Ela poderia ter facilitado, mas não facilitou. Por dedução, a assinatura que Maria Rita pretende imprimir ao seu trabalho estaria na sonoridade introspectiva aliada ao canto preciso e sutil. No novo álbum, sintomaticamente batizado de ''Segundo'', a intérprete basta-se com um trio (piano, baixo acústico e bateria). O que poderia soar enxuto ou econômico resulta numa mostra de valores pronunciados contornos coloridos em canções simples, novos sentidos a músicas consagradas e, principalmente, o modo particular de imprimir intimismo às 12 faixas (com um bônus), a maioria inédita. Em outras palavras, MPB com insinuações jazzísticas.
A concepção tem mais valia no canto de Maria Rita ora fragmentado, por vezes quase sussurrado, mas não linear surpreendentes modulações. ''Segundo'', o disco, é uma co-produção dela com o cantor e compositor Lenine. Foi ele o escolhido para direcionar o trabalho, que deveria ser cumprido por Tom Capone, não fosse a morte trágica ocorrida ano passado.
''Depois que o Tom faleceu fiquei completamente perdida. A gente tinha uma ligação forte, bonita e verdadeira tanto musical como pessoal'', conta Maria Rita. O nome de Lenine veio à roda quando ela soube que Capone havia produzido discos do artista pernambucano, com o qual mantinha também laços afetivos. ''Acabou ficando tudo entre família'', constata a cantora. O disco chega em dois formatos: CD simples e CD acompanhado de DVD com cenas de ensaio e gravação em estúdio. A cantora apresenta-se no dia 28 de outubro, em Curitiba.
Como produtor, Lenine imprimiu diretrizes próprias dentro da proposta estética a que se propõe Maria Rita. Se no disco de estréia há ''respiradouros'' numa ou outra faixa, em ''Segundo'' a atmosfera é mais densa e pede agudeza de percepção. Não à toa a cantora usa o adjetivo ''orgânico'' para classificar a nova empreitada, que já chegou à marca das 250 mil cópias vendidas até agora e cujas vendas devem ser alavancadas mundo afora onde a gravadora Warner Music tiver representação. O primeiro disco bateu a casa das 800 mil unidades no Brasil e 150 mil DVDs, números que transformaram a filha de Elis Regina (1945-1982) e César Camargo Mariano em fenômeno mercadológico.
Alheia a rótulos e desempenhos comerciais ao ponto de relativizar o fato de uma gravadora deixar de ser uma casa acolhedora quando projeções não se sustentam , Maria Rita teve ampla autonomia para idealizar o segundo álbum. Convocou o pianista Tiago Costa (com quem estabelece conivências sonoras e vice-versa), o baixista Sylvinho Mazurca e o baterista Cuca Teixeira para acompanhar-se ao vivo. Quer dizer, instrumentos e voz registrados ao mesmo tempo, sem edições posteriores.
O compositor da vez é Rodrigo Maranhão, integrante do grupo carioca Monobloco, de quem pinçou ''Caminho das Águas'' (um maracatu com refrão facilmente assimilável), o samba-jazz ''Recado'' (com um habilidoso piano em impressionante improviso) e a escondida ''Mantra'' (em parceria com Pedro Luís) , portanto, depois da última faixa espere um pouco para começá-la a ouvir.
Marcelo ''Los Hermanos'' Camelo comparece na confessional ''Casa Pré-Fabricada'' e ''Despedida'', cuja percussão também é extraída do chão do estúdio vale pela curiosidade. Maria Rita garante de pés juntos que a inclusão de ''Mal Intento'', de Jorge Drexler, não dá margens a possíveis oportunismos. Para quem não está ligando o nome à pessoa, o cantor e compositor uruguaio foi o vencedor do Oscar 2005 de Melhor Canção por ''Al Otro Lado del Rio'', do filme ''Diários de Motocicleta'', de Walter Salles. Os dois se conheceram pessoalmente, trocaram confidências musicais e outros leros e, desses encontros, ela recebeu uma fita com duas músicas. Optou por ''Mal Intento''. Assim: entrasse ou não no disco, tanto faria.
Três canções formam o tripé de ''Segundo'', cuja diversidade aparece encoberta por uma espessa camada intimista. A suavidade de ''Ciranda do Mundo'' (Eduardo Krieger), o sopro pop de ''Minha Alma/a paz que eu não quero'' (O Rappa - Marcelo Yuka) e o contagiante samba ''Conta Outra'' (Edu Tedeschi), gravado ao vivo, em Porto Alegre. No mais, compositores emergentes como Moska, Dudu Falcão, Francisco Bosco alinham-se a Chico Buarque e Edu Lobo, os dois únicos medalhões presentes na clássica ''Sobre Todas as Coisas''.
''Segundo'' não tem mistérios. Lembra quando se falava que determinado produto era feito para quem gostava de boa música? Ou mesmo quando se escrevia ''Disco é Cultura'' na contracapa? É isso! Para bom entendedor...

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