DISCO - Mostruário precioso
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terça-feira, 14 de outubro de 2003
Antônio Mariano Júnior<br> Reportagem Local 
O caminho sinalizava para uma promissora trajetória como concertista. Chegou até a se apresentar como solista da Orquestra Municipal de São Paulo, na década de 60. Daí, outras frentes de atuação se insinuaram e Zé Miguel Wisnik acabou seguindo em direção à pluralidade. Acontece que o tempo sempre acaba por ajustar os caminhos e em seu terceiro disco-solo, o cantor e compositor paulista viu-se novamente, frente a frente, com o piano na condição também de instrumentista em ''Pérolas aos Poucos'' título do álbum, que sai pelo selo Maianga. ''O piano é um instrumento com o qual tenho uma longa história e no qual componho. Nunca o tomei como definidor, e sim como coadjuvante mesmo porque nem sempre há um estúdio com piano bom. Então, a tendência era passar a bola para outro instrumento. Neste disco quis definir a sonoridade em torno do piano'', disse Wisnki, em entrevista à Folha2
E um bom piano acabou sendo encontrado na Bahia, mais precisamente no Teatro Castro Alves, em Salvador. No nobre espaço soteropolitano, o disco começou a ser tocado adiante. Dez dias por aí de gravações, sob a supervisão de Flávio de Souza e Alê Siqueira, o produtor do disco. Os demais instrumentos poucos, na verdade foram registrados praticamente todos no estúdio Ilha dos Sapos, também em Salvador.
E assim , pouco a pouco, com calma, 14 faixas ''Sem Palavras'', instrumental, entre elas deram forma a ''Pérolas aos Poucos'', um trabalho acústico e, sobretudo, intimista. Piano e voz, basicamente mas não necessariamente. ''O piano deu unidade porque minha música passa por vários gêneros. Ele costurou essa diversidade'', analisa Wisnik. Autoral e preciso, o disco é delicadamente vigoroso. Ou vigorosamente sutil, como preferirem. ''Estou mais solto como cantor, mais feliz com meu canto'', diz ele.
E está mesmo. Longe das encanações que o acometiam outrora, quando precisava empunhar o microfone ou mesmo entrar em estúdio, Wisnik mostra segurança tanto como instrumentista quanto cantor embora esteja longe de ser considerado um estilista. O estofo interpretativo coube, por exemplo, a Caetano Veloso na releitura da poética ''Assum Branco'', gravada com certo brilho por Gal Costa no confuso ''Aquele Frexo Axé''.
Mas são vozes femininas as portadoras de graça e leveza, em todos os sentidos possíveis. Ná Ozetti, Jussara Silveira e Elza Soares algumas de suas ''cantoras-fetiches'' foram elevadas por méritos próprios a porta-vozes oficiais de ''Pérolas aos Poucos''.''Estou ligado à história delas. São cantoras com quem desenho cumplicidades. São meus talismãs'', brinca Wisnik. Ná sai à frente com duas canções: ''Primavera'' (anteriormente gravada por Edson Cordeiro) e ''Sem Receita'' (em parceria com a poeta paranaese Alice Ruiz).
Jussara Silveira escancara a alegria contida no disco em ''Baião de Quatro Toques'' (composta com Luiz Tatit), enquanto Elza, imensa Elza Soares, como sempre, arrasa em ''Presente'', um batuquê nada ortodoxo. Agora, delicadeza mesmo quem imprime é Luciana Souza em ''DNA'', uma das mais bonitas canções do disco em concorrência direta com ''Valsa Azul'' (parceira com Nelson Ferreira).
Como cantor, Wisnik mostra boa performancese encontra em ''Anoitecer'' (poema de Carlos Drummond de Andrade musicado por ele) e principalmente na deliciosa e instigante ''Sou Baiano Também'' com versos iniciais evocativos sustentados numa levada pós Bossa Nova ''foi Gilberto Gil que viu/ o sertão de Luiz Gonzaga/ virar praia e mar aberto de Caymmi/ sambaião no violão de João Gilberto''.
Claro, o disco agrega rigor melódico e literário. O refinamento é a marca principal, embora Zé Miguel Wisnik recuse a ser rotulado simplesmente como compositor elitista. Ok, o nome do disco remete, imediatamente a isso. No entanto, o argumento maior vem de uma frase da própria canção-título: ''solto nas notas da canção/aberta a qualquer coração/eu jogo pérolas ao céu e ao chão''. Para bom entendedor...
No entanto, Wisnik também professor de literatura da USP e ensaísta concorda que seu trabalho no todo padece de um alcance maior, a exemplo de outros artistas. Um dos motivos estaria, de acordo com seu raciocínio, na distribuição de seus discos. ''A distribuição ficou difícil e os selos só chegam a lojas específicas. As pessoas até sabem da existência do disco, mas não sabem onde procurar'', analisa.
A palavra sofisticação lhe soa melhor que elistista, embora não tome o último termo como pejorativo ou algo que o coloque acima do bem e do mal como autor de música brasileira.''Se eu tivesse surgido na década de 60 eu estaria perfeitamente encaixado na MPB. Eu viria no bolo dos que eram e continuam sendo sofisticados'', afirma com toda a propriedade.
Incensado como intelectual e gravado por intérpretes grandes como Alaíde Costa, Vânia Bastos, Gal Costa, Maria Bethânia, Cida Moreira, Edson Cordeiro além das ''cantoras-fetiches-talismãs'' Ná, Jussara e Elza , Zé Miguel Wisnik diz aguardar a oportunidade de ser requisitado também por Nana Caymmi. ''Eu adoraria ser gravado por ela. Tem cantoras que desenham a música, ela pinta'', avisa.
Wisnik é assim mesmo: gosta de distribuir pérolas a que souber merecê-las. Não à toa que seu novo disco seja uma espécie de mostruário precioso e necessário. ''Pérolas aos Poucos'' passa longe de um simples produto fonográfico em que se ajuntam canções voláteis. Se a canção popular desvairada gosta de ofertar bijuterias de encantos fáceis, Zé Miguel Wisnik prossegue cultivando, mesmo sem grandes alardes, verdadeiras pérolas musicais.


