DISCO - Canções que vêm de 'Céu'
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terça-feira, 20 de dezembro de 2005
Liliana Onozato<br> Reportagem Local 
O nome é curto. Em contrapartida, o talento dá indícios de estar em pleno estágio de ebulição. Aos 25 anos, depois de noites cantando em palcos diversos, a cantora e compositora paulistana Céu lança seu CD de estréia pela independente Ambulante Discos (distribuído pela Tratore) com apenas duas regravações e onze composições próprias.
São muitos os bons momentos em seu primeiro álbum, que flerta com influências de jazz, afro-sambas de Vinícius de Moraes e Baden Powell, música eletrônica, hip hop, reggae, funk e música raiz. Visão equivocada é a de quem imagina ser um trabalho confuso pela miscelânea de sonoridades. O resultado está longe de ser desconcertante, mas a obra-prima concreta de uma artista que sabe processar todas as informações que recebe.
Produzido por Beto Villares, figura conhecida no cenário da música brasileira contemporânea, e co-produzido por Céu exceto a faixa ''Ave Cruz'', por Antônio Pinto , o CD foi lançado antecipadamente este ano na França enquanto Céu ganhava espaço em festivais de jazz.
As duas regravações remetem a Bob Marley (''Concrete Jungle'') e a dupla João Bosco de Aldir Blanc (''O Ronco da Cuíca''), ambas com novas cores em seus redimensionamentos; na primeira, por exemplo, o apoio percurssivo da Nação Zumbi.
Entre suas assinaturas em parceria, destaque para ''10 Contados'' (Alec Haiat), em que os arranjos eletrônicos não se sobressaem à harmonia de violão, e ''Mais um Lamento'' (Danilo Morais), com marcantes compassos de contrabaixo e trombone.
Dona de uma voz aveludada, suingue sem exagero e graves ao pé do ouvido, Céu deixa resgistrado um novo capítulo no percurso da música popular brasileira.
Em entrevista por telefone à Folha2, a cantora e compositora afirma que gosta de ''fazer música para causar algum tipo de sentimento nas pessoas''. A seguir os principias trechos.
Seu disco foi produzido pelo Beto Villares, que já trabalhou com gêneros bem diferentes, como o Pato Fu, Zélia Duncan, Mestre Ambrósio, Herbert Vianna. Como surgiu essa relação entre vocês?
Eu conheci o Beto como fã porque ele estava fazendo o projeto ''Música do Brasil'', em que mapeou todas as músicas do folclore do país, de Sul a Norte. Era um projeto muito bonito e fiquei super admirada. Foi através do Antônio Pinto um amigo em comum que a gente se conheceu. E desde então, percebemos uma afinidade musical muito grande, ficamos amigos e começamos a trabalhar juntos. Eu até colaborei com backing vocal no CD ''Sortimento'' da Zélia Duncan porque ele produziu algumas faixas. Depois a gente começou a se ver direto. Ele me ajudou em algumas composições e nessa época eu já tinha a idéia de fazer disco e tinha como certo ter duas pessoas envolvidas nesse disco; o Beto principalmente como produtor e o Antônio Pinto que sempre esteve por perto.
Desde quando você começou a trabalhar nesse CD?
Com 18 anos eu comecei a compor. Efetivamente o início do disco foi no meio de 2002, mas eu posso considerar que esse disco foi feito desde o processo em que me iniciei na composição. Mas eu não ia lançar um disco com 19 anos porque estava maturando a idéia, estava aprendendo. Eu comecei a compor meio que intuitivamente. Estudei violão, teoria... E como eu tinha muita música na minha cabeça, comecei a colocar isso em prática. Mas o disco vem de uma história mais longa, até porque, como é um disco independente, precisou de um tempo mais longo para ser feito.
Quais foram suas experiências musicais registradas antes de gravar o seu primeiro CD?
