Quem pode, pode. E numa prova a mais de independência mercadológica, Maria Bethânia acaba de lançar o próprio selo, ''Quitanda''. Além de ''Vozes da Purificação'', da conterrânea Edith do Prato, a interprete-empresária põe na roda um álbum próprio. Chama-se ''Brasileirinho'' e é o item 001 da ''Quitanda'' da baiana que tem co-direção geral de Kati Almeida Braga, dona da gravadora Biscoito Fino.
Parceria, em outras palavras. Que estaria prevista, ao que consta, quando Maria Bethânia deixou as multinacionais e assinou contrato com a pequena, mas prestigiada gravadora carioca. A troca foi boa: Bethânia tornou-se estrela principal e, até agora, o mais rentável investimento da Biscoito Fino a gravadora acaba de lhe entregar o Disco de Ouro por ''Maricotinha ao Vivo''. O êxito deve se repetir com o disco-tributo a Vinicius de Moraes que Bethânia deve entregar até dezembro.
Enquanto Vinicius não vem, o jeito é apreciar o produto número 1 da ''Quitanda''. O disco ''Brasileirinho'', como a grande maioria dos títulos da discografia de Maria Bethânia, é conceitual. Desta vez, o sincretismo religioso desvela um Brasil caboclo. E nessa ótica pessoal, há músicas que remetem aos terreiros de umbanda e candomblé amarradas com breves citações de textos de Guimarães Rosa (extraídas do livro ''Rosiana'', coletânea de conceitos, máximas e brocados selecionados por Paulo Rónai), versos de Mário de Andrade (''O Descobrimento'', declamado por Ferreira Gullar e ''O Poeta Come Amendoim'', ditos por Denise Stoklos) e de Vinicius de Moraes (fragmento de ''Pátria Minha'', pela própria Bethânia).
Entre um arremate e outro, canções de singeleza maior como ''Sussuarana'' (Heckel Tavares-Luiz Peixoto), em dueto com Nana Caymmi, ou mesmo ''Melodia Sentimental'' (Villa Lobos-Dora Vasconcellos). No entanto, são as evocações às entidades afros, sejam da umbanda ou candomblé, que conduzem ao Brasil visualizado por Bethânia.
A capa, mais uma de Gringo Cardia, tem a imagem da cabocla Jurema, saudada também no disco na adaptação de Rosinha de Valença e que traz a delicadeza vocal de Miúcha Bethânia já a havia registrado em 76, no disco ''Pássaro da Manhã''.
E os santos vão, vêm e baixam no terreiro de Maria Bethânia. As divindades são saudadas Ossaim, Oxossi, Xangô, Iemanjá (''Ponto de Janaína'') bem como santos católicos como São João, Santo Antonio e São Jorge. ''Brasileirinho'' apóia-se nos arranjos, violão e viola de 12 cordas de Jaime Alem, no contrabaixo de Jorge Helder e na percussão de Marcelo Costa. As participações especiais ficam por conta do Uakti (na faixa de abertura ''Salve as Folhas'') e do quarteto Tira Poeira em uma das mais belas faixas do disco, ''Padroeiro do Brasil''.
Das doze faixas, apenas um inédita. E justamente a mais bonita, a mais significativa do Brasil negro que se formou no ventre do navio negreiro: ''Yayá Massemba'' (Roberto Mendes- Capinam). Outra preciosidade: ''Ele é o Meu Capitão'' (Paulo César Pinheiro - Vicente Barreto).
Por ser conceitual, o álbum tem que ser entendido no todo, mesmo que essa ou aquela faixa tenha apelo sentimental. Se em ''Cânticos, Preces, Súplicas à Senhora dos Jardins do Céu'', trabalho anterior, Bethânia louva Maria, mãe de Jesus, em ''Brasileirinho'' há o respeito às entidades do sincretismo religioso. São trabalhos distintos, mas ambos sinceramente concebidos por uma intérprete que tem compromisso apenas com o que lhe diz respeito. Que a ''Quitanda'' tenha sempre variedade e qualidade.

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