Toda megabanda padece de crises de rumo. Ao atingir o topo, muitas se vêem em declínio artístico, ao qual se sucedem guinadas malsucedidas, conflitos entre seus integrantes e o inevitável racha.
Os irlandeses do U2 nunca, pelo menos aparentemente, foram ao fundo do poço por causa do estrelato. Mas sua música deixou, há um bocado de tempo, de provocar o mesmo impacto dos anos 80. Talvez por isso, Bono Vox e seus asseclas venham apregoando uma volta às origens, após flertar com a eletrônica.
O novo álbum, ''How To Dismantle An Atomic Bomb'' (Universal), tenta retomar o antigo fôlego em faixas como ''Yahweh'', ''Original of the Species'' e ''Miracle Drug''. A tentativa, porém, apenas reforça a impressão de que o U2 mesmo soando a U2 já não basta para entusiamar os velhos sócios do fã-clube da banda.
Há até quem já implique com os vocais intensos de Bono Vox e os riffs contagiantes de The Edge, rejeitando-os em bloco sob o estigma de ''superados''. Outros perderam a sintonia com banda, arrastados pela frenética renovação de grupos e tendências do pop mundial, ainda que continuem respeitando a integridade do grupo e o ativismo do vocalista.
Mas esta é uma opinião entre outras. O novo disco tem recebido elogios aqui e ali, sendo saudado pelo New York Times como o melhor trabalho de toda a trajetória do grupo. Já o resto é marketing, uma propaganda avassaladora que infestou o noticiário nos últimos meses, começando por um suposto roubo de centenas de cópias do CD, antes de seu lançamento.
A badalação prosseguiu com pré-vendas pela Internet, abertura de lojas à meia-noite exclusivamente para comercializar o CD, além de apresentações grátis da banda em parques de Nova York. Também para promover o trabalho, foi selada uma parceria com a Apple para lançar uma edição temática do iPod (MP3 player da corporação multinacional), dedicada ao grupo.
O produto, que custa vinte libras a mais que a edição normal, vem carregado com as faixas de ''How To Dismantle An Atomic Bomb'', mais uma seleção de músicas do catálogo dos irlandeses. Ainda em torno do álbum, um segundo single promocional será lançado em fevereiro. A canção escolhida foi ''You Can't Make It On Your Own'', escrita em homenagem ao pai de Bono Vox, que morreu há três anos vítima de câncer.
O single virá acompanhado de um remix de ''Ave Maria'', cantado por Bono e o tenor Luciano Pavarotti. Além desse lançamento, o primeiro semestre de 2005 será intensificado com uma turnê mundial, prevista para passar pelos Estados Unidos, Europa e Japão totalizando cerca de 80 shows. Também estão programadas ''aparições'' em diversos programas da TV americana, incluindo seriados como ''CSI'' e ''The O.C.''.
No Brasil, o disco saiu em duas versões: uma delas, especial, trouxe um DVD bônus com o documentário ''U2 and 3 Songs'' (de 19 minutos), que inclui comentários da banda sobre três músicas e vídeos das faixas ''Vertigo'', ''Sometimes You Can't Make It on Your Own'' e e ''Crumbs From Your Table''. A versão normal do CD, por sua vez, não saiu da fábrica tão normal.
Numa falha inacreditável, a faixa ''Fast Cars'' foi limada no processo de prensagem das cópias, embora apareça listada na contracapa do CD. Aos que ainda mantêm veneração pelo grupo, recém-eleito ao Hall da Fama, a MTV está anunciando um especial de 30 minutos com uma entrevista inédita de Bono e sua turma. Vai ao ar no próximo dia 6, às 22h30.

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