Eu fiz muita coisa para a galera do rap aqui em São Paulo, tem o Coletivo Instituto moçada amiga minha que é um grupo de produtores, gravei bastante jingles, porque é isso que paga as contas, né? Além de ser uma escola bacana. Cantei no Disco do Apolo 9, participei de bandas, de música eletrônica (Vitrola Sterophonica) e de samba-funk (Sistema PF de Som).
Indo na contramão de muitas cantoras que se lançam no mercado fonográfico, você não se rende apenas à condição de intérprete, mas também compositora. Como é esse processo de composição? E as parcerias, como elas surgem?
É caótica. Cada uma é de uma maneira. Algumas vêm rápido como é o caso da faixa ''Rainha''. Agora há outras em que eu faço a letra, demoro para acabar, para outras eu tenho a melodia. O Alec Haiat, por exemplo, a gente ficou o maior tempão ensaiando junto várias músicas. Em ''Mais um Lamento'', o Danilo Morais fez comigo boa parte da melodia e a letra, quase inteira, daí eu não conseguia acabar e ele terminou para mim, fez uma harmonia linda. Não tem regra, sabe? Cada hora é de um jeito.
Acredito que deva ser dolorido para um artista quando tentam rotular seu trabalho. No disco são notáveis diversas influências sonoras. A gente pode dizer que o CD faz um retrato fiel do que é a Céu?
Faz sim. Ele é bem pessoal, mas também tem bastante a ''mão'' do Beto. Agora essa coisa de rotular é difícil mesmo, porque, embora você detecte várias sonoridades, eu tentei caminhar por uma unidade. A gente se preocupou com isso, porque tanto eu quanto ele gostamos de ''coisa de raiz'', até porque ele já veio com essa bagagem do Músicas do Brasil. Mas a gente gosta de novidade também. Então acho que o CD acaba misturando isso, formando uma sonoridade nova.
Na faixa ''Lenda'', a atriz Graziella Moretto também participou da composição. Vocês já se conheciam antes disso?
É uma história curiosa. Eu a conheci nos Estados Unidos, quando morei certo tempo por lá. E ela tinha um caderno de poesias e viu que eu estava escrevendo e disse 'ah, veja o que você acha', e tinham poesias super bonitas. Então eu acabei adaptando a poesia dela para a música, acrescentei outras coisas e virou uma composição nossa.
Você toca violão e piano. Seriam aliados apenas no processo de criação? É curioso ver que você não toca em nenhuma faixa do disco.
É, mas não posso dizer que eu ''tooooco''. Seria mais para compor mesmo. Mas pode acontecer de eu tocar algum dia, mas o meu instrumento é a voz mesmo. O que eu gosto de apresentar no palco é a minha voz. O piano e o violão servem mais para eu me situar nos acordes.
Quando foi sua primeira aparição profissional em público?
Teve uma bem marcante eu tive outras, mas como backing vocal de banda num musical realizado no Sesc Pompéia, na zona oeste de São Paulo, com músicos fantásticos: Johnny Alf, Mônica Salmaso, uma coisa maravilhosa e era um teatro musical em homenagem ao compositor de marchinhas chamado João de Barro (Braguinha 90 em 90). Eu cantei ''Tem gato na Tuba''.
O que você ouve quando você não está no palco. Por exemplo, qual foi o último CD que você comprou?
Hum, deixa eu pensar. O último CD que eu comprei foi o novo da Nação Zumbi. Eu ouço coisas novas, ''Cidadão Instigado'', música da Jamaica, escuto muito jazz, Baden Powell outro dia mesmo eu fiquei escutando Baden a noite toda. É variado.
Você já está em turnê?
Eu fiz um show no dia 30 de novembro, no Sesc e dia 10, no Rio de Janeiro. Eu pretendo cantar muito agora nesse ano que vai entrar. Quero rodar o Brasil cantando.
O disco da cantora e compositora Céu também pode ser adquirido pelo site www.ambulantediscos.com.br


