manhã, esperava dar 6 horas, pegava uma panela e ficava batendo interminavelmente e gritando: ''Alô Brasil, aqui é a Rádio Atividade, Atividade, Alô Brasil!!!''. Ele acordava todo mundo, cara, e olha que a gente morava em um apartamento. Aí a gente acordava, todo mundo no susto, tomávamos café da manhã e, lá pelas 9 horas, ele voltava a dormir e deixava a galera na atividade. Esse era o meu pai, cara. E aí ele falava assim: ''quem não acorda cedo, não vence na vida''.
Ele sempre tinha esse pique?
Ele era uma pessoa muito inteligente, super bem-humorado. Era genial. Para você ter uma idéia, ele tinha uma casa com piscina e frequentemente ele levava 60 crianças de um orfanato para brincar lá. A gente também alugava ônibus para levar as crianças para assistir aos shows dele, porque ele achava que era legal elas verem esse tipo de coisa. Meu pai não era maluco. Ele não media as palavras, mas havia nele uma verdade eloquente.


