DISCO - ...e palmas para João
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sábado, 22 de maio de 2004
Antônio Mariano Júnior<br> Reportagem Local 
Vinte e cinco minutos. Sabe lá o que são vinte e cinco minutos ininterruptos de aplausos. João Gilberto sabe e por isso mesmo permitiu que fosse lançado em disco ao vivo uma das três apresentações que fez no Japão. Por uma questão de bom senso, a saraivada de palmas não foi registrada no CD ''João Gilberto in Tokyo'', que chega às lojas pela Universal Music. Mas é possível ouvir o registro límpido e na íntegra do episódio histórico ocorrido no dia 12 de setembro do ano passado, no Tokyio International Forum Hall.
É uma espécie de troca de gentilezas já que João Gilberto foi de encontro ao público de seus sonhos. Ou seja, além de admiradores da Bossa Nova e da boa música brasileira, os japoneses são reverentes, contemplativos, com boa formação e informação musical e, sobretudo, corretos nas manifestações de apreço palmas na quantidade certa, em outras palavras. Por sua vez, o expoente máximo do mais importante movimento musical brasileiro se desmancha em gentilezas àquele público e povo tão especial logo na abertura do disco um anasalado, porém simpático ''Kon-ban-wa'' (boa noite, em japonês).
E dá-lhe canções. Quinze longas faixas que ancoram-se em peças de Dorival Caymmi, Tom Jobim e Ary Barroso, autores recorrentes em sua discografia. Aos não iniciados, trata-se de mais um disco de João Gilberto ''Aquela coisa de sempre'', dirão os imbecis. De fato, o repertório traz canções batidas sim, ''Wave'' está lá , mas quem de fato aprendeu a ouvir e comparar as performances de João Gilberto a cada lançamento vai se deleitar.
O violão de João ainda faz a diferença. O intérprete eis a melhor definição para o dito cujo refaz frases musicais, quebra compassos, experimenta variações harmônicas, suprime pequenas expressões das letras e... consegue se superar e fazer um novo (com ou sem aspas) disco com repertório conhecido quase todo compreendido, por exemplo, em ''Eu seu que vou te amar'', álbum ao vivo lançado há exatos dez anos.
''João Gilberto in Tokyo'' traz duas canções até então não apreendidas pelo mito baiano. A primeira e a boa surpresa é a inclusão de ''Lígia'' (Tom Jobim) com a pouco conhecida versão original: ''Eu nunca te telefonei, para que se eu sabia/ Eu jamais tentei e jamais ousaria/ As bobagens de amor que outro vai te dizer/ Sair com você de mãos dadas na tarde serena'', diz um trecho da letra que pode ser conferida nesta página.
Outro destaque é o gravação de ''Louco'' (Henrique de Almeida/Wilson Batista) em que João dá uma intepretação lânguida a uma bela canção do passado não para ele, cujas predileções ganham vigor ao som do lamento do seu violão. Aliás, João está um doce de pessoa no disco e permite-se entregar à sonoridade de versos de ''Acontece que eu Sou Baiano'' (Dorival Caymmi) ou mesmo na antológica ''Bolinha de Papel'' (Geraldo Pereira). Encerra a sessão, lá pelas tantas, com ''Aos pés da cruz'', uma das preferidas do artista e uma daquelas canções que não sofreram modificações maiores nas incontáveis gravações.
Agora, o tempo passa e ''Doralice'' (Antônio Almeida-Dorival Caymmi) não envelhece, assim como não há como se conformar se nos próximos discos João Gilberto não incluir um de seus melhores planejamentos sonoros: ''Pra quê discutir com madame?'' (Janet de Almeida-Haroldo Barbosa).
Taí, o grande barato do disco! Ou um dos baratos a que se refere Kazufumi Miyazawa, vocalista da banda de rock The Boom (ele é cantor e não cantora, como se refere o material de divulgação). ''Para mim, ele é equivalente ao Brasil'', escreveu o roqueiro japonês. Acontece que João Gilberto equivale a um Brasil que deu certo há muito tempo!
REPERTÓRIO
- Acontece Que Eu Sou Baiano (Dorival Caymmi)
- Meditação (Tom Jobim e Newton Mendonça)
- Doralice (Antônio Almeida e Dorival Caymmi)
- Corcovado (Tom Jobim)
- Este Seu Olhar (Tom Jobim)
- Isto Aqui o Que É? (Ary Barroso)
- Wave (Tom Jobim)
- Pra Que Discutir com Madame? (Janet de Almeida e Haroldo Barbosa)
- Lígia (Tom Jobim)
- Louco (Henrique de Almeida e Wilson Batista)
- Bolinha de Papel (Geraldo Pereira)
- Rosa Morena (Dorival Caymmi)
- Adeus América (Geraldo Jaques e Haroldo Barbosa)
- Preconceito (Marino Pinto e Wilson Batista)
- Aos Pés da Cruz (Marino Pinto e Zé da Zilda)
Lígia
Eu nunca sonhei com você, nunca fui ao cinema
Não gosto de samba, não vou a Ipanema
Não gosto de chuva, nem gosto de sol
Eu nunca te telefonei, para quê se eu sabia
Eu jamais tentei e jamais ousaria
As bobagens de amor que outro vai te dizer
Sair com você de mãos dadas na tarde serena
Um chope gelado num bar de Ipanema
Andar pela praia até o Leblon
Eu nunca me apaixonei, eu jamais poderia
casar com você
Fatalmente eu iria sofrer tanta dor
Pra no fim te perder
(Letra original de ''Lígia'', de Tom Jobim, registrada no disco ''João Gilberto in Tokyo)


