A bela voz já proporcionou pão, circo, poesia e até se deixou deslumbrar no universo eletrônico. Pintou, bordou e chuleou nuances incríveis em peças populares e eruditas. Arrancou e continua arrancando elogios eloquentes, inclusive no exterior. O jornal alemão Die Tageszeitung lhe sapecou as seguintes palavras: ''O que ele faz com a sua voz quebra as barreiras do lógico''. Pausa no ecletismo!
Em seu oitavo disco, Edson Cordeiro cercou-se de pompa e circunstância, mas renunciou com elegância o sentido perversamente esnobe da expressão. ''Contratenor'' (gravadora Paulus) traz o intérprete pisando com segurança em solo erudito, através de árias do período barroco europeu. O título do álbum é uma alusão à sua classificação vocal ele consegue atingir quatro oitavas na escala musical e remete à qualidade dos eunucos, meninos castrados antes da puberdade para conservarem as vozes agudas tudo em nome da arte, inicialmente nas igrejas e, principalmente, nas óperas.
O repertório de ''Contratenor'' contém fragmentos de óperas escritas por Handel, Willibald von Gluck, Johann Hesse, Mozart, Vivaldi e Bach um consistente painel de peças apresentadas nos salões de concerto do século 18, adaptadas para voz e piano (a cargo do competente Antonio Vaz Lemes). Faixa a faixa, Edson Cordeiro verte suas cores e possibilidade vocais. E comove. Daí, ''Contratenor'' se diferenciar de trabalhos similares em que o pedantismo ou arrogância interpretativa repele ouvintes sem a menor cerimônia.
Em momento nenhum Edson se predispõe ao malabarismo vocal gratuito. O virtuosismo se expressa naturalmente, sem afetações, seja em obras emblemáticas como ''Ombra Mai Fu'' e ''Lascia Chi'o Pianga'' (ambas de Handel) respectivamente das óperas ''Xerxes'' e ''Rinaldo'' ou nas pouco difundidas e não por isso menos belas ao menos ao grande público brasileiro, pouco ou nada afeito à música lírica como ''Che Far• Senza Euridice'' (de Von Gluck), ária extraída de ''Orfeu e Eurídice''. Ou mesmo ''Stabat Mater''(Vivaldi). O encarte traz letras em italiano, alemão em português
Para cantar com rigor as árias, Cordeiro foi estudar com o professor Eduardo Janho-Abumrad, que assina a concepção estilística do disco. ''Graças ao Eduardo eu consegui fazer o projeto mais ambicioso da minha vida'', afirma Edson Cordeiro. O repertório, como explica, recai sobre a música barroca por encanto pessoal aliado ao fato de haver bons papéis masculinos concebidos para seu timbre vocal.
''Contratenor'' prima, obviamente, pelo virtuosismo. Por isso vai embevecer gente de coração crescido e alma leve. A seguir os principais trechos da entrevista que Edson Cordeiro concedeu à Folha2, por telefone.

''Contratenor'' exigiu técnica mais apurada, daí o aconselhamento com um professor de voz, ou foi mais intuitivo havendo a necessidade de alguém apenas para aparar as ''arestas'' vocais?
Não! O Eduardo Janho Abumrad, grande cantor lírico, pôs toda a minha voz em forma, no lugar certo. Vinha cantando intuitivamente há muitos anos, mas pra esse repertório seria impossível me guiar só pela intuição. O papel de um cantor erudito é mostrar a beleza de um repertório e emocionar. Se há dificuldade técnica, isso é problema do cantor. É como uma bailarina: ela tem que passar ao público que está voando mesmo que esteja usando toda técnica e força muscular para fazer isso.

Ou seja, sua voz ficou exclusivamente a serviço das emoções que as árias oferecem, é isso?
É. Graças ao Eduardo eu consegui fazer o projeto mais ambicioso da minha vida. Só será superado se eu vier a fazer outros CDs de música erudita. Até agora eu nunca havia feito nada tão difícil e com tanto rigor na minha vida.

