Por vários motivos, o sucesso que acompanhou os Beatles no incrível ano de 1965 não tem parâmetros no mercado de música hoje. Antes de enumerá-los, importa saber que as provas do fenômeno estão reunidas no segundo volume da série The Capitol Albums (EMI), que chega agora às lojas brasileiras.
São os quatro álbuns do grupo lançados nos Estados Unidos naquele ano: ''The Early Beatles'', ''Beatles VI'', ''Help! Original Motion Picture Soundtrack'' e ''Rubber Soul''. Nenhum deles corresponde a qualquer um dos originais britânicos e nem tinham saído em CD nos EUA ou no Brasil (o VI já ganhou versão digital até na Rússia).
Qual grupo hoje teria cacife para emplacar quatro álbuns no mesmo ano (afora os singles) e vender 8 milhões de exemplares? Pois metade desse número corresponde apenas a ''Rubber Soul''; 3 milhões foram de ''Help!'' e os outros dois venderam 1 milhão cada. E só nos Estados Unidos. Mais espantoso é saber que a edição americana de Rubber Soul atingiu essa marca sem dois de seus maiores hits, ''Drive my Car'' e ''Nowhere Man'', suprimidos da versão original com outras duas faixas.
Esse procedimento era tão comum na época quanto trocar os títulos, a ordem das faixas e até a foto da capa dos LPs. A Capitol representava o quarteto nos EUA (sua gravadora na Inglaterra era a Parlophone) e seus executivos não vacilavam em mutilar os álbuns, reservando faixas de peso, como as citadas acima, para lançar posteriormente em singles. A demanda provocada pela beatlemania permitia esses caprichos, sem risco de fracasso.
Além do mais, John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr, pressionados pela gravadora, produziam em série canções que não tinham o objetivo de compor um álbum com conceito. Isto só veio mudar a partir de Rubber Soul, quando eles tomaram a rédea da situação. Antes disso foram até objeto de disputa judicial nos EUA entre a Capitol e um sujeito conhecido como Vee-Jay, que adquiriu os direitos das primeiras gravações dos Beatles em 1963. Por conta desse imbroglio, o material originalmente lançado em ''Please Please Me'' ficou impedido de ser lançado por um bom tempo.
Quando a Capitol ganhou a causa, aquelas canções já estavam velhas. Daí o título ''Early Beatles'', que reúne hits como ''Twist and Shout'', ''Love me Do'' e ''Baby, it's You''. Essa e outras histórias estão muito bem contadas no luxuoso encarte, com fotos inéditas, que acompanha a caixa. Outro atrativo são as capas em formato que imita as dos LPs, salvo a evidente desvantagem do tamanho e o fato de Help! não vir com a bela capa dupla original. Cada faixa aparece em duplicata nos CDs, em versões estéreo e mono.
Beatles VI tem ''Kansas City'', ''Eight Days a Week'', ''You Like Me too Much'' e um monte de faixas obscuras, que dão um gosto de ineditismo (quer dizer, não para os fanáticos). A faixa-título de ''Help!'' vem com aquela introdução exclusiva da trilha, que alterna hits da hora como Ticket to Ride e I Need You e versões instrumentais de outros anteriores (''A Hard Day's Night'', entre eles), já evidenciando descobertas recentes de Harrison. Foi durante as filmagens de Help! que o guitarrista tomou contato com a música indiana. Em breve abriria corações e mentes para outras linguagens no pop-rock ao tocar cítara em ''Norwegian Wood (This Bird Has Flown)'', um dos picos do álbum seguinte, ''Rubber Soul''.
Há quem considere as duas versões (a britânica e a americana) igualmente boas e são, como quase tudo dos Beatles , mas é quase uma heresia mexer no original. A Capitol teve a manha de substituir ''Drive my Car'' (nada menos que a faixa de abertura) por ''I've Just Seen a Face'', lado B do ''Help!'' britânico, por considerar um hit potencial. De lá também pinçaram ''It's Only Love'' para abrir o lado 2. Afora isso, o resto, felizmente, permaneceu intacto. Afinal é o álbum que tem Michelle, ''In my Life'', ''Girl'' e ''You Won't See Me''.
Se nos shows os Fab Four já não se importavam em tocar a nota certa, porque ninguém entre as histéricas beatlemaníacas iria notar mesmo, no estúdio a carreira passava então a tomar direção mais segura. Eles se aprimoraram técnica e musicalmente, experimentaram novos sons, amadureceram. Em suma, ''Rubber Soul'' foi o começo de uma nova e ainda mais incrível história.

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