DISCO - Choro prazeroso
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 01 de agosto de 2006
Liliana Onozato<br> Reportagem Local 
Sabe aquela ocasião em que vale a pena esperar? Seja pela primazia da técnica, quanto pela delicadeza dos arranjos, o CD ''Café no Sangue'', do grupo de choro homônimo de Londrina, nasceu à altura da determinação de seus integrantes. O registro sonoro aconteceu no renomado estúdio carioca Tenda da Raposa, em agosto de 2005, com o apoio do Programa Municipal de Incentivo à Cultura - Promic. De acordo com Fred e Nego, integrantes do grupo, o disco simboliza a concretização do projeto iniciado durante uma oficina de música.
São nove composições que, de modo suave, revelam ares da época em que o Clube do Choro de Londrina se apresentava na tradicional casa de madeira no Zerão, além de músicas próprias envolvidas por toques contemporâneos. Para completar, as assinaturas de Oscar Bolão (bateria), Matheus Garcia (violino), Luciana Gastaldi (piano) e Roberto Guerra Neto ''Robertão'' (violão) colorem as participações especiais em algumas faixas. O projeto gráfico da caixa do disco, concebido por Diogo Blanco, também segue a onda da inovação ao deixar de lado o usual acrílico para dar espaço às ilustrações em aquarela de Lucas Leibholz.
Com toda sutileza do gênero, o trabalho inicia grandioso à técnica de ''Elogio'', composta pelo bandolinista do grupo Frederico Henning. Entre as músicas do disco, duas foram compostas por ''Robertão'', fundador do Clube do Choro: ''Marlene'' e ''Chorinho no Bourbon''. ''Como ele não tinha registro de suas músicas com boa qualidade sonora, foi uma forma de imortalizar essa figura-chave dentro do Choro local'', refletiu Fred.
No rol das boas surpresas do disco, ''Caatinga'' (Samuel Muniz) ganha destaque com arranjos que sugerem uma pitada de polca com ritmos árabes; e ''Contrastes'' (Joel Nascimento), em que o duo piano e violino recebem exclusividade na harmonia.
Segundo Nego, violonista do Café no Sangue, houve um consenso entre os integrantes do grupo em envolver seus professores de oficina na gravação do disco. ''O Jayme Vignoli foi quem produziu nosso trabalho o que deu uma diferença grande e o Oscar Bolão participou na faixa ''Chorinho no Bourbon'', tocando bateria''.
Com exceção de ''Marlene'', gravada no estúdio Áudio Sonora, em Londrina, todas as faixas foram registradas no Tenda da Raposa. ''Sempre tivemos vontade de gravar no Rio de Janeiro, devido à qualidade e técnica apuradas. Além disso, nesse estúdio a gente pôde gravar ao mesmo tempo, tocando junto, mas em canais separados. Isso seria inviável em Londrina, apesar de ter bons estúdios aqui'', comentou Fred.
Questionado quanto à aceitação desse estilo urbano genuinamente brasileiro, o bandolinista revela que não há espaço e aceitação na cidade. ''Aqui tem público para o Choro, mas a gente pensa que poderia haver uma Oficina de Choro o ano todo, não apenas durante o Festival de Música'', ponderou o músico. Nego compartilha de sua opinião e acrescenta que as pessoas que se interessam pelo gênero encontram dificuldade para se conhecerem. ''Falam que o Choro está morrendo, mas lá em São Paulo e Rio de Janeiro, o pessoal jovem vai a bares de Samba e Choro, sem o estigma de ser algo ultrapassado'', disse o violonista.
Também integram o grupo Rosana Moraes (flauta), Samuca (violão), Guilherme Sá (cavaquinho) e André Vercelino (pandeiro, moringa e caxixi).
Tudo aconteceu assim, natural e desprentensioso. Um punhado de participantes da Oficina de Choro na 18 edição do Festival de Música de Londrina decidiu dar prosseguimento a prática adquirida, realizando encontros e ensaios. ''Nossa idéia era não deixar que esse vínculo estabelecido durante a oficina se perdesse, pois geralmente as pessoas acabam se dispersando'' completou Nego.
O Café no Sangue já apresentou diversas formações e nasceu sem propósito definido de seguir carreira musical. ''Eu, a Rosana e o André não estamos mais em Londrina. Gravar esse CD foi a maneira de registrar toda nossa história de convivência com o pessoal do Clube do Choro e nossas composições. Mas caso o CD dê repercussão, vamos seguir'', destacou Fred. Para o músico, tocar nas noites torna-se complicado. ''Estamos em seis pessoas. Geralmente a formação que mais tem pela cidade é de duas ou três pessoas, por isso, voz e violão faz sucesso.'', disse o violonista. Entre as incertezas quanto ao prosseguimento do grupo, fica a boa impressão de que Café no Sangue é a fusão da academia e do boteco no ponto certo.
Serviço
- CD ''Café no Sangue'', lançamento com apoio do Programa Municipal de Incentivo à Cultura - Promic. Preço sugerido: R$ 20,00. O CD pode ser solicitado pelo e-mail [email protected] Algumas faixas estão disponibilizadas para download através do site www.purevolum/cafnosangue


