DISCO - 'Livre', leve e bom
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terça-feira, 07 de outubro de 2003
Antônio Mariano Júnior<br> Reportagem Local 
Um elo a mais se funde à discografia de Jorge Vercilo. Que, no ano passado, foi saboreado pela mídia com ressalvas por alguns setores, é fato , mas principalmente pelo público que coçou o bolso para adquirir um dos mais bem-sucedidos produtos da indústria fonográfica brasileira isso numa época em que a pirataria atua à vista e à fuça de todos. Mesmo assim, a gravadora Emi azeitou sua máquina promocional para que ''Livre'', o novo disco, traga dividendos e consolide de vez a carreira de Jorge Vercilo.
Independente de marketing, o quinto álbum-solo do cantor e compositor carioca tem apelos naturais para seduzir admiradores e fãs da hora e tocar em emissoras de rádios com ou sem perfil definido. Isto porque em ''Livre'' houve alquimia exata para torná-lo um produto comercial e popular sem ser popularesco, rente ao chão. Pode não ser, assim, um ''Elo'', disco anterior com o qual conseguiu oficialmente vender 250 mil cópias, quantia considerável nos dias de hoje se levar em contar que os piratas da cara-de-pau reproduzem discos como coelhos e fisgam 60 por cento do mercado consumidor. No entanto, é proporcionalmente agradável e consistente quanto seu antecessor.
Em ''Livre'', Jorge Vercilo ratifica a vocação para baladeiro de primeira e interessante letrista ''aceite gostar de mim/ Não lute com o que mais quer/ Te espero sem fim/ Te venero assim/ As árvores morrem de pé'', diz o trecho de ''As Árvores''. As metáforas visuais são seu forte. Várias delas rogam por visibilidade e compreensão na maioria das faixas inéditas nove, na verdade, já que ''Contraste'' passou batida no disco de estréia da baiana Carla Regina.
De cara, quatro baladas daquelas para tocar nas FMs. ''Monalisa'', faixa de abertura, já sinaliza qual a direção do disco e junta força com a deliciosa ''Invisível''. ''Xeque-Mate'', com refinada intervenção de flamenco, ao lado de ''Ventania'' e sua elaborada estrutura sustentada em violão quase à síncope, são duas maravilhas do disco.
''Livre'' é entretenimento da mais alta qualidade em que Jorge Vercilo demonstra mais uma vez ter sotaque e solavanco próprios desfazendo-se, de vez, a associação agora injusta de seu estilo ao de Djavan.
''Livre'', enfim, é um disco assimilável. Mas com sustança. A seguir os principais trechos da entrevista que o cantor e compositor concedeu à Folha2
Com o disco anterior aconteceu o boom que faltava à sua carreira, com direito a disco de Ouro, de Platina, mídia a postos, reconhecimento, enfim. O ''Livre'', digamos, é uma prova de fogo?
Não sei. Acho que em nível de firmar meu nome na música brasileira de maneira forte eu acho que sim. Mas isso não significa que eu tenha um compromisso com mercado, mas sim um compromisso maior em firmar para o público a minha linguagem musical, minha vertente, minha personalidade.
Eu pergunto isso porque estar em evidência cria um pouco de expectativa em cima do lançamento...
É, existe uma expectativa porque trata-se de um dos artistas que mais venderam disco numa época em que a pirataria toma conta do mercado. Talvez pelo êxito do disco anterior, o ''Elo'', eu esteja me sentindo muito livre e à vontade para lançar esse trabalho, que mais uma vez reflete minha verdade. Estou muito contente. Mas creio que o maior êxito do novo disco seja o repertório.
Isso que eu ia lhe perguntar. Numa auto-crítica musical, nesse disco, você se posiciona como? Você ousou, consolidou, enfim, como você se autoanalisaria?
Esse disco é um passo à frente e muito largo em direção à minha própria personalidade musical, em direção às pessoas, principalmente às pessoas do seu meio, a imprensa, a crítica para que entendam melhor a música que faço. Eu faço uma MPB contemporânea que transita tanto pelo lado dos formadores de opinião como pelo lado pop. Esses disco não traz nenhuma ruptura, nenhum corte epistemológico em relação aos outros. Agora, ao mesmo tempo, é mais um passo em relação à minha característica, assinatura e estilo.
