Evan Dando desenferrujou. Depois de uma longa hibernação, o ex-vocalista dos Lemonheads reapareceu com uma nova coleção de canções, desta vez reunidas em seu primeiro álbum-solo.
O disco, ''Baby I'm Bored'', segue a linha de sua antiga banda combinando melodias do fundo do coração com arranjos acústicos. A levada folk predomina, mas às vezes treme, sacudida pelas guitarras.
A faixa de abertura, ''Repeat'', é daquelas que merecem entrar em coletâneas caseiras gravadas para animar festas indies. Pontuada por vozes dobradas e riffs rangendo ao fundo, poderia explodir nas FMs brasileiras caso figurasse em trilha sonora de novela da Globo.
Mas ''Repeat'', ao lado das boas ''Hard Drive'' e ''Shots is Fired'', não são suficientes para aplacar os primeiros bocejos do ouvinte durante a audição integral do CD. E não adianta ele cantar ''Não escute o que eu digo / Ouça você mesmo'', em ''Stop My Head'', a penúltima faixa. A essa altura, já tombamos no travesseiro.
No exterior, entretanto, o álbum tem colhido elogios entusiasmados da crítica a ponto de ser eleito o disco do mês por publicações de prestígio como Mojo e Uncut. As sessões de gravações foram feitas entre Los Angeles, Nova York e Tucson (no Arizona), com produção de Bruce Goggin e John Brion.
No estúdio, Dando contou com a colaboração de sua turma de amigos, entre eles Ben Lee, Howe Gelb, Arthur Johnson, John Convertino, Joey Burns (do Calexico), Chris Brokaw (guitarrista do Come e baterista do Codeine), Royston Langdon (ex-Spacehog) e Tom Morgan (velho parceiro dos Lemonheads). Antes de iniciar o projeto, o artista já havia pulado do casulo dando as caras aqui e ali.
Seu último disco com os Lemonheads, ''Car Button Cloth'', é de 1995. Durante o período inativo, surgiram rumores de que o cantor estaria viciado em heroína, mergulhado no fundo do poço. Sua trajetória favorecia a boataria, afinal ele jamais escondeu sua adesão às substâncias ilícitas. ''Nunca vou recomendar o uso de drogas, mas não vou me desculpar ou deixar de viajar por nada deste mundo'' afirmou, certa vez, numa entrevista à Rolling Stone.
Dando tinha fama de junkie inofensivo. Com os Lemonheads, lançou 7 álbuns. Despontou durante o verão grunge, no começo da década de 90, embora não fizesse parte da turma de Seattle e adjacências que celebrou o rock encardido através de bandas Nirvana, Pearl Jam e Mudhoney. Os Lemonheads faziam o contraponto folk-pop com canções adocicadas e alguma saudade do pó das garagens.
Na época, conquistaram as adolescentes gravando covers de Suzanne Vega (''Luka''), Simon & Garfunkel (''Mrs. Robinson'') e até New Kids on the Block (''Step by Stpe''). Dando era o queridinho da mídia pop norte-americana. Chegou a ser eleito um dos 50 homens mais bonitos da América pela revista People. A imagem era a do garoto fotogênico que brincava com drogas pesadas.
Em 1994, ele e a banda desembarcaram no Brasil para participar do M2000 Summer Concerts, festival das praias que durou só uma edição. Depois do hype, o grupo foi extinto e Dando caiu no ostracismo. Em 2001, ele deu sinal de vida participando do disco da volta dos Blake Babies, outro grupo surgido durante a explosão grunge e que andava mocozado.
Na mesma temporada, participou de um tributo ao compositor Lee Hazlewoood, além de cantar e numa faixa de um álbum do trilheiro e arranjador Craig Armastrong. No ano passado, finalmente, ele lançou um single com as faixas ''Dead or Anything'' e ''Love Song'', que saiu apenas na internet pela pequena gravadora australiana Trifekta.
As duas canções já vinham no formato voz-e-violão que daria o tom de seu primeiro álbum-solo. A boa notícia para os fãs é que ''Baby I'm Bored'' chegou às prateleiras brasileiras pela gravadora Trama.

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