DISCO - Memórias musicais à tona
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sábado, 04 de outubro de 2003
Nelson Sato<br> Reportagem Local 
A intenção era vasculhar o baú da música brasileira para pinçar clássicos do cancioneiro popular. A pesquisa acabou proporcionando, involuntariamente, uma viagem pelas memórias da infância. Canções antigas, registradas nos primórdios do século passado, vieram à tona junto com as circunstâncias em que foram ouvidas no toca-discos da mãe.
Melodias e lembranças misturaram-se durante a gestação do CD ''Uma Canção Pelo Ar...'', novo trabalho da cantora Cida Moreira, que acaba de chegar às lojas pelo selo carioca Kuarup. ''É meu disco mais pessoal'' afirma ela, em entrevista, por telefone, à Folha2. Um dos destaques do repertório é a modinha ''Si Te Adoro'', de autor anônimo, recolhida por Mário de Andrade em sua célebre documentação sobre a música produzida no período imperial.
O álbum inclui outra modinha, ''Casinha Pequenina'', talvez a mais cantada e gravada de todos os tempos. Traz ainda o choro ''Pedacinhos do Céu'' (de Waldir Azevedo e Miguel Lima); a valsa ''Lampião de Gás'' (Zica Bergami); as toadas ''Chuá Chuá'' (Pedro de Sá Pereira e Ary Pavão) e ''Estrada do Sertão'' (João Pernambuco e Hermínio Bello de Carvalho); os sambas-choros ''Tarzan, o Filho do Alfaiate'' (Noel Rosa e Vadico) e ''Quem É'' (Custório Mesquita e Joraci Camargo); as canções ''Leilão'' (Hekel Tavares e Joraci Camargo) e ''Canção do Amor'' (Villa-Lobos e Dora Vasconcellos); e o samba ''Prova de Carinho'' (Adoniran Barbosa e Hervé Clodovil).
Escapando ao conceito do disco, Cida Moreira regravou a bossa ''Se Todos Fossem Iguais a Você'', de Tom Jobim e Vinícius de Moraes. E para sintetizar o repertório, garimpou a desconhecida ''Tempo e Artista'' no álbum ''Paratodos'', de Chico Buarque. Na entrevista que segue, a cantora fala do novo trabalho e de seu projeto dedicado ao cantor e compositor norte-americano Tom Waits. No final, fala com mágoa de Londrina, onde passou boa parte da adolescência.
O seu novo CD, ''Uma Canção Pelo Ar...'', privilegia músicas antigas incluindo até uma modinha do século 19. Que idéias inspiraram a escolha do repertório?
A idéia é antiga também. Há quatro anos, fui convidada para fazer um espetáculo com canções das décadas 20, 30 e 40 do século passado. Fiz um levantamento e comecei a me lembrar de músicas que ouvia na infância, em casa, através dos discos de minha mãe. Durante a pesquisa, encontrei o livro de Mário de Andrade com as modinhas, que são os primeiros registros de música brasileira que se conhece. São composições do período imperial, bem anteriores a Chiquinha Gonzaga, e que trazem influências de música francesa e portuguesa. Quando terminei o levantamento, tinha um repertório de mais de 40 canções. Aí selecionei algumas e montei o espetáculo. O disco é resultado da temporada de shows e, como os álbuns anteriores, este também é o final do processo. Sempre quando entro no estúdio para gravar, já cantei o repertório no palco.
Você deu um tratamento camerístico às canções. Chegou a pensar em modernizar os arranjos?