Ainda o incomoda a associação de estilo ao de Djavan?
Não me incomoda porque isso não existe mais para as pessoas que me ouvem. Existe, sim, o uso do nome dele ao falar de uma das minhas referências. Mas não é só ele. Além dele, há Milton Nascimento, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Fátima Guedes, Chico Buarque, Ivan Lins, enfim toda a MPB de qualidade. E tem muitos artistas internacionais como George Benson...
Desculpe lhe interromper. Mas para os ouvidos comuns ainda persiste a associação de seu nome ao de Djavan...
Eu discordo, aliás é a única que ressalva que faria a você até aqui. Essa associação ficou mais evidente para as pessoas da imprensa. A imprensa, de um modo geral, tem uma necessidade muito grande de conceitualizar e não priorizar o conteúdo. A imprensa bota em detrimento o conteúdo e prioriza o conceitual. Meu grande mérito não é o conceitual, é o conteúdo. Então, as pessoas que compram meus discos já ultrapassaram essa questão.
Vamos ao disco. Já é algo recorrente ao seu trabalho falar de amor através de uma ótica, digamos de cronista...
É por aí. Não me considero um autor ou um cantor romântico. A palavra ''romântico'' é algo forte, O romantismo faz parte de tudo e, claro, está em mim, Mas minha escrita, ao falar de amor, é muito lírica. Uso muita metáfora. Não me considero um cronista, acho que cronista mesmo é o Aldir Blanc.
Há duas faixas em versão remix. Pessoalmente você acha necessário, ou é apenas para atender a vontade do mercado atual, Jorge?
O remix é uma maneira de levar sua música a universos a que você não costuma ir, como boates e danceterias sem alterar a letra nem violentar a melodia. Ao contrário, apenas tem uma batida mais dançante e abrange um público maior sem adulterar sua obra.
Bom, você é o dono da obra! Depois do sucesso com o disco passado, como vai seu contrato com a gravadora Emi?
Eu tinha um contrato até o próximo disco depois do ''Livre''. Mas antes de entrar em estúdio, a Emi me procurou e se mostrou interessada em renovar o contrato para mais dois discos. Acredito que pelo resultado do trabalho e pelo meu contexto atual. Eu fiquei um pouco relutante, mas como prova de que estou contente com o trabalho que a Emi está fazendo comigo, sentamos e entramos num acordo e modificamos muitas cláusulas do contrato.
Principalmente a financeira?
Não, não. Eu te digo que isso nem foi o principal. É claro que conta, mas o financeiro vem como consequência. Não é positivo pegar uma cifra muita alta em adiantamento porque o artista acaba ficando preso pelo seguinte: o disco vende 150 mil cópias, o que é uma quantia boa hoje em dia e, em vez de comemorar, tudo mundo fica puto porque a expectativa e o dinheiro que você pegou adiantado eram para ser aplicados em cima de 400 mil cópias. Isso acontece muito com o mercado, até com o Michael Jackson e outros astros internacionais. Então, as cláusulas foram mexidas dentro de um equilíbrio bom tanto para o artista, no caso eu, quanto para a gravadora.
Disco ao vivo está nos seus planos?
Não. Detesto regravação e é uma coisa que combato dentro do mercado. Entenda bem: não é, por exemplo, você pegar uma música ''escondida'' do Chico Buarque, como ''Mar e Lua'' e gravar. Isso acho ótimo. Agora, pegar músicas desgastadas... Imagina eu, agora, pegar ''Que Nem Maré'' e cantar de novo. Isso seria uma postura covarde em relação ao mercado e à minha carreira. Você acaba tirando espaço para composições de novos autores. A música brasileira andou num marasmo por causa dessa cultura da regravação. Não quero generalizar, mesmo porque quem sou eu para condenar o que os outros fazem. Mas para mim não serve.


