Filho de Baden, Marcel Powell é. Toca violão como o pai e, aos 23 anos de idade, vem pavimentando uma trajetória artística com claros sinais de longevidade e arrojo. Diz ser ainda muito cedo para falar em marca registrada, estilo, embora confesse utilizar muitas escalas musicais e uma pegada forte nas canções que interpreta. Sabe ele que está sujeito a cobranças em função da linhagem nobre a que pertence. Não se importa. Ao contrário, orgulha-se de ter tido o pai, Baden Powell (1937-2000), o mais expressivo violonista brasileiro, como professor comparações, ao menos por enquanto, seriam impiedosas e desnecessárias.''É um privilégio ser filho de Baden Powell, mas independente de qualquer coisa as pessoas têm talento e brilho próprios'', diz Marcel Powell, que está lançando ''Aperto de Mão'' (Gravadora Rob Digital).
Não é seu primeiro disco, mas ele o apresenta como um projeto em que sua identidade musical está impressa com fidelidade. De fato, é o único lançado no mercado brasileiro e no qual dá conta sozinho de interpretar e bem onze faixas de autores consagrados e também de canções próprias. A quem interessar possa, o primeiro registro fonográfico dele foi aos 12 anos de idade em ''Baden Powell e filhos'' (registrado em 1994 na Sala Cecília Meirelles, Rio de Janeiro), juntamente com o irmão e pianista Philippe ambos viriam a se juntar ao pai novamente, em 1997, em ''Suíte Afro-Brasileira'', disco lançado apenas no Japão a exemplo de ''Samba Novo'' (2002) em que se uniu a um punhado de outros artistas de procedência igualmente ilustre como Cláudia Telles (filha de Cláudia Telles), Diogo Nogueira (filho de João Nogueira), Ana Martins (filha de Joyce), além do percussionista Marcos Suzano.
''Aperto de Mão'' merece ser ouvido com muita atenção não só pelo ineditismo como também pela qualidade com que foi gerado. Dá prazer ouvir Marcel Powell relendo clássicos de Noel Rosa (''Último Desejo''), Johnny Alf (''Rapaz de Bem''), João Bosco (''Desenho de Giz''), só para citar alguns dos notáveis. Da própria lavra, Marcel apresenta apenas três: a bela ''Itanhangá'', ''Saudades de Baden'' e ''Prelúdio das Diminutas'', essa última feita em parceria com o pai, durante um dos estudos de violão. ''Eu tinha apenas 11 anos e dei apenas algumas idéias. Mas a música é praticamente toda dele, que resolveu me dar a parceria'', conta Marcel
Em comum acordo com o produtor João de Aquino, outro bamba do violão, Marcel optou por ser ''Aperto de Mão'' um disco de intérprete segundo ele, haveria condições de fazer um disco autoral com as cerca de 30 canções que já compôs. Prefere ir colocando aos poucos peças de sua autoria à medida em que for gravando mais discos. Opção à parte, ''Aperto de Mão'' é um disco agradável em que Marcel evoca escalas, desenha frases musicais, quebra compassos, enfim, mostra o virtuosimo sem precisar apelar para malabarismos ou exibicionismos gratuitos há fluência, isso sim!
Tudo é interpretado de maneira direta, sem exaustivas repetições de melodias comuns a instrumentistas em busca de auto-afirmação. A primeira faixa, que dá nome ao álbum, é um bom exemplo disso: o recado é dado sem maiores firulas, mas com empenho interpretativo vigoroso. Aliás essa é a música que mais toca a memória afetiva de Marcel Powell um dos autores, Jaime Florence, o Meira, foi professor de seu pai. Gravado originalmente como um samba canção por Isaurinha Garcia, em 1943, ''Aperto de Mão'' ganha outros contornos nas mãos de Marcel.
A profusão de escalas até remetem a solavancos jazzísticos para tanto foi pinçada ao repertório ''Round Midnight'', do imenso Thelonious Monk (em parceria com Cootie Williams e Bernie Hanighen). Mas ''Aperto de Mão'' inclina-se mesmo à brasilidade através do frevo (''Evocação nº 1'', de Nelson Ferreira), samba, choro canção, Bossa Nova, entre outras coisas nossas. Coerência já que sua formação foi calcada na Música Popular Brasileira, mesmo sendo Louis Marcel Powell um francês ele nasceu em Paris, assim como o irmão Philippe, numa das temporadas em que Baden Powell viveu por lá e casou-se com a brasileira Sílvia.
''Jovem mestre do violão brasileiro'', como o crítico musical Tárik de Souza se refere a ele, Marcel Powell recentemente participou do disco ''Que Falta Você me Faz'', de Maria Bethânia. O cantora baiana fez questão da presença dele e do irmão Philippe como uma espécie de homenagem implícita a Baden Powell, parceiro de Vinicius de Moraes, a quem o disco rende tributo. Além do reconhecimento que vem conquistando no Brasil, Marcel há três anos vem se apresentando no exterior, principalmente na França e na Alemanha.
A seguir os principais trechos da entrevista que Marcel Powell concedeu à Folha2, por telefone

