DISCO - NOBRE ENCONTRO
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 24 de maio de 2006
Liliana Onozato<br> Reportagem Local 
A interessante alquimia entre timbres sublimes e acordes majestosos não pode ser erroneamente resumida em ''voz e violão''. Não no caso de ''Nobreza'', projeto da cantora Jussara Silveira produzido em parceria com o instrumentista Luiz Brasil. Lançado pela Maianga Discos, o duo ultrapassa essa dobradinha já tão arraigada nos bares, com o equilíbrio das interpretações somado ao repertório eclético que apresenta canções pouco difundidas e grandes sucessos da música brasileira. Amigos e parceiros de trabalho além de vizinhos no Rio de Janeiro os dois decidiram fazer esse registro fonográfico durante o Projeto Pixinguinha, aproveitando que o show nasceu antes do CD, segundo a intérprete ''baiana, natural de Minas Gerais''.
As cortinas se abrem com ''Nobreza'', faixa que dá nome ao álbum, composta por Djavan e gravada por ele em 1982. Para quem pouco se surpreendia com as composições desse notável alagoano, talvez seja a faixa que mais revele essa vertente quando diz ''O amor se desnudando no meio de tanta gente/ Um doce descascado pra mim/ Eu guardo pro fim pra comer demorado/ Uma grande amizade é assim''.
As atenções se voltam, após ''Os Passistas'' (Caetano Veloso), para o delicioso samba carnavalesco de 1947, ''Rosa Maria'' (Aníbal Silva e Éden Silva), em que os acordes maiores do dedilhado contrastam com o leve desespero de um sentimento que fenece: ''Um dia encontrei Rosa Maria/ Na beira da praia a soluçar/ Eu perguntei o que aconteceu/ Rosa Maria me respondeu/ O nosso amor morreu''. Lupícinio Rodrigues e Alcides Gonçalves surgem na espirituosa ''Quem Há de Dizer'', também em samba-canção.
Nas 13 composições do disco, fica estabelecida uma ponte-aérea entre a alegria e a melancolia, que trocam passos na trama musical repleta de intervenções instrumentais de Luiz Brasil, como no caso da compassada ''Eu vou te Esquecer'' (Beto Pelegrino e Ariston), registrada pela segunda vez por Jussara. Agora, quem dá o tom, é uma viola de 12 cordas.
Há também espaço para o tango russo de domínio público, ''O Sol Enganador'', na versão de Vadim Nikitin. Entre os contemporâneos, ''Efeito Samba'', de Zé Miguel Wisnik e Vadim Nikitin, e a embalada ''Argila'', do tribalista Carlinhos Brown momento em que Luiz Brasil canta algumas estrofes sozinho: ''Se for feito de argila/ Seis enfeites te darei/ Flores não nascem em dúzia/ Só foi uma que roubei''.
O clássico ''Moonlight Serenade'' de Glenn Miller, expoente bandleader americano do final dos anos 30, recebeu a versão ''Um Sonho de Verão'', de Nara Leão. Dessa vez, na voz de Jussara e no violão de Luiz, ganhou a trilha sonora da recém-terminada novela global ''Alma Gêmea''.
Como quem incita ''Que nobreza você tem?'', primeira frase de ''Ludo Real'' (Vinícius Cantuária e Chico Buarque) já gravada por Jussara em seu disco de estréia em 1997 sugere um encerramento em suave melodia do encontro intimista entre uma voz e um violão. Aliás, vozes e violões. A seguir os principais trechos da entrevista que Jussara Silveira concedeu à Folha2:
Para começar, o que é nobreza para você?
É a qualidade do que é nobre, do que é bem-feito, é o respeito pelo o que é nobre, mas não no sentido aristocrático. No caso desse CD, é particularmente a nobreza da canção brasileira, que é a única estrela do disco, mas ao mesmo tempo, a nobreza de como o Luiz toca o violão. Quando eu pensei na canção, eu pensei nele, no jeito que ele toca, na importância que ele tem na minha vida musical, do que o violão dele faz. É também a nobreza do público que me acompanha, do público fiel já que não estamos no mundo dos milhões que nos acompanham há quinze anos.
Como você define esse disco?
É um disco que trata de meu assunto predileto, que é a canção popular brasileira. É o resultado desse caminho que eu percorri com o Luiz, já que tem canções que a gente cantou há 15 anos, além de coisas novas. O repertório foi construído em cima disso. Embora eu tenha feito a seleção, não tem nenhuma canção que não estivesse presente no universo do Luiz. Em canções como ''Argila'', do Carlinho Brown, só existe uma gravação que é do próprio Carlinhos, e ele conseguiu trazer aquele monte de informação sonora que a música original apresenta para uma voz e violão. Então é isso que a gente privilegia. E o que uma voz e violão podem fazer com essa canção.
Comente um pouco a sua relação musical com Luiz Brasil
Logo depois do primeiro show que eu fiz em Salvador, fui pra São Paulo e Rio, em 1990. Luiz começou a tocar comigo aí. Antes de morar aqui no Rio, eu era fã dele porque ele tinha uma banda na Bahia chamada Mar Revolto, que fazia um som incrível, que era um negócio com o peso das guitaras, com uns sintetizadores, mas tinha um negócio de canção brasileira, ao mesmo tempo. Então, eu já era fã dele, colecionava recortes do Mar Revolto. Atualmente, a gente é vizinho e já faz 15 anos. Temos um laço estreito de amizade. Tenho muita admiração por ele.
Você toca algum instrumento?
Não toco. Eu tenho um violão em casa, ''me safo'' de algumas coisas que eu preciso trabalhar, pois violão é um instrumento que sempre esteve presente na casa de meus pais, tios, e todo mundo toca na família, mas eu não aprendi, não estudei violão.
Que espaço você acredita ocupar atualmente na MPB?
(risos) Olha, num certo sentido é muito pequeno, se levarmos em conta o mundo dos milhões. Mas é um espaço enorme porque eu me sinto privilegiada por fazer o que eu gosto de fazer e do jeito que eu gosto de fazer. Isso sempre foi muito acolhedor, além da minha relação com os selos, com as pequenas gravadoras. Ao mesmo tempo em que você comenta 'Meu Deus, tenho 46 anos, não tenho apartamento, não tenho carro, o que vou fazer da minha vida?'', esse desespero com a vida prática, com o cotidiano, existe também uma coisa imensa que acaba compensando. Tem um mundo musical em minha volta. É gratificante.
Serviço
- Disco ''Nobreza'', de Jussara Silveira em parceria com o violonista Luiz Brasil. Gravadora Maianga. Preço sugerido: R$ 25,00. O álbum pode ser adquirido também pelo site: www.maianga.com.br