Você diz no material de divulgação que sempre fugiu dos rótulos quando se trata de classificar sua voz. E agora afirma estar muito orgulhoso em ser um contratenor. Me explica isso.
Com o maior prazer. Vou explicar de maneira simples. Por exemplo: não se diz ''a contralto Nana Caymmi vai fazer um show em Londrina''. É que o repertório dela não é de música erudita, então não há necessidade de classificá-la pelo seu timbre de voz. Quando se trata de música erudita, é necessário falar em classificação vocal. Por isso, nesse disco, eu me deixo classificar como contratenor para que as pessoas saibam que, num recital, vou cantar peças eruditas e não ''I will Survive'' ou ''It's' Raining Men''. (risos)

Ou ''Barbie Girl'', não?
(risos) Exatamente!

Resumindo, a palavra contratenor será utilizada apenas em trabalho erudito?
É isso!

A voz no canto erudito tem um tempo de validade, de vida útil, digamos assim?
Tem. No homem, principalmente, muita coisa tem prazo de validade.

(risos) Não seja maldoso!
É verdade. A voz tem prazo de validade para cantar o repertório erudito. Quando se ouve Billie Holiday, você sente uma história na voz. Ela nunca poderia cantar aquele repertório se a voz dela não tivesse impregnada de muita história. A música popular permite ter até um certo ''defeito técnico'', como quem diz: ''eu vivi''. Agora, na música erudita, a perfeição técnica é necessária porque o compositor não escreve uma peça para uma voz desgastada e sim para uma voz saudável. A voz, como tudo no corpo, sofre os efeitos do tempo, mas não perde a história que traz consigo. Por isso encontra abrigo na música popular. Já a música erudita não pode ser cantada com a voz cansada, não tem como.

A sua voz trouxe quais histórias até agora?
Boa pergunta... Essa você me pegou... Quanta história, menino, quanta história... Olha, eu acho que trago na voz o depoimento da minha vida, a minha dedicação, o meu amor à música... Sou chamado de eclético... Eu até prefiro ser chamado de eclético do que ser chamado de limitado. Eu vou para onde quero, corro riscos, pago o preço, mas não abro mão da liberdade artística. Acho que minha voz traz isso: liberdade

Você acredita que sua voz pode confortavelmente levá-lo a qualquer estilo musical?
Não. Por exemplo, eu amo flamenco, mas eu nunca poderia cantar flamenco. É uma limitação técnica mesmo. Técnica no sentido de não ter a história ancestral desse tipo de canto em mim. Eu amo ouvir Camarón de la Isla ®MDBO¯®MDNM¯(1950/1992, o mais popular e influente cantor de flamenco), que eu adoro, mas eu me contento em apreciá-lo. Ao que me proponho fazer, há todo um trabalho de pesquisa, suor, amor, ódio até. Não é simplesmente para dizer: ''Olhem minhas habilidades''.

Você lembra quando ou em quais circunstâncias percebeu que sua voz tinha um agudo diferente, algo diferente?
Eu me lembro sim. Quando criança eu não sabia assobiar e eu fingia que estava assobiando com a voz. Todos os meninos sabiam assobiar e então eu punha os dois dedos na boca e dava um agudo com a voz.

Que barato!!
Isso eu guardei pra mim, nunca falei pra ninguém.

Então foi aí que você soube que tinha um agudo diferente do canto masculino?
Também. Uma vez assisti àquele filme ''O Tambor'' (do diretor Volker Schlondorff, ganhador da Palma de Ouro em Cannes, em 1979), que há um garoto que quando não conseguia as coisas que queria protestava com agudos. Não precisei fazer isso, mas percebi que tinha também alguma coisa que podia chamar a atenção. O que não deixa de ser uma arma, não?

Os elogios internacionais são muitos. E muitos, aliás, o tratam como fenômeno. Você se considera um fenônemo?
(risos) Todo cantor lírico tem que ser uma aberração. Ninguém canta daquele jeito sendo normal.

Serviço:
- O disco ''Contratenor'' , de Edson Cordeiro, também pode ser adquirido pelo site: www.paulus.com.br

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