Curitiba ''E se não tivesse o amor? Se não tivesse essa dor? Se não tivesse o sofrer, se não tivesse o chorar. Melhor era tudo se acabar''. Os versos de ''Consolação'', música de Bodew Powel e Vinícius de Moraes que abre o disco do cantor e compositor Jards Macalé, interpretados pelo próprio, já remetem ao termo que o músico carioca quer ver introduzido ao lema da bandeira nacional. O termo completo que ele gostaria, aliás, dá nome ao CD, ''Amor, Ordem & Progresso'', lançado pela gravadora Lua Discos, e se estende por boa parte das 12 canções que integram o álbum.
A novidade é que o trabalho não traz apenas músicas compostas por Macalé, mais conhecido pelo seu trabalho de compositor. Apenas quatro músicas são assinadas por ele, duas em parceria com Xico Chaves (''Canção Singela'' e ''Pano pra manga'') e uma em parceria com o amigo Capinan (''Meu amor, me agarra & geme & treme & chora & mata''). O motivo ele explicou em entrevista, por telefone, à Folha: ''É mais fácil gravar outros autores, a música já está pronta e você vai encontrando a forma de dizer.''
Mas não foi por encontrar o caminho mais fácil que o compositor, cantor, violonista, arranjador e ator decidiu gravar o disco. Projeto do sambista Moacyr Luz, ''Amor, Ordem & Progresso'' nasceu de uma proposta anterior para gravar um CD em homenagem ao músico Newton Mendonça, que foi parceiro de Tom Jobim. O trabalho já tinha até título (''Nil Tom'') quando a dupla descobriu que já havia sido lançado projeto semelhante.
Ainda assim, Macalé e Luz não desistiram da parceria, iniciada em 2001 com o álbum ''Macalé canta Moreira'' (também pela Lua Discos e produzido por Luz), um tributo a Moreira da Silva. Mas o jeito era encampar outra proposta e escolher novo repertório. E como algumas músicas do antigo projeto não saiam da cabeça da dupla, uma foi mantida. ''Foi a noite'' (Tom Jobim e Newton Mendonça'') é a segunda faixa do disco e uma das quer Macalé mais gosta, conforme confessa.
Daí em diante, o acaso comandou a escolha do repertório do novo trabalho. ''Como a música falava de amor, decidimos fazer um disco de amor'', conta. E amor lembrou Noel Rosa, que lembrou a campanha para reintroduzir o termo ao lema positivista da bandeira nacional. Por isso, uma das músicas que integram o disco é ''Positivismo'' (Noel Rosa e Orestes Barbosa), que diz: ''o amor vem por princípio, a ordem por base e o progresso é que deve vir por fim'', versos repetidos por Macalé e que deram nome ao CD. ''O importante mesmo é o amor, por isso estamos empenhados nessa nossa campanha cívica'', revela o músico.
Campanha que ele pretende levar na bagagem em sua trajetória para divulgar o novo álbum. ''Amor, Ordem & progresso'' é o nono disco em mais de 30 anos de carreira do músico. ''Acho um número suficiente. Poderiam ser 1 mil ou 200, mas cada um tem seu lugar'', salienta Macalé, complementando: ''Minha forma de cantar e compor não cabe na estética do rádio e televisão, mas sou um músico profissional e por isso mesmo não vou me render a determinadas fórmulas''.
O novo CD é lançado no ano em que Macalé completou 60 anos (em março). Jards Anet da Silva viveu desde cedo em meio à música e chegou a trabalhar como copista do maestro Severino Araújo. O apelido ''Macalé'' ele ganhou dos amigos nos anos 60 numa alusão ao pior jogador do Botafogo da época, já que o compositor também nunca teve um bom desempenho no futebol.
E antes mesmo de gravar seu primeiro disco (''Jards Macalé'' lançado em 1972), Macalé dirigiu um show para Maria Bethânia e teve suas músicas gravadas por ícones da música popular como Gal Costa, Clara Nunes e a própria Bethânia. Seu segundo disco, lançado em 1973, era um tributo de vários artistas para comemorar o 25º aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos, mas o álbum foi censurado e só saiu anos mais tarde. Em 1974, Macalé lançou o LP ''Aprender a Nadar'', apresentando a linha de morbeza (morbidez + beleza) romântica do parceiro Waly Salomão.
E é para Salomão, morto em maio deste ano, que Macalé dedica seu mais recente trabalho. A parceria ele pretende resgatar num disco a ser lançado no ano que vem. ''Encontrei 15 músicas que fiz com Wally Salomão e que vão integrar o disco'', conta. O trabalho já tem proposta de duas gravadoras para ser lançado, mas por enquanto Macalé prefere não comentar quais são e qual deve escolher.
O músico também pretende lançar no próximo ano, uma reedição pela gravadora Dubas do CD ''Contraste'', lançado no final da década de 70. Enquanto prepara os novos trabalhos, ele se dedica a divulgar o novo disco. ''Ainda não tenho agenda para voltar ao Paraná (ele fez um show há cerca de dois meses, no Espaço Cultural Beto Batata, em Curitiba), mas sempre tenho vontade de visitar o Estado, não é ser puxa-saco não'', brinca.
''Amor, Ordem & Progresso'' já pode ser encontrado nas lojas. ''O disco lembra o primeiro que eu gravei'', revela Macalé. A semelhança, conforme observa é por conta da versão ''reduzida'' da equipe. Em seu primeiro trabalho, Macalé também gravou com mais três músicos. No novo disco, seus parceiros são Arismar do Espírito Santo (baixo); Victor Biglione (guitarra e violão eletro-acústico) e Robertinho Silva (percussão).

Serviço
- ''Amor, Ordem & Progresso'', de Jards Macalé, lançado pela Lua Discos. Informações www.luadiscos.com.br. Preço sugerido: R$ 22,00.

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