DISCO - Caetano grava álbum 'alienígena'
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sábado, 24 de abril de 2004
Antônio Mariano Júnior<br> Reportagem Local 
Caetano Veloso ainda acredita que tudo o que faz, canta, fala, declara, lê, relê, escreve, apregoa, prega, chuleia, enfim produz há de provocar deslumbramentos maiores. Ele ainda tem razão. Se não, como explicar ''A Foreign Sound'' em que revisita canções norte-americanas com a disposição de um adolescente boêmio que coloca lado a lado Nirvana e Irving Berlin. Fosse outro, seria apenas um disco de canções made in english algumas do tempo do onça, do arco-da-velha que qualquer obtuso falador da língua inglesa poderia conceber.
É o tal negócio: quem apresenta som estrangeiro é Caetano Veloso e, por isso mesmo, ''A Foreign Sound'' tem algo a mais já ganhou disco de ouro e foi lançado simultaneamente nos Estados Unidos, ok? ''Parece que ambiciono ampliar o mercado, entrar no grande mundo!! Tenho ambições maiores do que esta, mas não exatamente esta'', escreveu Caetano no material de divulgação do disco, cá pra nós subjetivo pacas. Em bom português, o cantor e compositor baiano diz que a idéia de um repertório anglo-americano já se insinuava há 30 anos, tempo suficiente para esquentar, mornar, esfriar e só agora ser retirado da fôrma.
A seleção é classificada de ''alienígena''. São obras de Ets como Bob Dylan, Elvis Presley, Paul Anka, Kurt Cobain (''Ivan Lins é música, Nirvana é lixo'', provoca no encarte), Cole Porter, Duke Ellington, George e Ira Gershwin, entre outros. Escreveu ele também no material de divulgação: ''Pode ser que as minhas gravações suscitem algum interesse enviesado. Não espero mais do que isso''. Então tá!
''A Foreign Sound'' é um trabalho para intérpretes. Caetano não passa de um cantor mediano atualmente dado a releituras de canções estrangeiras em sua discografia não raro é ouvir seu sotaque em faixas em inglês. Na maioria das 23 faixas muitas faixas, por sinal mister Velô destila suavidades vocais e transforma, por exemplo, ''Body and Soul'' numa espécie de jingle para comerciais do leite Molico.
É um álbum que requer paciência para apreendê-lo. Não é chato, é longo (75 minutos), mas funciona no todo. ''Carioca (The Carioca)'' abre o sarau com percussão acentuadamente baiana deliciosa, diga-se. A partir daí, o clima instimista predomina e é quebrado aqui e ali através na quase declamada ''It's Alright, Ma (I'm Only Bleeding)'', de Bob Dylan; ''Come As You Are'', do Nirvana, e na experimental e breve ''Detached'', do DNA poderia estar aí o fio condutor do disco, mas...
Faz-se necessária uma comparação com ''Fina Estampa'', de 1995, em que Caetano arriou homenagens ao cancioneiro espanhol. Neste álbum, Caetano e seu fiel escudeiro Jaques Morelembaum abusaram das cordas para revestir canções hispânicas e causaram certa sonolência no ouvinte. Em ''A Foreing Sound'', alguns dos arranjos beiram o convencionalismo, mas há boas sacadas. Quatro delas: ''Smoke Gets In Your Eyes'' estofada só com saxofones; a incidência de trechos do arranjo original de ''Baby'' na manjada ''Diana'', agora em andamento mais lento; e ''Love For Sale'', só à capela; e ''Love me Tender'', agora uma canção de ninar.
Quando Caetano Veloso acompanha-se apenas de violão, faixas como ''I Only Have Eyes For You'', ''The Will Never be Another You'' (com o toque de Gilberto Gil) e ''Summertime'' são mais valorizadas e aí sim insinua-se o que Caetano gostaria de ser, um intérprete. Para quê regravar com pompa ''Nature Boy'' quando o registro de 1986 já estava de bom tamanho? E por quê tamanha cerimônia na antológica ''Feelings'', do brasileiro Morris Albert, quando funcionaria melhor na base do banquinho e violão?
''A Foreing Sound'' é bom disco. Apenas um disco bom. Cuidado: em se tratando de mais uma empreitada de Caetano Veloso a máquina promocional pode superestimar o produto.