Ser filho do mítico Baden Powell significa ter que se superar cada vez mais como músico ou você não se importa com as possíveis cobranças?
Dou atenção ao fato, claro, mas não tenho medo das cobranças. Até porque quando comecei a estudar música com meu pai, aos 9 anos, uma das coisas que me ensinou foi ser escravo do instrumento e da música assim como ele. Ele era muito exigente comigo até porque acho que previa uma cobrança do público. Por causa disso, aprendi a ter mais disciplina com a música e com o instrumento e também me superando como músico e dando o melhor de mim. Portanto, não tenho medo das cobranças até porque se me compararem a ele tomo isso como um elogio.

Seu pai deixou uma marca explítica no que ele tocava. Você já tem alguma marca registrada ou segue em busca de alguma característica sua como violonista?
Isso é algo que está em crescimento porque tenho só 23 anos de idade. Então, está muito cedo para pode dizer ''minha marca'', ''meu estilo''. O que posso dizer é que ainda estou em formação.

O fato de usar muitas escalas já seria um diferencial?
Seria, mas eu diria que é um diferencial momentâneo, um estado de espírito.

''Aperto de mão'' tem músicas suas, mas é basicamente um disco de releitura. Foi proporcional não mostrar uma faceta só autoral?
A questão é o seguinte: eu sou um cara novo no mercado, então como é que vou lançar um disco autoral e inédito? Fazer um disco inteiro só com músicas minhas ainda é muito cedo. As pessoas não conhecem meu trabalho totalmente, ainda mais em se tratando de música instrumental. Vou colocando minhas músicas aos poucos, à medida que vou gravado mais discos. Mas eu tenho algum número de música que daria para um disco só autoral.

Quantas canções aproximadamente
Umas 20, 30 mais ou menos. Tenho algumas parcerias cantadas feitas com Paulo César Pinheiro, Diogo Nogueira... Mas esse negócio de composição é muito delicado. Você pode até gravar um disco só autoral, mas isso não quer dizer necessariamente que ele é bom. Ou melhor, um disco assim pode acontecer ou não. Eu acho que, de repente, é mais válido ser reconhecido como um bom intérprete do que como um compositor medíocre. Meu pai, por exemplo, conseguiu e acho isso o maior mérito dele ser um virtuose no violão e um compositor que fez todo muito cantar.®MDBO¯
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Já passou pela sua cabeça também cantar ou você já se definiu como um instrumentista?
Eu até canto umas músicas minhas. Mas eu sou um intérprete do violão, um violonista mesmo.

Há improvisos quando você executa ou há obediência à partitura, o que também não deixa de ser algo merecedor de atenção?
A partitura é algo muito necessário, mas confesso que não trabalho dessa maneira. Numa canção dou uma criada na hora. Por exemplo, quando eu saí de casa para gravar eu tinha as músicas que queria registrar mas não sabia como, de que maneira iria executá-las. A coisa foi surgindo no estúdio e assim também é no show. A música vai fluindo e é uma incógnita porque nunca se sabe se vai dar certo ou errado.

®MDNM¯Procede a história de que seu pai teria renegado os sambas-afros pouco antes de morrer?
O negócio é o seguinte: nos três últimos anos de vida, ele tinha se tornado evangélico. Mas independente de qualquer coisa, ele ia tocando outros sambas. Não é que ele renegava, mas meio que parou de tocar os sambas-afros e a palavra 'saravá' ele não falava mais no ''Samba da Bênção''. Eu ouvi falarem muito isso de ele renegar, mas não chegava a tal ponto... Ele se afastou um pouco, digamos assim.

E você, gravaria os sambas-afros?
São tipos de samba que eu gosto muito. Mas daí a regravar... Meu pai já gravou de uma forma imortal, única e singular. E como eu estou querendo procurar também o meu som, acho que no momento não regravaria não. Pode ser daqui a um tempo pode até ser. Os sambas-afros não estão nos meus planos, por enquanto não.

Além da música, na sua opinião qual legado maior que seu pai lhe deixou?
Eu acho que a maior coisa que ele me ensinou como músico, além de ser um escravo do instrumento, é que a música sempre será maior que o músico. Aquele que achar o contrário, vai estar começando mal. E ele era uma pessoa firme e quando se propunha a fazer alguma coisa ele procurava fazer da melhor maneira possível.

Serviço
- O disco ''Aperto de Mão'' pode ser adquirido também pelo site www.robdigital.com.br

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