Centenários sempre têm mais peso. Daí que os 90 anos de nascimento de Vinicius de Moraes, em 2003, foram marcados por muito falatório e poucos tributos respeitáveis. A mais sincera e coerente alusão à data ao menos musicalmente veio de uma amiga muito particular do poeta e compositor: a cantora Miúcha. Que também se mostra desapontada com a falta de reverências maiores a um dos homens mais importantes do Brasil. ''Ele (Vinicius) merecia muito mais. Merecia, inclusive, uma homenagem do Itamaraty que o exonerou'', disse ela referindo-se à aposentadoria compulsória, em 1968, por parte do Ministério das Relações Exteriores, que afastou Vinicius de Moraes da carreira diplomática exercida durante 26 anos em vários países.
A alfinetada é merecida. Mas o negócio é o seguinte: a intérprete carioca ainda está em fase de divulgação de ''Miúcha canta Vinicius & Vinicius''. Lançado no final do ano passado, o álbum atenua algumas expectativas por conter apenas músicas e letras escritas pelo ''poetinha''. Miúcha sublinha o compositor por completo e não apenas o letrista de inúmeros parceiros Tom Jobim, por excelência, e Toquinho com quem resvalou, algumas vezes, em produções meramente comerciais como ''Cotidiano nº 2'' (aquela da ''loteca com a patroa'').
No disco, Miúcha enaltece Vinicius em 14 faixas, das quais duas inéditas. ''É uma injustiça esquecer essa faceta de Vinicius. Ele se aventurou por vários gêneros e todos tinham raízes muito brasileiras. Se não tivesse encontrado parceiros maravilhosos, provavelmente comporia muito mais sozinho'', argumenta ela.
Idealizado pelo compositor Paulo César Pinheiro e executado pelo competente produtor José Milton, ''Miúcha Canta Vinicius & Vinicius'' se vale de preciosa pesquisa de repertório. Na garimpagem, Miúcha e companhia encontraram pepitas como ''Encontro à Tarde'', registrada originalmente, em 1965, um por certa cantora chamada... Hebe Camargo.
As boas descobertas são as inéditas ''Georgiana'' (escrita em inglês) e ''Quem for Mulher Que me Siga''. A primeira, encontrada entre as correspondências da filha de Vinicius, homenageada na música um country despretensioso. A segunda, uma gravação caseira guardada por Cyva, integrante do Quarteto em Cy feita para um bloco de carnaval na Bahia, na década de 70. Preciosidades não necessariamente deslumbrantes.
Fato raro, as regravações se sobressaem. Miúcha juntou-se a bons músicos e arranjadores (Cristóvão Bastos, Helvius Vilela, Eduardo Souto Neto e Leandro Braga). Bem cercada, Miúcha não tinha como atravessar o samba. Nem a valsa, a toada, o frevo, o country, nenhum estilo. Comparece inteira, verdadeira e segura como uma grande intérprete deve ser e ela é! Por motivos muito especiais, afinal trata-se da leitura de obras do amigo, Miúcha certamente evocou boas e saudosas lembranças ao colocar voz em cada uma das faixas. Acabou por oferecer versões incomparáveis até mesmo a canções mais conhecidas de Vinicius de Moraes, como ''Medo de Amar'' em que divide o microfone com o irmão Chico Buarque. Taí o momento mais tocante.
O clã Buarque de Hollanda também é representado por Bebel Gilberto a quem coube a honra e retribuição à tamanha gentileza de abrir o disco com a mãe na deliciosa ''Tomara''. Outros ilustres foram convocados. Toquinho passa quase batido em ''Canção de Nós Dois'' e Zeca Pagoginho, como sempre travado, dá o ar da graça na ingênua ''Teleco-Teco''. Falastrão e petulante, mas exímio violonista Yamandú Costa dá show de bola com Miúcha, ex-senhora João Gilberto, em ''Valsa de Eurídice'' tão bonita essa música...
Caso à parte: Daniel Jobim, neto de Tom. ''Pela Luz dos Olhos Teus'' vem envolta em reminiscências, a começar pelo arranjo original adaptado por Eduardo Souto Neto. A música, incluída no primeiro e antológico disco de Miúcha, em 1977, foi novamente registrada no mesmo estúdio, ao mesmo piano e sob a supervisão do mesmo técnico de gravação da época, Mário Jorge.
Grande chamariz comercial do disco não comercialesco, longe disso, por favor , ''Pela Luz...'' foi responsável pelo aproximação de Miúcha com o grande público ao ser escolhida como tema de abertura da novela ''Mulheres Apaixonadas''. No disco, Daniel faz as vezes de Tom e... puxa, que timbre de voz semelhante! ''Daniel é um ótimo compositor também. Ele carrega uma carga pesada de cobrança pelo fato de ser neto do Tom. Mas é melhor ser neto do Tom do que do Maluf'', brinca Miúcha.
O conhecido bom humor e generosa gargalhada da cantora não se alteram nem mesmo quando indagada sobre o que Vinicius de Moraes representou para ela, tanto profissional como pessoalmente. ''Puxa, é tão difícil... Ele me ensinou a beber uísque sem ficar de porre. É simples: cada gole, um gole de água'', diverte-se. ''O Vinicius me ensinou também que a música é o maior barato que existe. Tive sorte de ter recebido tantas gentilezas dele. Tenho certeza que ele está no céu cuidando da gente'', complementa.
Amor e respeito estão em ''Miúcha canta Vinicius & Vinicius''. Mais que tributo, um belo e histórico disco que faz jus ao nome da gravadora: Biscoito Fino.

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