Tive a preocupação de não fazer uma releitura modernosa. É um caminho longo que você percorre. Primeiro você enche a música, depois esvazia. Procurei tirar os excessos, optando por um tratamento minimalista. O Gil Reyes (diretor musical, arranjador e instrumentista) não queria nada que soasse modernoso, mesmo porque as músicas são contemporâneas e não precisam de roupagem para soarem atuais. A modinha ''Si Te Adoro'', recolhida por Mário de Andrade, poderia ser composta no mês passado. Ninguém precisa meter a colher naquilo que é perfeito. Eu apenas canto, entregando-me a canções que retratam minha memória pré-profissional, porque esse é um disco pessoal, o mais pessoal que já fiz. Infelizmente, tive que escolher apenas 13 músicas, mas acredito que consegui apresentar um painel razoavelmente bacana da música brasileira pré-moderna.
As exceções são ''Se Todos Fossem Iguais a Você'' (1956), do Tom Jobim e Vinícius de Moraes, e ''Tempo e Artista'' (1993), do Chico Buarque.
''Se Todos Fossem Iguais a Você'' é a composição mais nova do disco, tirando a do Chico, que escolhi propositalmente para fechar o repertório como uma síntese do CD e da minha visão sobre o trabalho do artista. Essa faixa espelha o meu estado atual da minha condição como artista no Brasil onde você faz, faz e parece que nunca fez nada. Esse é um dado da realidade que procuro sublimar de forma poética. Neste país, as pessoas estão dispostas a desqualificar em vez de qualificar. As pessoas não têm memória, só consomem o que lhes é dado de graça, e é tudo da pior qualidade. A verdadeira cultura brasileira está debaixo do pano.
Você já gravou um álbum só com músicas do Chico Buarque, que está presente também em quase todos os seus discos...
O Chico está presente em minha vida, e não só nos discos. Em 1977, ele escreveu o espetáculo ''Ópera do Malandro'' e eu participei da montagem original. Chico é nosso melhor compositor de música, teatro, cinema e balé. É o Kurt Weill brasileiro. Gostaria de dedicar muitos discos a ele. Chico, Tom Jobim e Kurt Weill são compositores que gravarei a vida inteira.
O Arrigo Barnabé também costuma ser associado pela crítica ao seu trabalho.
Ele é a outra ponta. É a própria modernidade, o moderno e não o modernoso. Nos conhecemos na adolescência em Londrina, onde frequentávamos o mesmo conservatório musical. Na semana passada, apresentamos com muito sucesso a ópera ''O Homem dos Crocodilos'', em Buenos Aires. Agora vamos levá-la à França e depois ao Chile.
Paralelamente, você está apresentando um show só com músicas do compositor norte-americano Tom Waits. É o projeto de seu próximo disco?
Fiz a estréia desse show em Buenos Aires. Fui com a ópera e acabei recebendo convite para apresentar também o show com as músicas do Tom Waits. Agora vou mostrá-lo no Rio de Janeiro e depois no Chile. O Tom Waits é da mesma vertente do Kurt Weill, mas pega meu lado pop. Devo gravar o repertório do show em meu próximo disco. Minha vida, na verdade, não é o disco. É o palco.
Você está envolvida em outros projetos atualmente?
Em janeiro do próximo ano, vou dirigir um musical sobre Adoniran Barbosa. O espetáculo vai fazer parte da programação comemorativa dos 450 anos da cidade de São Paulo. Estive trabalhando também para o cinema. No começo do ano atuei no longa ''Eclipse Solar'', dirigido por Herbert Broedl e cujas filmagens foram feitas na Amazônia. Ele deve estrear na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que acontece este mês.
Você tem algum show marcado para o Paraná para promover o novo CD?
Estive em junho em Curitiba. De Londrina, onde vivi muitos anos, não recebi nenhum convite até agora. Há pouco tempo, alguém ligou para sondar a possibilidade de eu cantar num evento ligado à preservação do Rio Tibagi. Perguntaram sobre meu cachê, e não deram mais retorno. Eu, Arrigo e o finado Itamar Assumpção (1949-2003) nunca fomos valorizados como deveríamos aí na região. A cidade nunca nos deu a menor bola. Santo de casa não faz milagre. Nosso amor por Londrina é solitário, de mão única.


